Com a atual educação pública, o dito de que "nascemos simples e ignorantes" será complementado com "nascemos simples e ignorantes, e assim permaneceremos", pois a palavra ignorante é derivada do grego gno, que é aplicada a ideia do saber, e o prefixo i é uma negação dessa ideia.
Com a atual educação pública, não é trabalhado o saber a seus alunos – saber esse que deveria levá-los a um protagonismo e criticidade. Essa educação trabalha mais a alienação e o "emburrecimento". Isso porque ela se esbarra na burocracia, na corrupção, na falta de ética de muitos políticos, na perda da dignidade do educador, na baixa autoestima, na omissão da família, no descaso da sociedade, no excesso de violência e na não “reprovação”, entendida de maneira equivocada pelos pseudos-educadores.
Ela deveria ser como uma bússola, e esta deveria sempre ter como norte a cidadania, o protagonismo, a criticidade, o humanismo, a socialização e a equidade, mas essa bússola lembra um pouco a do Capitão Jack Sparrow (interpretado pelo ator Johnny Depp no filme Piratas do Caribe). Os personagens que fazem parte das aventuras desse capitão veem a bússola como um objeto e até mesmo uma ferramenta sem relevância, simplesmente por estar quebrada, mas eles não percebem que essa bússola é diferente das outras, ela aponta sempre para o que você mais quer no mundo. E, se tratando da educação, o que os políticos mais querem em nosso País é estatística; são números altos demonstrando que a escolaridade dos estudantes tem se elevado e trazendo, com essa hipocrisia, alguns analfabetos e um alto índice de analfabetismo funcional com diplomas de 1º e 2º graus, e um déficit em letramento além da capacidade para se reso lver problemas cotidianos, implicando consequentemente em futuros maus profissionais.
Esses formandos e/ou recém-formados servirão para aumentar ainda mais essa massa de manobra, tratados como gado marcado e destinados a uma medíocre existência devido a uma manipulação desse nosso sistema falho, corrupto e corruptor, que violenta a dignidade dos poucos que resolvem deixar cair a máscara da alienação, a ponto de não iludir-se pela cortina de fumaça com resultados manipuláveis e equivocados.
Será que ainda poderemos chamar nossos discentes de educandos ou apenas de estudantes? Estudantes por estarem em uma sala de aula, sendo simplesmente adestrados nos princípios mais básicos da educação, pois o ato de educar engloba mudança de comportamento, implica em um devir e em uma criticidade e em uma cognição, o que vem a reforçar o sujeito como ser cognoscente.
Por sorte, temos ainda bons profissionais da educação. Apesar de serem a minoria, eles continuam lutando e não sonhando, pois a grande maioria vive de sonhos e isso diferencia o bom do medíocre, visto que os bons lutam, são proativos e protagonistas de uma educação que faz a diferença, elevando assim a dignidade do povo brasileiro e sendo o diferencial nesse nosso sistema, apesar de a estatística colocar todos os educadores em um mesmo saco e generalizar a incompetência e a falta de profissionalismo como se fosse um problema de todos os profissionais.
Com todos esses reveses, os bons educadores são como estrelas em um universo frio e escuro de indiferenças.
(Texto do professor Wolmer Ricardo Tavares, docente e coordenador de extensão da UNIPAC)
Consultoria psicopedagógica: distúrbios de aprendizagem, dislexia, sexualidade infantil. Acompanhamento psicopedagógico e pedagógico. Ministro palestras em escolas (tema a escolha do contratante), consultas psicopedagógica, hiperatividade, fobia escolar ... Contato: carmemfidalgo@gmail.com
terça-feira, 5 de abril de 2011
domingo, 27 de fevereiro de 2011
A Psicopedagogia e a Familia
A PSICOPEDAGOGIA E A FAMÍLIA
Isa Spanghero Stoeber, Zuleica P. De Felice
Ambas coordenam a seção de Psicopedagogia da Revista Viver, onde escrevem ou entrevistam profissionais, procurando criar um espaço de reflexão sobre essas áreas tão fundamentais de estudo, pesquisa e atuação. Nesta entrevista, elas discorrem sobre sua prática e os pontos de interligação entre as áreas profissionais, que permitem um trabalho de ótima parceria, com benefício para os indivíduos, as instituições e os profissionais
É possível desenvolver um trabalho psicopedagógico que inclua também a família?
Fazer um trabalho psicopedagógico interligado a uma terapia com a família amplia sobremaneira as possibilidades de investimento nos recursos pessoais e familiares dos pacientes que nos chegam ao consultório. Não nos podemos esquecer de que os relacionamentos humanos possuem múltiplas facetas, pois cada um de nós desempenha na vida uma enorme variedade de papéis, muitos dos quais justamente com alicerces na dinâmica família/indivíduo: papel de pai, de mãe, de filho, filha, de avô, avó, de irmão, irmã, para apenas citarmos os referentes à família nuclear. O sucesso ou insucesso dos outros inumeráveis papéis que teremos de exercer ao longo de nossa história dependerão, em grande parte, do sucesso ou insucesso de nossas relações dentro do sistema familiar. Poder investir neste sistema é, então, poder desenvolver meios eficazes de atuação em vários outros sistemas, entre eles a escola. É neste ponto de confluência que surge a riqueza de um trabalho psicopedagógico em parceria com um trabalho de terapia de família. Temos percebido, em nossa prática, que as queixas, sejam elas quais forem - dificuldade de atenção e concentração, no processo de aquisição da leitura e da escrita, no processo matemático, na organização, no tempo e espaço, nos relacionamentos, etc - sempre implicam a inclusão das instituições e, principalmente, a da família: o indivíduo nunca está sozinho no espaço terapêutico, pois traz com ele próprio todas essas relações.
Como é o trabalho de um terapeuta familiar sistêmico?
Quando uma família nos procura, o que ela pede é que a ajudemos a ver em que ponto de sua história ela ficou paralisada, que nó impede seu perfeito funcionamento, ou qual padrão de ligação não satisfaz. Salvador Minuchin, um dos grandes terapeutas familiares da atualidade, afirma que as famílias constroem histórias sobre suas vidas, e depois, com o passar dos tempos, elas se tornam as próprias histórias que contam. Por isto, a maneira como se organiza uma família está intimamente relacionada à visão que ela tem de si mesma. Com o passar do tempo, essa visão acaba por ajudar a construir os mitos familiares que, por sua vez, reforçam a visão que a família tem de si, e assim, sucessivamente. Muitas vezes, quando a família traz os seus problemas ao consultório, o que ela traz realmente são as definições que criou para si própria, e que acabam por funcionar como carcereiras: tentar escapar delas é como apalpar a morte, pois não se pode imaginar a vida de outra maneira. Numa dinâmica familiar, os vínculos emocionais que atam uns aos outros têm a densidade de um fio de aço: possibilitar movê-los, flexibilizá-los ou desatá-los é convidar os membros de um sistema familiar a percorrer um caminho cheio de perigos, mas com possibilidades imensas de novas descobertas. Nesse sistema, tudo aparece em forma de interações: não há o indivíduo sozinho, mas o indivíduo em interação com...Assim, uma mulher, enquanto esposa de um homem autoritário, pode funcionar como submissa, enquanto ela mesma é uma déspota na relação com os filhos. Estes, por sua vez, com cada um de seus irmãos podem agir de uma maneira: dóceis com alguns, blefadores com outros, dominadores com um mais novo, e assim por diante... Na terapia de família de linha sistêmica o terapeuta também faz parte do processo. Ele, ao experienciar as formas de atuação da família, por sua vez, revê suas próprias formas de atuação: ao filiar-se ao sistema familiar, possibilita que os membros daquele sistema também se filiem a ele. E é por meio da conquista da confiança na figura do terapeuta que se tornam plausíveis as mudanças necessárias.
Como deve ser vista a prática psicopedagógica, e em que sentido ela se articula com a terapia de família de linha sistêmica?
A prática psicopedagógica deve ter um olhar voltado para a saúde, para o desenvolvimento do potencial do sujeito como construtor do conhecimento, e, para tal, deve auxiliá-lo a sair do espaço e do tempo em que está, ressignificando sua aprendizagem. Deve também olhar as dificuldades -sejam cognitivas ou afetivas - como oportunidades de crescimento, pois todo indivíduo aprende além dos aspectos educacionais ou pedagógicos. Ela pode ter como suporte teórico os saberes das outras ciências, construindo-se e articulando-se em diferentes níveis, e, neste aspecto, articula-se muito bem com a terapia familiar sistêmica. Lembrando a fala de Lino de Macedo: "Qualquer pessoa pode beneficiar-se da psicopedagogia, pois ela é também uma prestadora de serviços. Como o conhecimento não tem fronteiras e nem proprietários, ela aceita o sujeito do conhecimento tal como ele se apresenta.."
Qual a função do psicopedagogo no processo ensino-aprendizagem e como pode ajudar a lidar com o fracasso escolar?
O processo de aprendizagem está intimamente ligado ao processo de estar no mundo, com suas dificuldades, obstáculos e "confusões vivenciais". Ora, se cada situação é um processo de aprendizado e compreensão, podemos encarar os obstáculos no percurso da vida - tais como, por exemplo, uma situação de fracasso escolar - como favorecedores de crescimento. Parece, no entanto, que a maior preocupação que se tem com respeito a situações consideradas "de fracasso escolar" é com relação ao futuro: seriam elas prenúncio de um fracasso na vida profissional, por exemplo? É importante lembrar que o fracasso escolar deve ser visto como sintoma de alguma outra dificuldade, que, por sua vez, solicita reflexão e mudança. Ligado objetivamente à reprovação escolar, ao indivíduo que não consegue aprender dentro de determinadas estruturas, o fracasso escolar, no entanto, pode ser visto inclusive como um rótulo que camufla as dificuldades de um sistema escolar. O campo de atuação onde ocorre pode ser determinante: reavaliar esse campo e os padrões por ele fixados é de vital importância para a compreensão de situações de dificuldade. Olhar um indivíduo com dificuldades escolares como se fosse um tonel que se esvazia, que não tem memória e não registra nada é, no mínimo, uma postura reducionista, que não permite encará-lo como sujeito de sua própria história. Por isto, o psicopedagogo deve trabalhar em conjunto com a família, a escola e outros profissionais ou instituições envolvidas, para poder chegar a um consenso a respeito dos problemas e das possibilidades de soluções. São questões como essas que merecem a atenção do psicopedagogo, e podem transformá-lo num mediador entre o aluno, a escola e a família, tanto instrumentalizando esse aluno para sua inclusão no sistema de ensino, como instrumentalizando as instituições no sentido de relativizar as expectativas.
Isa Spanghero Stoeber, Zuleica P. De Felice - Isa - orientadora educacional e terapeuta de família. Zuleica - psicopedagoga clínica e institucional.
Isa Spanghero Stoeber, Zuleica P. De Felice
Ambas coordenam a seção de Psicopedagogia da Revista Viver, onde escrevem ou entrevistam profissionais, procurando criar um espaço de reflexão sobre essas áreas tão fundamentais de estudo, pesquisa e atuação. Nesta entrevista, elas discorrem sobre sua prática e os pontos de interligação entre as áreas profissionais, que permitem um trabalho de ótima parceria, com benefício para os indivíduos, as instituições e os profissionais
É possível desenvolver um trabalho psicopedagógico que inclua também a família?
Fazer um trabalho psicopedagógico interligado a uma terapia com a família amplia sobremaneira as possibilidades de investimento nos recursos pessoais e familiares dos pacientes que nos chegam ao consultório. Não nos podemos esquecer de que os relacionamentos humanos possuem múltiplas facetas, pois cada um de nós desempenha na vida uma enorme variedade de papéis, muitos dos quais justamente com alicerces na dinâmica família/indivíduo: papel de pai, de mãe, de filho, filha, de avô, avó, de irmão, irmã, para apenas citarmos os referentes à família nuclear. O sucesso ou insucesso dos outros inumeráveis papéis que teremos de exercer ao longo de nossa história dependerão, em grande parte, do sucesso ou insucesso de nossas relações dentro do sistema familiar. Poder investir neste sistema é, então, poder desenvolver meios eficazes de atuação em vários outros sistemas, entre eles a escola. É neste ponto de confluência que surge a riqueza de um trabalho psicopedagógico em parceria com um trabalho de terapia de família. Temos percebido, em nossa prática, que as queixas, sejam elas quais forem - dificuldade de atenção e concentração, no processo de aquisição da leitura e da escrita, no processo matemático, na organização, no tempo e espaço, nos relacionamentos, etc - sempre implicam a inclusão das instituições e, principalmente, a da família: o indivíduo nunca está sozinho no espaço terapêutico, pois traz com ele próprio todas essas relações.
Como é o trabalho de um terapeuta familiar sistêmico?
Quando uma família nos procura, o que ela pede é que a ajudemos a ver em que ponto de sua história ela ficou paralisada, que nó impede seu perfeito funcionamento, ou qual padrão de ligação não satisfaz. Salvador Minuchin, um dos grandes terapeutas familiares da atualidade, afirma que as famílias constroem histórias sobre suas vidas, e depois, com o passar dos tempos, elas se tornam as próprias histórias que contam. Por isto, a maneira como se organiza uma família está intimamente relacionada à visão que ela tem de si mesma. Com o passar do tempo, essa visão acaba por ajudar a construir os mitos familiares que, por sua vez, reforçam a visão que a família tem de si, e assim, sucessivamente. Muitas vezes, quando a família traz os seus problemas ao consultório, o que ela traz realmente são as definições que criou para si própria, e que acabam por funcionar como carcereiras: tentar escapar delas é como apalpar a morte, pois não se pode imaginar a vida de outra maneira. Numa dinâmica familiar, os vínculos emocionais que atam uns aos outros têm a densidade de um fio de aço: possibilitar movê-los, flexibilizá-los ou desatá-los é convidar os membros de um sistema familiar a percorrer um caminho cheio de perigos, mas com possibilidades imensas de novas descobertas. Nesse sistema, tudo aparece em forma de interações: não há o indivíduo sozinho, mas o indivíduo em interação com...Assim, uma mulher, enquanto esposa de um homem autoritário, pode funcionar como submissa, enquanto ela mesma é uma déspota na relação com os filhos. Estes, por sua vez, com cada um de seus irmãos podem agir de uma maneira: dóceis com alguns, blefadores com outros, dominadores com um mais novo, e assim por diante... Na terapia de família de linha sistêmica o terapeuta também faz parte do processo. Ele, ao experienciar as formas de atuação da família, por sua vez, revê suas próprias formas de atuação: ao filiar-se ao sistema familiar, possibilita que os membros daquele sistema também se filiem a ele. E é por meio da conquista da confiança na figura do terapeuta que se tornam plausíveis as mudanças necessárias.
Como deve ser vista a prática psicopedagógica, e em que sentido ela se articula com a terapia de família de linha sistêmica?
A prática psicopedagógica deve ter um olhar voltado para a saúde, para o desenvolvimento do potencial do sujeito como construtor do conhecimento, e, para tal, deve auxiliá-lo a sair do espaço e do tempo em que está, ressignificando sua aprendizagem. Deve também olhar as dificuldades -sejam cognitivas ou afetivas - como oportunidades de crescimento, pois todo indivíduo aprende além dos aspectos educacionais ou pedagógicos. Ela pode ter como suporte teórico os saberes das outras ciências, construindo-se e articulando-se em diferentes níveis, e, neste aspecto, articula-se muito bem com a terapia familiar sistêmica. Lembrando a fala de Lino de Macedo: "Qualquer pessoa pode beneficiar-se da psicopedagogia, pois ela é também uma prestadora de serviços. Como o conhecimento não tem fronteiras e nem proprietários, ela aceita o sujeito do conhecimento tal como ele se apresenta.."
Qual a função do psicopedagogo no processo ensino-aprendizagem e como pode ajudar a lidar com o fracasso escolar?
O processo de aprendizagem está intimamente ligado ao processo de estar no mundo, com suas dificuldades, obstáculos e "confusões vivenciais". Ora, se cada situação é um processo de aprendizado e compreensão, podemos encarar os obstáculos no percurso da vida - tais como, por exemplo, uma situação de fracasso escolar - como favorecedores de crescimento. Parece, no entanto, que a maior preocupação que se tem com respeito a situações consideradas "de fracasso escolar" é com relação ao futuro: seriam elas prenúncio de um fracasso na vida profissional, por exemplo? É importante lembrar que o fracasso escolar deve ser visto como sintoma de alguma outra dificuldade, que, por sua vez, solicita reflexão e mudança. Ligado objetivamente à reprovação escolar, ao indivíduo que não consegue aprender dentro de determinadas estruturas, o fracasso escolar, no entanto, pode ser visto inclusive como um rótulo que camufla as dificuldades de um sistema escolar. O campo de atuação onde ocorre pode ser determinante: reavaliar esse campo e os padrões por ele fixados é de vital importância para a compreensão de situações de dificuldade. Olhar um indivíduo com dificuldades escolares como se fosse um tonel que se esvazia, que não tem memória e não registra nada é, no mínimo, uma postura reducionista, que não permite encará-lo como sujeito de sua própria história. Por isto, o psicopedagogo deve trabalhar em conjunto com a família, a escola e outros profissionais ou instituições envolvidas, para poder chegar a um consenso a respeito dos problemas e das possibilidades de soluções. São questões como essas que merecem a atenção do psicopedagogo, e podem transformá-lo num mediador entre o aluno, a escola e a família, tanto instrumentalizando esse aluno para sua inclusão no sistema de ensino, como instrumentalizando as instituições no sentido de relativizar as expectativas.
Isa Spanghero Stoeber, Zuleica P. De Felice - Isa - orientadora educacional e terapeuta de família. Zuleica - psicopedagoga clínica e institucional.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Transtorno de conduta
TRANSTORNO DE CONDUTA
Fabiane Cristina Favarelli Navega
Sumário
Transtorno de conduta: uma orientação a educadores
Objetivou-se no presente trabalho informar e orientar os profissionais ligados a educação sobre as principais características, evolução, diagnóstico e tratamento do transtorno de conduta, desde a infância até a fase adulta. Pretendeu-se também esclarecer as principais diferenças entre a indisciplina e o transtorno apontado, bem como ressaltar a importância de um diagnóstico precoce e as possíveis intervenções medicamentosas, terapêuticas, familiares e escolares.
Palavras-Chave: Transtorno de conduta; caracterização da doença; diagnóstico; curso e prognóstico; tratamento.
Aimed to this present job to inform and to manage the professionals connected with the education about the main features, evolution, diagnosis and treatment of conduct disorder, since the childhood until adulthood. It was intended also to explain the main differences between the indiscipline and the conduct emphasized, as well as highlight the importance of an early diagnosis and the possible drug interventions, therapeutic, family and school.
Keywords: < conduct disorder; characterization of disease; diagnosis; course and prognosis; treatment >
INTRODUÇÃO
Com base nos relatos de educadores e familiares sobre atitudes inadequadas ou consideradas inaceitáveis para crianças e adolescentes, o artigo levantará algumas considerações importantes sobre o Transtorno de Conduta, desde a infância até a fase adulta. Todavia, serão apontadas os principais aspectos tais como: caracterização do transtorno, diagnóstico, curso e prognóstico, fatores associados ao comportamento, avaliação e tratamento, critérios avaliativos, prevalência e intervenções.
O objetivo do presente trabalho é transmitir algumas informações relevantes aos profissionais ligados à área da educação, com o intuito de informar e diferenciar a indisciplina de um Transtorno de Conduta, tendo em vista os inúmeros casos de violência física e moral que emergem hoje nas salas de aula, nas famílias e na sociedade.
O artigo busca dar subsídios aos educadores, orientando o seu trabalho educacional e visando o bem estar da criança.
Acredito que o esclarecimento de tal transtorno seja válido, pois nota-se que atualmente o número de violência, homicídios e uso de drogas aumenta avassaladoramente, sendo assim, através da informação tentar precocemente amenizar as más condutas.
1.CARACTERIZAÇÃO DO TRANSTORNO
Alguns comportamentos apresentados durante a infância podem ser observados no desenvolvimento normal de uma criança, tais como: mentir e matar aula, mas segundo Bordin (2.000, p.01), “Para diferenciar normalidade de psicopatologia, é importante verificar se esses comportamentos ocorrem esporadicamente e de modo isolado ou se constituem síndromes”.
Para que o indivíduo possa se enquadrar no diagnóstico de Transtorno de Conduta deverá ter apresentado nos últimos 12 meses comportamentos que incomodem ou perturbem o próximo, se envolver em atividades perigosas e ilegais, a maioria dos envolvidos não apresentam sofrimento ou constrangimento pelas suas atitudes, bem como não se importam em ferir ou maltratar animais e pessoas moralmente ou fisicamente.
Mondoni (2.006, p.01) ressalta também que, “Comportamentos que transgridem a lei constituem a elinqüência”. Todavia, o que se observa é que este distúrbio do comportamento é mais frequente na infância e adolescência e a primeira causa de encaminhamento ao psiquiatra infantil.
Com base em critérios diagnósticos internacionais (DSM-IV), na infância e na adolescência tais comportamentos fazem parte das categorias Transtorno Desafiador de Oposição (TDO) e Transtorno de Conduta (TC), já na fase adulta, a partir dos 18 anos, se enquadram no Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS).
2.DIAGNÓSTICO
Segundo o DSM-IV (1.995) O Transtorno de Conduta implica um padrão repetitivo e persistente de comportamentos no qual são violados os direitos dos outros e regras sociais.
Para que o diagnóstico seja fidedigno, faz-se imprescindível a presença de pelo menos, três das condutas abaixo apontada, e persistente por um período de 12 meses.
•Frequentemente persegue, atormenta, ameaça ou intimida os outros.
•Frequentemente inicia lutas corporais.
•Já usou armas que podem causar ferimentos graves.
•Foi cruel com pessoas, ferindo-as fisicamente.
•Foi cruel com animais.
•Roubou ou assaltou confrontando a vítima.
•Submeteu alguém a atividade sexual forçada.
•Iniciou incêndio com a intenção de provocar sérios danos.
•Destruiu propriedade alheia.
•Arrombou ou invadiu, casas, prédios ou carros.
•Mente ou engana para obter ganhos materiais, favores ou para fugir de obrigações.
•Furtou objetos de valor.
•Frequentemente passa a noite fora, apesar da proibição dos pais.
•Fugiu de casa pelo menos duas vezes, passando a noite fora, enquanto morava com os pais ou substitutos.
•Falta da escola sem motivo, matando aula frequentemente.
Fonte: http://www.psicologia.com.pt/instrumentos/dsm_cid.php
O DSM-IV subdivide o Transtorno de Conduta em dois subtipos: surgimento antes dos 10 anos de idade e após os 10 anos. Tais comportamentos, quando persistentes até a fase adulta (após 18 anos), se caracterizam por Transtorno de Personalidade Antissocial.
O CID-10 aponta que os transtornos de conduta são caracterizados por padrões persistentes de conduta dissocial, agressiva ou desafiante. Tal comportamento deve comportar grandes violações das expectativas sociais próprias à idade da criança; deve haver mais do que as travessuras infantis ou a rebeldia do adolescente e se trata de um padrão duradouro de comportamento (seis meses ou mais) (CID-10, 1993)
O diagnóstico se baseia na presença de condutas do seguinte tipo:
•manifestações excessivas de agressividade e de tirania;
•crueldade com relação a outras pessoas ou a animais;
•destruição dos bens de outrem;
•condutas incendiárias;
•roubos;
•mentiras repetidas;
•cabular aulas e fugir de casa;
•crises de birra e de desobediência anormalmente freqüentes e graves.
Fonte: CID-10, 1993.
A referida norma citada anteriormente, também subdivide o Transtorno de conduta em: socializados e não socializados. Transtorno de conduta não socializado é caracterizado pela presença de um comportamento dissocial ou agressivo persistente associado a uma alteração significativa e global das relações com as outras crianças.
Já os diagnosticados com o transtorno socializado apresentam comportamento dissocial ou agressivo manifestando-se em indivíduos habitualmente bem integrados com seus companheiros.
Segundo Silva (2.002 apud DSM-IV-TR, 2.008, p.207) o diagnóstico dado pelo especialista deve especificar a gravidade do transtorno em leve, moderado e grave.
Baseado nos critérios do CID-10 (1.992/1.993) os indivíduos com Transtorno de Oposição e Desafio e Transtorno de Conduta devem apresentar comportamentos pouco empáticos ou pouco preocupados com os sentimentos, desejos e bem-estar dos outros. Podem não apresentar sentimentos de culpa e remorso, que aprendem a simular para evitar punições. A autoestima é baixa e há reduzida tolerância à frustração, ocorrem acessos de raiva, irritabilidade imprudência, ocasionando um número alto de acidentes.
3.CURSO E PROGNÓSTICO
Evidências empíricas sugerem que as primeiras manifestações do comportamento antissocial podem aparecer precocemente, aproximadamente aos 18 meses, onde a criança já apresenta comportamentos como agredir os pais e destruir objetos.
Como visto anteriormente os sintomas do Transtorno de Conduta podem surgir desde a infância e persistir até a fase adulta. Na maior parte dos casos, quando o Transtorno de Conduta surge antes dos 10 anos de idade, é muito comum a presença do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). De acordo com Bordin (2.000, p.03) pode observar-se também “A presença de comportamento agressivo, déficit intelectual, convulsões e comprometimento do sistema nervoso central”.
De acordo com Bordin, o aparecimento do TDAH nos diagnóstico de Transtorno de Conduta pode chegar a 43% dos casos, envolvendo principalmente os meninos, já no sexo feminino é mais comum o aparecimento do quadro de ansiedade e depressão (33% dos casos).
Conforme Mondoni (2.006, p.05) “A prevalência do Transtorno de Conduta varia de acordo com muitos estudos, ficando entre 5 a 10%, sendo 2 a 3 vezes mais comuns em meninos”.
Pacheco et. al.(2.005, p.04) aborda que “Crianças que recebem o diagnóstico de Transtorno Desafiador de Oposição na infância, tendem a apresentar um risco aumentado para desenvolver posteriormente Transtorno de Conduta na adolescência”.
A maior parte das crianças diagnosticadas por Transtorno de Conduta ou Transtorno Desafiador de Oposição tendem a apresentar dificuldades de aprendizagem e fracasso escolar.
O que se observa é que comportamentos antissociais apresentados logo na infância, quando não tratados adequadamente, podem ser protótipos de comportamentos delinquentes para a fase adulta, discórdia conjugal, problemas de relacionamento social, uso de drogas e álcool.
Alguns fatores podem estar associados ao comportamento antissocial da criança. O que se observou em alguns estudos em clínicas psiquiátricas, foi que o ambiente familiar e social desajustado poderiam ser fatores de desencadeamento dos Transtornos.
Conforme aponta Bordin (2.000, p.04) alguns fatores seriam “Receber cuidados maternos inadequados, viver em meio à discórdia conjugal, pais agressivos e violentos, mães com problemas de saúde mental e viver em áreas urbanas”. Ainda esta autora nos afirma que há uma taxa maior de criminalidade nos pais biológicos do que nos pais adotivos, formulando a hipótese de uma predisposição biológica para o comportamento anitssocial.
De acordo com Morana (2.006, p.03) sobre o entendimento desses pacientes “É fundamental se considerar o ambiente em que vive o indivíduo e a interação com ele estabelecida”. Ressalta ainda a autora que a negligência e os maus-tratos recebidos por uma criança em que o cérebro está sendo esculpido pela experiência, induz a uma anomalia da circuitaria cerebral, podendo conduzir à agressividade, hiperatividade, distúrbio da atenção, delinquência e abuso de drogas. (Morana, 2.006)
4.AVALIAÇÃO
Segundo Barbieri (2.004, p.02) a avaliação da criança será feita a partir de “Assinalamentos e interpretações desde a primeira entrevista com o paciente e envolvidos com o mesmo, e durante a aplicação de técnicas projetivas”.
Para Morana (2.006, p.04) “A avaliação diagnóstica enfrenta polêmica, pois há uma divergência entre valorização das entrevistas livres ou aplicação de testes padronizados.” Com tudo, há profissionais que se utilizam de entrevistas e outros que se apóiam em testes psicológicos.
De qualquer maneira, independente dos procedimentos utilizados para se fazer o psicodiagnóstico, faz-se importante investigar toda a história de vida do examinado, verificando se há ou não padrão anormal de conduta, tomando como base os critérios estabelecidos pelo DSM-IV e CID-10.
Com base nos estudos e relatos de Barbieri (2.004), para se fazer o diagnóstico do transtorno, foi possível notar o uso dos seguintes instrumentos: entrevistas de anamnese, técnica de Rorschach, sessões psicanalíticas lúdicas, entrevista familiar diagnóstica e devolutiva.
5.TRATAMENTO
As pessoas diagnosticadas pelo Transtorno desafiador de Oposição, Transtorno de Conduta ou Transtorno de Personalidade necessitam de uma excessiva atenção e acompanhamento precoce, com o intuito de se amenizar os comportamentos antissociais.
Os tratamentos citados na literatura são bastante variados, podendo incluir: acompanhamento do indivíduo diagnosticado, intervenções familiares e junto a equipe escolar, orientando e treinando a família, comunidade e professores.
Os melhores resultados têm sido apontados por aqueles que têm por objetivo o tratamento de sintomas específicos, e a terapia comportamental dialética vem recebendo um reconhecimento internacional de sua eficácia em Transtorno de Personalidade. (MORANA, 2.006)
O que se observa é que nenhum tratamento obtém um resultado satisfatório quando aplicado isoladamente, isto é, faz-se necessário uma equipe multidisciplinar atuante, família, paciente, sociedade, escola e terapeuta, para que desta forma se encontre harmonia na intervenção.
No estudo de Bordin (2.000) é ressaltada a importância de se fazer o diagnóstico precocemente e quanto mais jovem o paciente, melhores os resultados obtidos nas intervenções. Neste mesmo estudo é apontada a importância de apoio aos pais, com o objetivo de se estabelecer métodos mais apropriados para educar o filho, bem como o contato do terapeuta com a escola, com o intuito de amparar a equipe pedagógica no relacionamento aluno/professor, aluno/aluno.
O que se nota é que o envolvimento do paciente com oficinas de artes, pintura, música e esportes contribuem bastante para o tratamento do transtorno, pois se observa a oportunidade do indivíduo estabelecer vínculo afetivo com os profissionais responsáveis pelas atividades, além do paciente se sentir capaz na realização das atividades.
Bordin(2.000) aponta ainda que o uso de medicações faz-se necessário somente em casos onde o paciente manifeste convulsões, agressividades ou depressão. Já na fase adulta, caso haja indícios de suicídio, autoagressão ou homicídio, a hospitalização é um dos recursos utilizados.
Outra contribuição que se tem referente ao tratamento do indivíduo diagnosticado com os transtornos acima citados, é a de Barbieri (2.004, p.05 apud GRUSPUN, 2.004) “Práticas como psicoterapia, atendimento psicopedagógico ou mudança do ambiente da criança devem ser acompanhadas por intervenções com os pais, senso a profilaxia da doença dirigida principalmente a eles”.
6.CONSIDERAÇÕES FINAIS
Buscou-se apresentar no presente trabalho o conceito e intervenções no tratamento de crianças diagnosticadas com Transtorno de Conduta. Com base nos estudos apresentados, podemos concluir que o Transtorno de Conduta é um problema comportamental possível de ser diagnosticado e tratado, evitando seu agravamento no futuro. Muitas vezes esse transtorno pode vir acompanhado de TDAH, o que poderá acarretar em consequências negativas na vida acadêmica, social e familiar da criança.
Faz-se imprescindível um olhar criterioso por parte da equipe pedagógica que acompanha o aluno, avaliando adequadamente os comportamentos apresentados, e se necessário encaminhando-o para os profissionais competentes. Muitos dos comportamentos apresentados atualmente nas escolas públicas e privadas podem ser indícios de Transtorno de Oposição e Desafio ou até mesmo, Transtorno de Conduta.
Bibliografia
REFERÊNCIAS
BARBIERI,V.;JACQUEMIN, A.;ALVES, Z. M. M. B. Alcances e limites do psicodiagnóstico interventivo no tratamento de criança antissociais. In: Paideia. Ribeirão Preto, v. 14, n.28, 2004.
BORDIN, I. A. S.; OFFORD, D. R. Transtorno da conduta e comportamento anti-social. In: Revista Brasileira de Psiquiatria. São Paulo, v.22, n. 2, 2.000.
CID-10 – Classificação de Transtornos Mentais e do Comportamento. Descrições clínicas e Diretrizes Diagnósticas. Porto Alegre. Ed.Artes Médicas, 1993.
DSM-IV – Manual Diagnóstico e Estatístico. Porto Alegre. Ed. Artes Médicas, 1995.
GREVET, E. H. et al. Transtorno de Oposição e Desafio e Transtorno de Conduta: os desfechos no TDAH em adultos. Rio Grande do Sul: Bireme, 2007.n.56, v.1.Disponível em: ? http://www.portal.revistas.bvs.br? Acesso em 27 nov. 2009.
SILVA, A.B.B. Mentes Perigosas. O Psicopata mora ao lado. Rio de janeiro: Ed. Fontanar, 2.008.
MONDONI, Susan. Transtorno de Conduta. São Paulo, 2006. Disponível em : ? HTTP://www.psiquiatriainfantil.com.br? Acesso em : 23 nov. 2009.
MORANA, C.P; STONE, M.H.; ABDALLA FILHO, E. Transtorno de personalidade, psicopatia e serial Killer. In: Revista Brasileira de Psiquiatria. São Paulo, v.28, n.3, 2006.
PACHECO,J.; ALVARENGA P.; REPPOLD, C.; PICCININI, C.A.; HUTZ, C.S. Estabilidade do comportamento antissocial na transição da infância para a adolescência: uma perspectiva desenvolvimentista.In: Revista Psicologia: Reflexão e Crítica. Porto Alegre, v. 18, n.01, 2005.
PSICOLOGIA. Psiquiatria geral. Coordenado por: GJBallone. Disponível em:Acesso em: 19 maio 2010.
Publicado em 04/02/2011 17:13:00
Currículo(s) do(s) autor(es)
Fabiane Cristina Favarelli Navega - (clique no nome para enviar um e-mail ao autor) -
Aluna do curso de pós-graduação do curso de Psicopedagogia pela Universidade Anhanguera. Formada em Pedagogia com habilitação em Educação Especial pela UNIMEP (2.000) atua na área da educação desde janeiro de 2.001.
Fabiane Cristina Favarelli Navega
Sumário
Transtorno de conduta: uma orientação a educadores
Objetivou-se no presente trabalho informar e orientar os profissionais ligados a educação sobre as principais características, evolução, diagnóstico e tratamento do transtorno de conduta, desde a infância até a fase adulta. Pretendeu-se também esclarecer as principais diferenças entre a indisciplina e o transtorno apontado, bem como ressaltar a importância de um diagnóstico precoce e as possíveis intervenções medicamentosas, terapêuticas, familiares e escolares.
Palavras-Chave: Transtorno de conduta; caracterização da doença; diagnóstico; curso e prognóstico; tratamento.
Aimed to this present job to inform and to manage the professionals connected with the education about the main features, evolution, diagnosis and treatment of conduct disorder, since the childhood until adulthood. It was intended also to explain the main differences between the indiscipline and the conduct emphasized, as well as highlight the importance of an early diagnosis and the possible drug interventions, therapeutic, family and school.
Keywords: < conduct disorder; characterization of disease; diagnosis; course and prognosis; treatment >
INTRODUÇÃO
Com base nos relatos de educadores e familiares sobre atitudes inadequadas ou consideradas inaceitáveis para crianças e adolescentes, o artigo levantará algumas considerações importantes sobre o Transtorno de Conduta, desde a infância até a fase adulta. Todavia, serão apontadas os principais aspectos tais como: caracterização do transtorno, diagnóstico, curso e prognóstico, fatores associados ao comportamento, avaliação e tratamento, critérios avaliativos, prevalência e intervenções.
O objetivo do presente trabalho é transmitir algumas informações relevantes aos profissionais ligados à área da educação, com o intuito de informar e diferenciar a indisciplina de um Transtorno de Conduta, tendo em vista os inúmeros casos de violência física e moral que emergem hoje nas salas de aula, nas famílias e na sociedade.
O artigo busca dar subsídios aos educadores, orientando o seu trabalho educacional e visando o bem estar da criança.
Acredito que o esclarecimento de tal transtorno seja válido, pois nota-se que atualmente o número de violência, homicídios e uso de drogas aumenta avassaladoramente, sendo assim, através da informação tentar precocemente amenizar as más condutas.
1.CARACTERIZAÇÃO DO TRANSTORNO
Alguns comportamentos apresentados durante a infância podem ser observados no desenvolvimento normal de uma criança, tais como: mentir e matar aula, mas segundo Bordin (2.000, p.01), “Para diferenciar normalidade de psicopatologia, é importante verificar se esses comportamentos ocorrem esporadicamente e de modo isolado ou se constituem síndromes”.
Para que o indivíduo possa se enquadrar no diagnóstico de Transtorno de Conduta deverá ter apresentado nos últimos 12 meses comportamentos que incomodem ou perturbem o próximo, se envolver em atividades perigosas e ilegais, a maioria dos envolvidos não apresentam sofrimento ou constrangimento pelas suas atitudes, bem como não se importam em ferir ou maltratar animais e pessoas moralmente ou fisicamente.
Mondoni (2.006, p.01) ressalta também que, “Comportamentos que transgridem a lei constituem a elinqüência”. Todavia, o que se observa é que este distúrbio do comportamento é mais frequente na infância e adolescência e a primeira causa de encaminhamento ao psiquiatra infantil.
Com base em critérios diagnósticos internacionais (DSM-IV), na infância e na adolescência tais comportamentos fazem parte das categorias Transtorno Desafiador de Oposição (TDO) e Transtorno de Conduta (TC), já na fase adulta, a partir dos 18 anos, se enquadram no Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS).
2.DIAGNÓSTICO
Segundo o DSM-IV (1.995) O Transtorno de Conduta implica um padrão repetitivo e persistente de comportamentos no qual são violados os direitos dos outros e regras sociais.
Para que o diagnóstico seja fidedigno, faz-se imprescindível a presença de pelo menos, três das condutas abaixo apontada, e persistente por um período de 12 meses.
•Frequentemente persegue, atormenta, ameaça ou intimida os outros.
•Frequentemente inicia lutas corporais.
•Já usou armas que podem causar ferimentos graves.
•Foi cruel com pessoas, ferindo-as fisicamente.
•Foi cruel com animais.
•Roubou ou assaltou confrontando a vítima.
•Submeteu alguém a atividade sexual forçada.
•Iniciou incêndio com a intenção de provocar sérios danos.
•Destruiu propriedade alheia.
•Arrombou ou invadiu, casas, prédios ou carros.
•Mente ou engana para obter ganhos materiais, favores ou para fugir de obrigações.
•Furtou objetos de valor.
•Frequentemente passa a noite fora, apesar da proibição dos pais.
•Fugiu de casa pelo menos duas vezes, passando a noite fora, enquanto morava com os pais ou substitutos.
•Falta da escola sem motivo, matando aula frequentemente.
Fonte: http://www.psicologia.com.pt/instrumentos/dsm_cid.php
O DSM-IV subdivide o Transtorno de Conduta em dois subtipos: surgimento antes dos 10 anos de idade e após os 10 anos. Tais comportamentos, quando persistentes até a fase adulta (após 18 anos), se caracterizam por Transtorno de Personalidade Antissocial.
O CID-10 aponta que os transtornos de conduta são caracterizados por padrões persistentes de conduta dissocial, agressiva ou desafiante. Tal comportamento deve comportar grandes violações das expectativas sociais próprias à idade da criança; deve haver mais do que as travessuras infantis ou a rebeldia do adolescente e se trata de um padrão duradouro de comportamento (seis meses ou mais) (CID-10, 1993)
O diagnóstico se baseia na presença de condutas do seguinte tipo:
•manifestações excessivas de agressividade e de tirania;
•crueldade com relação a outras pessoas ou a animais;
•destruição dos bens de outrem;
•condutas incendiárias;
•roubos;
•mentiras repetidas;
•cabular aulas e fugir de casa;
•crises de birra e de desobediência anormalmente freqüentes e graves.
Fonte: CID-10, 1993.
A referida norma citada anteriormente, também subdivide o Transtorno de conduta em: socializados e não socializados. Transtorno de conduta não socializado é caracterizado pela presença de um comportamento dissocial ou agressivo persistente associado a uma alteração significativa e global das relações com as outras crianças.
Já os diagnosticados com o transtorno socializado apresentam comportamento dissocial ou agressivo manifestando-se em indivíduos habitualmente bem integrados com seus companheiros.
Segundo Silva (2.002 apud DSM-IV-TR, 2.008, p.207) o diagnóstico dado pelo especialista deve especificar a gravidade do transtorno em leve, moderado e grave.
Baseado nos critérios do CID-10 (1.992/1.993) os indivíduos com Transtorno de Oposição e Desafio e Transtorno de Conduta devem apresentar comportamentos pouco empáticos ou pouco preocupados com os sentimentos, desejos e bem-estar dos outros. Podem não apresentar sentimentos de culpa e remorso, que aprendem a simular para evitar punições. A autoestima é baixa e há reduzida tolerância à frustração, ocorrem acessos de raiva, irritabilidade imprudência, ocasionando um número alto de acidentes.
3.CURSO E PROGNÓSTICO
Evidências empíricas sugerem que as primeiras manifestações do comportamento antissocial podem aparecer precocemente, aproximadamente aos 18 meses, onde a criança já apresenta comportamentos como agredir os pais e destruir objetos.
Como visto anteriormente os sintomas do Transtorno de Conduta podem surgir desde a infância e persistir até a fase adulta. Na maior parte dos casos, quando o Transtorno de Conduta surge antes dos 10 anos de idade, é muito comum a presença do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). De acordo com Bordin (2.000, p.03) pode observar-se também “A presença de comportamento agressivo, déficit intelectual, convulsões e comprometimento do sistema nervoso central”.
De acordo com Bordin, o aparecimento do TDAH nos diagnóstico de Transtorno de Conduta pode chegar a 43% dos casos, envolvendo principalmente os meninos, já no sexo feminino é mais comum o aparecimento do quadro de ansiedade e depressão (33% dos casos).
Conforme Mondoni (2.006, p.05) “A prevalência do Transtorno de Conduta varia de acordo com muitos estudos, ficando entre 5 a 10%, sendo 2 a 3 vezes mais comuns em meninos”.
Pacheco et. al.(2.005, p.04) aborda que “Crianças que recebem o diagnóstico de Transtorno Desafiador de Oposição na infância, tendem a apresentar um risco aumentado para desenvolver posteriormente Transtorno de Conduta na adolescência”.
A maior parte das crianças diagnosticadas por Transtorno de Conduta ou Transtorno Desafiador de Oposição tendem a apresentar dificuldades de aprendizagem e fracasso escolar.
O que se observa é que comportamentos antissociais apresentados logo na infância, quando não tratados adequadamente, podem ser protótipos de comportamentos delinquentes para a fase adulta, discórdia conjugal, problemas de relacionamento social, uso de drogas e álcool.
Alguns fatores podem estar associados ao comportamento antissocial da criança. O que se observou em alguns estudos em clínicas psiquiátricas, foi que o ambiente familiar e social desajustado poderiam ser fatores de desencadeamento dos Transtornos.
Conforme aponta Bordin (2.000, p.04) alguns fatores seriam “Receber cuidados maternos inadequados, viver em meio à discórdia conjugal, pais agressivos e violentos, mães com problemas de saúde mental e viver em áreas urbanas”. Ainda esta autora nos afirma que há uma taxa maior de criminalidade nos pais biológicos do que nos pais adotivos, formulando a hipótese de uma predisposição biológica para o comportamento anitssocial.
De acordo com Morana (2.006, p.03) sobre o entendimento desses pacientes “É fundamental se considerar o ambiente em que vive o indivíduo e a interação com ele estabelecida”. Ressalta ainda a autora que a negligência e os maus-tratos recebidos por uma criança em que o cérebro está sendo esculpido pela experiência, induz a uma anomalia da circuitaria cerebral, podendo conduzir à agressividade, hiperatividade, distúrbio da atenção, delinquência e abuso de drogas. (Morana, 2.006)
4.AVALIAÇÃO
Segundo Barbieri (2.004, p.02) a avaliação da criança será feita a partir de “Assinalamentos e interpretações desde a primeira entrevista com o paciente e envolvidos com o mesmo, e durante a aplicação de técnicas projetivas”.
Para Morana (2.006, p.04) “A avaliação diagnóstica enfrenta polêmica, pois há uma divergência entre valorização das entrevistas livres ou aplicação de testes padronizados.” Com tudo, há profissionais que se utilizam de entrevistas e outros que se apóiam em testes psicológicos.
De qualquer maneira, independente dos procedimentos utilizados para se fazer o psicodiagnóstico, faz-se importante investigar toda a história de vida do examinado, verificando se há ou não padrão anormal de conduta, tomando como base os critérios estabelecidos pelo DSM-IV e CID-10.
Com base nos estudos e relatos de Barbieri (2.004), para se fazer o diagnóstico do transtorno, foi possível notar o uso dos seguintes instrumentos: entrevistas de anamnese, técnica de Rorschach, sessões psicanalíticas lúdicas, entrevista familiar diagnóstica e devolutiva.
5.TRATAMENTO
As pessoas diagnosticadas pelo Transtorno desafiador de Oposição, Transtorno de Conduta ou Transtorno de Personalidade necessitam de uma excessiva atenção e acompanhamento precoce, com o intuito de se amenizar os comportamentos antissociais.
Os tratamentos citados na literatura são bastante variados, podendo incluir: acompanhamento do indivíduo diagnosticado, intervenções familiares e junto a equipe escolar, orientando e treinando a família, comunidade e professores.
Os melhores resultados têm sido apontados por aqueles que têm por objetivo o tratamento de sintomas específicos, e a terapia comportamental dialética vem recebendo um reconhecimento internacional de sua eficácia em Transtorno de Personalidade. (MORANA, 2.006)
O que se observa é que nenhum tratamento obtém um resultado satisfatório quando aplicado isoladamente, isto é, faz-se necessário uma equipe multidisciplinar atuante, família, paciente, sociedade, escola e terapeuta, para que desta forma se encontre harmonia na intervenção.
No estudo de Bordin (2.000) é ressaltada a importância de se fazer o diagnóstico precocemente e quanto mais jovem o paciente, melhores os resultados obtidos nas intervenções. Neste mesmo estudo é apontada a importância de apoio aos pais, com o objetivo de se estabelecer métodos mais apropriados para educar o filho, bem como o contato do terapeuta com a escola, com o intuito de amparar a equipe pedagógica no relacionamento aluno/professor, aluno/aluno.
O que se nota é que o envolvimento do paciente com oficinas de artes, pintura, música e esportes contribuem bastante para o tratamento do transtorno, pois se observa a oportunidade do indivíduo estabelecer vínculo afetivo com os profissionais responsáveis pelas atividades, além do paciente se sentir capaz na realização das atividades.
Bordin(2.000) aponta ainda que o uso de medicações faz-se necessário somente em casos onde o paciente manifeste convulsões, agressividades ou depressão. Já na fase adulta, caso haja indícios de suicídio, autoagressão ou homicídio, a hospitalização é um dos recursos utilizados.
Outra contribuição que se tem referente ao tratamento do indivíduo diagnosticado com os transtornos acima citados, é a de Barbieri (2.004, p.05 apud GRUSPUN, 2.004) “Práticas como psicoterapia, atendimento psicopedagógico ou mudança do ambiente da criança devem ser acompanhadas por intervenções com os pais, senso a profilaxia da doença dirigida principalmente a eles”.
6.CONSIDERAÇÕES FINAIS
Buscou-se apresentar no presente trabalho o conceito e intervenções no tratamento de crianças diagnosticadas com Transtorno de Conduta. Com base nos estudos apresentados, podemos concluir que o Transtorno de Conduta é um problema comportamental possível de ser diagnosticado e tratado, evitando seu agravamento no futuro. Muitas vezes esse transtorno pode vir acompanhado de TDAH, o que poderá acarretar em consequências negativas na vida acadêmica, social e familiar da criança.
Faz-se imprescindível um olhar criterioso por parte da equipe pedagógica que acompanha o aluno, avaliando adequadamente os comportamentos apresentados, e se necessário encaminhando-o para os profissionais competentes. Muitos dos comportamentos apresentados atualmente nas escolas públicas e privadas podem ser indícios de Transtorno de Oposição e Desafio ou até mesmo, Transtorno de Conduta.
Bibliografia
REFERÊNCIAS
BARBIERI,V.;JACQUEMIN, A.;ALVES, Z. M. M. B. Alcances e limites do psicodiagnóstico interventivo no tratamento de criança antissociais. In: Paideia. Ribeirão Preto, v. 14, n.28, 2004.
BORDIN, I. A. S.; OFFORD, D. R. Transtorno da conduta e comportamento anti-social. In: Revista Brasileira de Psiquiatria. São Paulo, v.22, n. 2, 2.000.
CID-10 – Classificação de Transtornos Mentais e do Comportamento. Descrições clínicas e Diretrizes Diagnósticas. Porto Alegre. Ed.Artes Médicas, 1993.
DSM-IV – Manual Diagnóstico e Estatístico. Porto Alegre. Ed. Artes Médicas, 1995.
GREVET, E. H. et al. Transtorno de Oposição e Desafio e Transtorno de Conduta: os desfechos no TDAH em adultos. Rio Grande do Sul: Bireme, 2007.n.56, v.1.Disponível em: ? http://www.portal.revistas.bvs.br? Acesso em 27 nov. 2009.
SILVA, A.B.B. Mentes Perigosas. O Psicopata mora ao lado. Rio de janeiro: Ed. Fontanar, 2.008.
MONDONI, Susan. Transtorno de Conduta. São Paulo, 2006. Disponível em : ? HTTP://www.psiquiatriainfantil.com.br? Acesso em : 23 nov. 2009.
MORANA, C.P; STONE, M.H.; ABDALLA FILHO, E. Transtorno de personalidade, psicopatia e serial Killer. In: Revista Brasileira de Psiquiatria. São Paulo, v.28, n.3, 2006.
PACHECO,J.; ALVARENGA P.; REPPOLD, C.; PICCININI, C.A.; HUTZ, C.S. Estabilidade do comportamento antissocial na transição da infância para a adolescência: uma perspectiva desenvolvimentista.In: Revista Psicologia: Reflexão e Crítica. Porto Alegre, v. 18, n.01, 2005.
PSICOLOGIA. Psiquiatria geral. Coordenado por: GJBallone. Disponível em:
Publicado em 04/02/2011 17:13:00
Currículo(s) do(s) autor(es)
Fabiane Cristina Favarelli Navega - (clique no nome para enviar um e-mail ao autor) -
Aluna do curso de pós-graduação do curso de Psicopedagogia pela Universidade Anhanguera. Formada em Pedagogia com habilitação em Educação Especial pela UNIMEP (2.000) atua na área da educação desde janeiro de 2.001.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Os Equívocos sobre a psicopedagogia
OS EQUÍVOCOS SOBRE O PSICOPEDAGOGO
Laura Monte Serrat Barbosa
É preciso que os colegas que estão levantando a bandeira da oposição à Psicopedagogia lembrem que saímos da era industrial, na qual a ciência foi supervalorizada; a precisão era objetivo importante e perseguido por todas as disciplinas e práticas profissionais; os limites entre as disciplinas era crucial; a identificação de causa e efeito era entendida de forma linear, como uma grande linha de montagem, em que cada um faz seu papel para que o produto final seja a soma dos esforços
Como você vê a evolução da psicopedagogia ao longo destes 20 anos de prática?
A Psicopedagogia teve uma evolução invejável, nestes 20 anos, pois partiu de uma preocupação com um aspecto específico da questão da aprendizagem (a dificuldade de aprendizagem) e hoje estuda o ser cognoscente como um ser inteiro, mergulhado em um contexto, com possibilidades de aprendizagem em vários âmbitos da sociedade.
Tem se caracterizado como uma área que evoluiu rapidamente por ser uma das áreas do conhecimento necessárias na era da informação e da comunicação. Como comunicar se não houver o que comunicar. Aprendizagem nos dias de hoje é fundamental. A área de estudo que aprofundou os conhecimentos e experimentou relacioná-lo com a prática, nestes últimos 20 anos, foi a Psicopedagogia, e por isso está sendo reconhecida e valorizada.
Muitas pessoas com espírito investigativo e empreendedor tomaram parte deste movimento, chamado Psicopedagogia, e graças a elas esta área encontra-se tão fortalecida.
A Psicopedagogia está muito presente nas atuais propostas educacionais nacionais, em forma de assessoria, de bibliografia e, principalmente, em forma de idéias, as quais já vêm sendo colocadas em prática em muitos pontos do país.
A Psicopedagogia se preocupou, nestes anos todos, com o "aprender a aprender"; "aprender a fazer" de forma autônoma; com o "aprender a ser" humano; o "aprender a compartilhar" o mundo, a natureza, as idéias, as intenções e as ações. A visão psicopedagógica está presente em vários municípios do interior e em quase todas as capitais brasileiras e está fazendo parte do esquema conceitual referencial operativo (ECRO) de um grande número de educadores.
É importante que as pessoas saibam que a Psicopedagogia chegou aonde chegou por mérito dos psicopedagogos, e não por causa de alguma lei criada 40 anos atrás. O que se deseja é melhorar as condições de aprendizagem neste país e não apossar-se de conhecimentos, de práticas, de mercado de trabalho ou mesmo do espaço de outros profissionais que, na verdade, não são outros mas sim nós pedagogos, nós psicólogos, nós fonoaudiólogos que, sedentos de um conhecimento que superasse aquele de nossa graduação, buscamos uma área de estudo que nos proporcionou a oportunidade de nos especializarmos em aprendizagem e de ir bem além do que poderíamos se ficássemos contentes com o conhecimento que possuíamos até então.
A Psicopedagogia cresceu tanto que, apesar de ter somente 20 anos, aqui no Brasil, está tendo o poder de assustar psicólogos, pedagogos e fonoaudiólogos que, por algum motivo, desejaram ficar à parte desse movimento e agora se percebem ameaçados pela atualidade dos estudos, pela profundidade do trabalho, pela qualidade das pesquisas e pelo desejo destes profissionais de regulamentarem esta atividade, para que não se caracterize como "terra de ninguém", e pessoas menos preparadas possam se utilizar de uma fachada em detrimento do desenvolvimento de pessoas.
Em seu livro: "Projeto de Trabalho - Uma forma de atuação psicopedagógica", que está em sua 2ª edição, você explicita bem a complexidade da área psicopedagógica, e o engano em se acreditar que a psicopedagogia é a junção das áreas pedagogia + psicologia. Nos fale um pouco sobre esta confusão.
Temos ouvido, no decorrer de nosso caminho, muitas pessoas acreditando que a Psicopedagogia é a soma dos conhecimentos da Psicologia e da Pedagogia e outros acreditando, por causa do prefixo "psi", que é a Psicologia aplicada à Pedagogia e, portanto, campo de atuação do psicólogo.
Isto acontece mesmo com profissionais que têm acompanhado nossa caminhada e contribuído conosco em nossos estudos e encontros científicos. Agora em nosso último Congresso (em São Paulo, em julho deste ano), ouvimos mais de um profissional da área de Psicologia e de Neurologia afirmando, diante de um público de mais de 1400 pessoas, esta adição de duas áreas.
Sabemos que ambas participam da síntese que é a Psicopedagogia; porém, sabemos também que mesmo sendo muito amplas não são suficientes para compreender toda a extensão e a complexidade do processo de aprender.
Provavelmente, o nome Psicopedagogia contribui para isto e, atualmente, a oposição de psicólogos, pedagogos e também dos fonoaudiólogos acaba reforçando a idéia de que a nossa área de estudo resume-se a uma simples soma, e que a Psicopedagogia está se apropriando de algo que não é seu, que pertence a outros profissionais.
No entanto, é preciso pensar a questão de forma contextualizada e não de forma simplista, acreditando que uma estratégia política de somar esforços das cúpulas responsáveis pelas referidas áreas seria suficiente para fazer retroagir a história. Muitos profissionais já conhecem o trabalho do profissional da Psicopedagogia; muitas pessoas já se beneficiaram do trabalho realizado pela Psicopedagogia; muitos professores já puderam experimentar as conseqüências de um trabalho psicopedagógico na sua formação continuada, na aprendizagem de seus alunos e na assessoria prestada a sua escola. Como negar a eficiência de um trabalho que vem mostrando resultados eficientes? Como devolver para o centro da Terra um conhecimento que já foi construído? Como engolir a demanda que continua existindo?
O que acredito, de coração, é que não importa se o nome é Psicopedagogia, Psicologia Educacional, Pedagogia Terapêutica, Fonoaudiologia Educacional, e nem se quem deve fazer a intervenção tenha uma profissão regulamentada; o que realmente importa é que esta intervenção seja realizada tendo como foco a completude de cada pessoa, a seriedade e o conhecimento do profissional envolvido.
Penso ser muita onipotência dos movimentos reacionários acreditar que é possível reverter a história depois do início de seu curso.
É preciso que os colegas que estão levantando a bandeira da oposição à Psicopedagogia lembrem que saímos da era industrial, na qual a ciência foi supervalorizada; a precisão era objetivo importante e perseguido por todas as disciplinas e práticas profissionais; os limites entre as disciplinas era crucial; a identificação de causa e efeito era entendida de forma linear, como uma grande linha de montagem, em que cada um faz seu papel para que o produto final seja a soma dos esforços.
Na verdade, a ciência foi analisando tanto o mundo, estudando cada aspecto que acabou por fragmentar o conhecimento, fazendo parecer que a super especialização é a única saída para a existência.
Já neste século que ora finda, aconteceram importantes integrações disciplinares, visando entender a complexidade do mundo. Os limites começaram a ficar mais frouxos, e surgiram as disciplinas que fazem interseção, tais como: a Engenharia Mecânica, o Desenho Técnico, a Educação Física, a Educação Informática, a Arte Educação e outras.
Estes indícios foram apontando para visões mais amplas que pudessem compreender o mundo em movimento e a era da comunicação e da informação na qual adentramos.
A Psicopedagogia surge neste contexto em que a Visão Sistêmica, os Estudos Holísticos, Ecológicos, a Epistemologia Convergente, a complexidade tentam compreender o homem em interação, num interjogo de influências entre ele e o meio em que vive.
A Psicopedagogia, no entanto, não é uma soma que permite com que o profissional matricule-se num curso para aprender apenas a parte que lhe falta. Ela é uma disciplina com especificidades tais que precisa ser aprendida inteira e não através de pedaços e retalhos. É o resultado de aproximações recíprocas de esquemas teóricos e práticos de várias áreas do conhecimento.
Em sua opinião, por que tanta demora na regulamentação da profissão?
Não acreditamos que um sintoma possa ser causado por apenas um fenômeno. A demora da regulamentação tem a ver também com as mudanças de paradigmas que a sociedade enfrenta.
Estamos saindo de uma época de rigidez e de delimitações estanques para uma era em que ainda não temos claro os limites. Os avanços tecnológicos nos mostram situações que colocam em cheque as regras existentes, a ética, os interesses econômicos e políticos.
O que pensar sobre as clonagens? Como criar uma ética para a Internet? Como regulamentar profissões num mundo extremamente ágil, no qual as profissões terão uma vida curta? Como pensar em formações longas diante de um mercado de trabalho mutante?
A regulamentação da profissão Psicopedagogia, considerada como resultado de uma especialização no nível de pós-graduação, é uma solicitação revolucionária e inédita, pós-moderna, que entende que as necessidades do homem mudam e por isto as demandas vão sendo diferentes, num espaço mais curto de tempo, exigindo decisões mais ágeis. No entanto, as leis já existentes não conseguem acompanhar esta agilidade.
Além disto, a demora se dá devido à resistência prevista nos processos de transformação. Para que o processo dialético possa se dar e resultar em uma síntese necessita de líderes de mudança e líderes de resistência.
Sem a oposição da Psicologia e da Pedagogia, por exemplo, a Psicopedagogia não poderá legitimar-se como uma profissão diferenciada.
Muitas vezes temos pressa; porém, quando estamos vivendo a história temos de admitir que o processo histórico demora mais tempo do que gostaríamos.
Sabemos que o livro "Projeto de Trabalho - Uma forma de atuação psicopedagógica", tem sido utilizado em clínicas e escolas com muito sucesso. Qual é o ponto forte do livro?
Fico feliz em saber que o livro foi bem recebido.
Acredito, pelos retornos que recebi dos leitores, que o ponto forte do livro está ligado ao fato de integrar a teoria à prática e a prática à teoria, usando uma linguagem simples e séria.
Creio que consegui sintetizar neste livro a paixão que possuo por aquilo que faço e a importância que dou à aprendizagem como um movimento que se dá dentro de quem aprende, resultado de um significado.
O que vem a ser "Projeto de Trabalho"?
Apresentamos o projeto de trabalho como uma forma de ação psicopedagógica que lida com alguns fenômenos cognitivos, tais como a antecipação, a previsão e o planejamento, seguido de uma atividade que precisa concretizar o que foi antecipado.
É uma situação na qual o aprendiz traça uma meta e compromete-se como autor, passando por vários momentos desta autoria: o planejamento, a execução, as avaliações contínuas, as conclusões e a avaliação final, com possibilidades de reelaboração do produto realizado.
É uma situação de investigação e de pesquisa que possibilita o desenvolvimento de competências gerais e, conforme o projeto de trabalho, o desenvolvimento de competências específicas.
As competências gerais estão atreladas às habilidades metacognitivas, tais como: observação, planejamento, atenção, memória e avaliação, enquanto que as específicas estão ligadas ao tema do projeto e aos procedimentos adotados.
Qual a importância da Metacognição?
A metacognição mobiliza recursos cognitivos que são responsáveis pelo movimento geral de aprender. O aprender a aprender só é possível na medida em que desenvolvemos habilidades metacognitivas. Quanto mais conscientes do nosso funcionamento para aprender mais aprendizagens acontecerão.
Qual a importância da leitura e escrita no processo de aprendizagem?
A aprendizagem pode se dar através das mais variadas linguagens. A linguagem escrita tem o poder de registrar o conhecimento, eternizá-lo. Esta função era única há alguns anos atrás; porém, a linguagem visual também tem esta função. O que diferencia a linguagem escrita das outras formas de linguagem é o fato dela possibilitar a reflexão dentro de um tempo possível para quem está lendo ou escrevendo. Neste sentido, a leitura e escrita são ferramentas importantes da aprendizagem, da comunicação e da história.
Ler, antes de tudo, é adivinhar, como afirma Jean Foucambert. Isto permite o exercício de levantar hipóteses, a verificação posterior, os ajustes e a aprendizagem; o escrever exige a antecipação do pensamento, a organização de idéias, o traçar de metas, a realização, a avaliação e a reelaboração.
Para os aprendizes da era da informação e da comunicação, a leitura e a escrita se constituem em instrumentos de estudo, de trabalho e de troca. Exige compreensão e rapidez; marcas do mundo pós-moderno.
Laura Monte Serrat Barbosa - graduação em Pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1972) e mestrado em Educação pela Universidade Federal do Paraná (1993). Tem formação em Psicopedagogia (1993) e Teoria e Técnica de Grupos Operativos (1994) pelo Centro de Estudos Psicopedagógicos de Curitiba. Atualmente é professora convidada da Universidade Paranaense, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, da Universidade Católica de Goiás, da Universidade Católica do Salvador, da Faculdades Integrado de Campo Mourão, da Faculdade de Artes do Paraná. É sócia da Síntese - Centro de Estudos, Aperfeiçoamento e Desenvolvimento da Aprendizagem. É associada titular e conselheira da Associação Brasileira de Psicopedagogia. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Psicopedagogia, atuando principalmente nos seguintes temas: projeto de aprender, atuação psicopedagógica, dificuldade de aprendizagem, avaliação psicopedagógica institucional, instituição escolar, inclusão, relação professor/aluno, operatividade na aprendizagem e desenvolvimento simbólico no processo de aprender. É autora de livros e artigos na área de Psicopedagogia e Educação.
Laura Monte Serrat Barbosa
É preciso que os colegas que estão levantando a bandeira da oposição à Psicopedagogia lembrem que saímos da era industrial, na qual a ciência foi supervalorizada; a precisão era objetivo importante e perseguido por todas as disciplinas e práticas profissionais; os limites entre as disciplinas era crucial; a identificação de causa e efeito era entendida de forma linear, como uma grande linha de montagem, em que cada um faz seu papel para que o produto final seja a soma dos esforços
Como você vê a evolução da psicopedagogia ao longo destes 20 anos de prática?
A Psicopedagogia teve uma evolução invejável, nestes 20 anos, pois partiu de uma preocupação com um aspecto específico da questão da aprendizagem (a dificuldade de aprendizagem) e hoje estuda o ser cognoscente como um ser inteiro, mergulhado em um contexto, com possibilidades de aprendizagem em vários âmbitos da sociedade.
Tem se caracterizado como uma área que evoluiu rapidamente por ser uma das áreas do conhecimento necessárias na era da informação e da comunicação. Como comunicar se não houver o que comunicar. Aprendizagem nos dias de hoje é fundamental. A área de estudo que aprofundou os conhecimentos e experimentou relacioná-lo com a prática, nestes últimos 20 anos, foi a Psicopedagogia, e por isso está sendo reconhecida e valorizada.
Muitas pessoas com espírito investigativo e empreendedor tomaram parte deste movimento, chamado Psicopedagogia, e graças a elas esta área encontra-se tão fortalecida.
A Psicopedagogia está muito presente nas atuais propostas educacionais nacionais, em forma de assessoria, de bibliografia e, principalmente, em forma de idéias, as quais já vêm sendo colocadas em prática em muitos pontos do país.
A Psicopedagogia se preocupou, nestes anos todos, com o "aprender a aprender"; "aprender a fazer" de forma autônoma; com o "aprender a ser" humano; o "aprender a compartilhar" o mundo, a natureza, as idéias, as intenções e as ações. A visão psicopedagógica está presente em vários municípios do interior e em quase todas as capitais brasileiras e está fazendo parte do esquema conceitual referencial operativo (ECRO) de um grande número de educadores.
É importante que as pessoas saibam que a Psicopedagogia chegou aonde chegou por mérito dos psicopedagogos, e não por causa de alguma lei criada 40 anos atrás. O que se deseja é melhorar as condições de aprendizagem neste país e não apossar-se de conhecimentos, de práticas, de mercado de trabalho ou mesmo do espaço de outros profissionais que, na verdade, não são outros mas sim nós pedagogos, nós psicólogos, nós fonoaudiólogos que, sedentos de um conhecimento que superasse aquele de nossa graduação, buscamos uma área de estudo que nos proporcionou a oportunidade de nos especializarmos em aprendizagem e de ir bem além do que poderíamos se ficássemos contentes com o conhecimento que possuíamos até então.
A Psicopedagogia cresceu tanto que, apesar de ter somente 20 anos, aqui no Brasil, está tendo o poder de assustar psicólogos, pedagogos e fonoaudiólogos que, por algum motivo, desejaram ficar à parte desse movimento e agora se percebem ameaçados pela atualidade dos estudos, pela profundidade do trabalho, pela qualidade das pesquisas e pelo desejo destes profissionais de regulamentarem esta atividade, para que não se caracterize como "terra de ninguém", e pessoas menos preparadas possam se utilizar de uma fachada em detrimento do desenvolvimento de pessoas.
Em seu livro: "Projeto de Trabalho - Uma forma de atuação psicopedagógica", que está em sua 2ª edição, você explicita bem a complexidade da área psicopedagógica, e o engano em se acreditar que a psicopedagogia é a junção das áreas pedagogia + psicologia. Nos fale um pouco sobre esta confusão.
Temos ouvido, no decorrer de nosso caminho, muitas pessoas acreditando que a Psicopedagogia é a soma dos conhecimentos da Psicologia e da Pedagogia e outros acreditando, por causa do prefixo "psi", que é a Psicologia aplicada à Pedagogia e, portanto, campo de atuação do psicólogo.
Isto acontece mesmo com profissionais que têm acompanhado nossa caminhada e contribuído conosco em nossos estudos e encontros científicos. Agora em nosso último Congresso (em São Paulo, em julho deste ano), ouvimos mais de um profissional da área de Psicologia e de Neurologia afirmando, diante de um público de mais de 1400 pessoas, esta adição de duas áreas.
Sabemos que ambas participam da síntese que é a Psicopedagogia; porém, sabemos também que mesmo sendo muito amplas não são suficientes para compreender toda a extensão e a complexidade do processo de aprender.
Provavelmente, o nome Psicopedagogia contribui para isto e, atualmente, a oposição de psicólogos, pedagogos e também dos fonoaudiólogos acaba reforçando a idéia de que a nossa área de estudo resume-se a uma simples soma, e que a Psicopedagogia está se apropriando de algo que não é seu, que pertence a outros profissionais.
No entanto, é preciso pensar a questão de forma contextualizada e não de forma simplista, acreditando que uma estratégia política de somar esforços das cúpulas responsáveis pelas referidas áreas seria suficiente para fazer retroagir a história. Muitos profissionais já conhecem o trabalho do profissional da Psicopedagogia; muitas pessoas já se beneficiaram do trabalho realizado pela Psicopedagogia; muitos professores já puderam experimentar as conseqüências de um trabalho psicopedagógico na sua formação continuada, na aprendizagem de seus alunos e na assessoria prestada a sua escola. Como negar a eficiência de um trabalho que vem mostrando resultados eficientes? Como devolver para o centro da Terra um conhecimento que já foi construído? Como engolir a demanda que continua existindo?
O que acredito, de coração, é que não importa se o nome é Psicopedagogia, Psicologia Educacional, Pedagogia Terapêutica, Fonoaudiologia Educacional, e nem se quem deve fazer a intervenção tenha uma profissão regulamentada; o que realmente importa é que esta intervenção seja realizada tendo como foco a completude de cada pessoa, a seriedade e o conhecimento do profissional envolvido.
Penso ser muita onipotência dos movimentos reacionários acreditar que é possível reverter a história depois do início de seu curso.
É preciso que os colegas que estão levantando a bandeira da oposição à Psicopedagogia lembrem que saímos da era industrial, na qual a ciência foi supervalorizada; a precisão era objetivo importante e perseguido por todas as disciplinas e práticas profissionais; os limites entre as disciplinas era crucial; a identificação de causa e efeito era entendida de forma linear, como uma grande linha de montagem, em que cada um faz seu papel para que o produto final seja a soma dos esforços.
Na verdade, a ciência foi analisando tanto o mundo, estudando cada aspecto que acabou por fragmentar o conhecimento, fazendo parecer que a super especialização é a única saída para a existência.
Já neste século que ora finda, aconteceram importantes integrações disciplinares, visando entender a complexidade do mundo. Os limites começaram a ficar mais frouxos, e surgiram as disciplinas que fazem interseção, tais como: a Engenharia Mecânica, o Desenho Técnico, a Educação Física, a Educação Informática, a Arte Educação e outras.
Estes indícios foram apontando para visões mais amplas que pudessem compreender o mundo em movimento e a era da comunicação e da informação na qual adentramos.
A Psicopedagogia surge neste contexto em que a Visão Sistêmica, os Estudos Holísticos, Ecológicos, a Epistemologia Convergente, a complexidade tentam compreender o homem em interação, num interjogo de influências entre ele e o meio em que vive.
A Psicopedagogia, no entanto, não é uma soma que permite com que o profissional matricule-se num curso para aprender apenas a parte que lhe falta. Ela é uma disciplina com especificidades tais que precisa ser aprendida inteira e não através de pedaços e retalhos. É o resultado de aproximações recíprocas de esquemas teóricos e práticos de várias áreas do conhecimento.
Em sua opinião, por que tanta demora na regulamentação da profissão?
Não acreditamos que um sintoma possa ser causado por apenas um fenômeno. A demora da regulamentação tem a ver também com as mudanças de paradigmas que a sociedade enfrenta.
Estamos saindo de uma época de rigidez e de delimitações estanques para uma era em que ainda não temos claro os limites. Os avanços tecnológicos nos mostram situações que colocam em cheque as regras existentes, a ética, os interesses econômicos e políticos.
O que pensar sobre as clonagens? Como criar uma ética para a Internet? Como regulamentar profissões num mundo extremamente ágil, no qual as profissões terão uma vida curta? Como pensar em formações longas diante de um mercado de trabalho mutante?
A regulamentação da profissão Psicopedagogia, considerada como resultado de uma especialização no nível de pós-graduação, é uma solicitação revolucionária e inédita, pós-moderna, que entende que as necessidades do homem mudam e por isto as demandas vão sendo diferentes, num espaço mais curto de tempo, exigindo decisões mais ágeis. No entanto, as leis já existentes não conseguem acompanhar esta agilidade.
Além disto, a demora se dá devido à resistência prevista nos processos de transformação. Para que o processo dialético possa se dar e resultar em uma síntese necessita de líderes de mudança e líderes de resistência.
Sem a oposição da Psicologia e da Pedagogia, por exemplo, a Psicopedagogia não poderá legitimar-se como uma profissão diferenciada.
Muitas vezes temos pressa; porém, quando estamos vivendo a história temos de admitir que o processo histórico demora mais tempo do que gostaríamos.
Sabemos que o livro "Projeto de Trabalho - Uma forma de atuação psicopedagógica", tem sido utilizado em clínicas e escolas com muito sucesso. Qual é o ponto forte do livro?
Fico feliz em saber que o livro foi bem recebido.
Acredito, pelos retornos que recebi dos leitores, que o ponto forte do livro está ligado ao fato de integrar a teoria à prática e a prática à teoria, usando uma linguagem simples e séria.
Creio que consegui sintetizar neste livro a paixão que possuo por aquilo que faço e a importância que dou à aprendizagem como um movimento que se dá dentro de quem aprende, resultado de um significado.
O que vem a ser "Projeto de Trabalho"?
Apresentamos o projeto de trabalho como uma forma de ação psicopedagógica que lida com alguns fenômenos cognitivos, tais como a antecipação, a previsão e o planejamento, seguido de uma atividade que precisa concretizar o que foi antecipado.
É uma situação na qual o aprendiz traça uma meta e compromete-se como autor, passando por vários momentos desta autoria: o planejamento, a execução, as avaliações contínuas, as conclusões e a avaliação final, com possibilidades de reelaboração do produto realizado.
É uma situação de investigação e de pesquisa que possibilita o desenvolvimento de competências gerais e, conforme o projeto de trabalho, o desenvolvimento de competências específicas.
As competências gerais estão atreladas às habilidades metacognitivas, tais como: observação, planejamento, atenção, memória e avaliação, enquanto que as específicas estão ligadas ao tema do projeto e aos procedimentos adotados.
Qual a importância da Metacognição?
A metacognição mobiliza recursos cognitivos que são responsáveis pelo movimento geral de aprender. O aprender a aprender só é possível na medida em que desenvolvemos habilidades metacognitivas. Quanto mais conscientes do nosso funcionamento para aprender mais aprendizagens acontecerão.
Qual a importância da leitura e escrita no processo de aprendizagem?
A aprendizagem pode se dar através das mais variadas linguagens. A linguagem escrita tem o poder de registrar o conhecimento, eternizá-lo. Esta função era única há alguns anos atrás; porém, a linguagem visual também tem esta função. O que diferencia a linguagem escrita das outras formas de linguagem é o fato dela possibilitar a reflexão dentro de um tempo possível para quem está lendo ou escrevendo. Neste sentido, a leitura e escrita são ferramentas importantes da aprendizagem, da comunicação e da história.
Ler, antes de tudo, é adivinhar, como afirma Jean Foucambert. Isto permite o exercício de levantar hipóteses, a verificação posterior, os ajustes e a aprendizagem; o escrever exige a antecipação do pensamento, a organização de idéias, o traçar de metas, a realização, a avaliação e a reelaboração.
Para os aprendizes da era da informação e da comunicação, a leitura e a escrita se constituem em instrumentos de estudo, de trabalho e de troca. Exige compreensão e rapidez; marcas do mundo pós-moderno.
Laura Monte Serrat Barbosa - graduação em Pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1972) e mestrado em Educação pela Universidade Federal do Paraná (1993). Tem formação em Psicopedagogia (1993) e Teoria e Técnica de Grupos Operativos (1994) pelo Centro de Estudos Psicopedagógicos de Curitiba. Atualmente é professora convidada da Universidade Paranaense, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, da Universidade Católica de Goiás, da Universidade Católica do Salvador, da Faculdades Integrado de Campo Mourão, da Faculdade de Artes do Paraná. É sócia da Síntese - Centro de Estudos, Aperfeiçoamento e Desenvolvimento da Aprendizagem. É associada titular e conselheira da Associação Brasileira de Psicopedagogia. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Psicopedagogia, atuando principalmente nos seguintes temas: projeto de aprender, atuação psicopedagógica, dificuldade de aprendizagem, avaliação psicopedagógica institucional, instituição escolar, inclusão, relação professor/aluno, operatividade na aprendizagem e desenvolvimento simbólico no processo de aprender. É autora de livros e artigos na área de Psicopedagogia e Educação.
domingo, 9 de janeiro de 2011
Brincadeira e Psicopedagogia
TIPOS DE BRINCADEIRAS E COMO AJUDAR A CRIANÇA BRINCAR
Angela Cristina Munhoz Maluf
(capítulo do livro: brincar prazer e aprendizado -vozes, 2003)
As crianças precisam atravessar diversos estágios no aprendizado de brincar em conjunto, antes de serem capazes de aproveitar as brincadeiras de grupo. Mesmo depois que ela ganhou confiança em brincar com outras crianças ela gostará, às vezes, de voltar a brincar sozinha ou apenas na presença de amigos, sem colaboração de alguma parte.
Podemos identificar diferentes tipos de brincadeiras sob o ponto de vista da participação social, cada um deles implicando num maior envolvimento entre as crianças e uma maior capacidade de se relacionar e se comunicar com os outros.
Brincadeiras solitárias
Brincar pode prender totalmente a atenção da criança. Há muito que explorar no mundo: forma, textura (áspero, liso, escorregadio) consistência (duro, macio) cor, gosto. Tudo deve ser explorado, sentido, cheirado, experimentado. No início do brincar, significa isso, e a presença de outra criança não oferece nenhum interesse. Absorvido nas próprias atividades, separado de outras crianças, brinca com coisas diferentes. Freqüentemente silenciosamente, às vezes fala consigo mesmo.
Brincadeiras em paralelo... Brincar na presença do outro
Antes de mostrar interesse nas brincadeiras de outras crianças, a criança que está brincando sozinha vai querer passar boa parte do tempo brincando ao lado de seus novos amiguinhos, sem fazer esforço para estabelecer contato. Contentar-se-á em brincar ao lado de outras crianças, “em paralelo” e se absorverá na sua própria atividade. No máximo defenderá seus brinquedos. A fala não é geralmente dirigida a ninguém em particular. Até é possível que as crianças brinquem em silêncio.
Observar brincadeiras
Uma modificação muito grande acontece quando a criança passa a mostrar interesse nas atividades de outras crianças. No início, tal interesse parecerá bastante passivo, e bom espaço de tempo será gasto, simplesmente, na observação das brincadeiras. Pode-se notar, porém, que esse comportamento será bem diferente de uma olhada sem compromisso, pois a criança estará obviamente envolvida, muito absorvida em sua observação. Não há conversas entre eles.
Juntar se à brincadeira... Brincar com os outros do próprio grupo.
Os primeiros movimentos em direção a juntar-se às brincadeiras de um grupo podem tanto se tranqüilos quanto tempestuosos; isto depende do grupo em questão e da criança que pretende juntar-se. Seja como for, os relacionamentos no interior do grupo tendem a se formar rapidamente, talvez cessar com a mesma rapidez e, freqüentemente, se refazer minutos depois.
Existem dois tipos característicos de brincadeiras nessa fase:
O primeiro envolve fazer o que todos estão fazendo, apenas para não ser diferente, ou talvez como um meio de tornar-se um membro do grupo. É o que pode acontecer, por exemplo, quando um pequeno grupo de crianças está correndo juntas, gritando qualquer coisa.
O segundo surge quando membros do grupo estão engajados numa mesma atividade, como, por exemplo, desenhando ou montando um quebra-cabeça em volta de uma mesa, tendo, porém, como principal interesse conversar entre si.
O assunto da conversa pode afastar-se completamente da atividade que esteja sendo desenvolvida e incluir a troca de informações sobre os pais, os acontecimentos especiais como aniversários e passeios. A atividade em si pode ser mencionada na conversa, mas outra vez ocorrerá em uma situação mais ampla, relacionada com o que as crianças gostam ou não gostam, ou sobre o que cada uma está fazendo.
Brincadeiras Cooperativas
Em algum momento, o interesse do grupo se desvia da troca de idéias para o jogo no qual está envolvido. Na brincadeira cooperativa, é muito importante pertencer ao grupo. A criança tem um lugar definido, bastante diferente daquele decorrente da atividade individual que caracteriza as brincadeiras solitárias ou em paralelo e, diferente até, da simples socialização peculiar ao processo de se juntar a um grupo. (Cooperação simples).Brincadeiras cooperativas podem constituir, simplesmente, a atividade conjunta de montar objetos com peças de encaixe, ou fazer castelos de areia. A criança toma parte em atividades compartilhadas, fazendo as mesmas coisas, divide brinquedos, espera a sua vez, trabalha com os outros. A conversa é principalmente em torno da própria atividade.
Cooperação Complexa
Nesse tipo de brincadeira as crianças assumem papéis, esperam a vez, e toda a atividade depende mais do desempenho conjunto do grupo.
A criança brinca de faz-de-conta, assume um papel e o representa. Participa também de jogos com regras complexas. Certas brincadeiras, como imitar papai e mamãe, por exemplo, podem durar vários dias ou semanas, com graus variáveis de elaboração e com interrupções causadas por outros interesses. A conversa gira principalmente em torno dos papéis representados.
À medida que cresce, a criança vai incluindo mais tipos de brincadeiras em suas atividades. Assim, aos dois anos ela não é capaz de brincar cooperativamente, mas aos quatro já consegue. Quando mais crescida ela, ocasionalmente, brinca sozinha ou em paralelo.
As brincadeiras sociais vão se desenvolvendo à proporção que a criança descobre como se comunicar com as outras, usando a palavra. De um modo geral somente aos dois anos, ela começa a se interessar em observar outras crianças brincando, e até tentar brincar junto. Mas sempre estas crianças são suas rivais, e quando encontra problemas, procura a mãe. Aos três anos ela começa a brincar mais com outras crianças, fica feliz em ser aceita em um grupo.A partir dos quatro anos participa de jogos de faz-de-conta, brinca de forma cooperativa simples, em paralelo, solitária. Nessa idade a criança gosta de todos os tipos de atividade.
Observando as brincadeiras das crianças, vamos notar o desenvolvimento e as mudanças em seus interesses e nos padrões de seu relacionamento social. Uma tal compreensão tem vantagem adicional de ajudar bastante na vida com uma criança pequena. Por exemplo, sabemos que, uma festa de aniversário com muitas crianças de dois anos de idade não será, jamais, um sucesso. Já aos três anos enquanto algumas crianças estão prontas para participar de brincadeiras de grupo, outras ainda se encontram no estágio solitário ou em paralelo.
Quando as crianças estão doentes ou sentindo-se inseguras, suas brincadeiras regridem a fases anteriores e elas passam a brincar da forma como o faziam há seis meses ou um ano. Isto é de se esperar e devemos tomar providências para satisfazer as necessidades da criança.
A maior parte das crianças que brinca sozinha, leva mais tempo para atravessar diversos estágios de aprender a brincar em grupo. Nunca devemos forçar uma criança a participar de brincadeiras em grupo se ela não quiser; é perfeitamente possível que ela não saiba como fazer isto, por ainda não estar preparada.
Como podemos ajudar a criança brincar
À medida que a criança cresce ela vai aprendendo várias brincadeiras, começa a gostar de brincar com outras crianças, e não perde a necessidade e nem o interesse como fazia nos estágios anteriores.
A melhor maneira de a criança aprender a brincar é respeitarmos seu próprio ritmo, ajudá-la e encorajá-la, se necessário. Se a criança possui oportunidade de brincar com outras crianças da mesma idade, a maioria delas aprende; antes do cinco anos, saberá dividir, compartilhar e conviver bem em grupos. Devemos proporcionar à criança muitas oportunidades de atravessar os diversos estágios de aprendizado. Além disso, é importante se ter idéia do que fazer durante as atividades das crianças, para tornar as coisas mais fáceis para todas elas.
Os adultos podem, dessa maneira, cumprir várias funções:
•Dar apoio;
•Escolher o momento certo para ajudar a criança a se retirar da brincadeira, quando sentir que ela está insegura.
•Assegurar sempre que a criança esteja pronta para novas experiências, deixando que ela se manifeste.
•Dar idéias: sugerir novas atividades, e estar sempre preparado a ter idéias rejeitadas, quando as crianças ficarem determinadas e seguirem outro rumo.
•Estimular conversas: às vezes a conversa decorre naturalmente da brincadeira, desviando a atenção da criança do aqui e agora.
•Dar conselhos: julgar cuidadosamente quando a criança será capaz de aprender com a experiência, ou se é melhor intervir.
•Atuar como juiz: avaliar situações intervir, para resolver atritos ou evitá-los.
•Tomar parte na brincadeira: aceitar qualquer papel que lhe seja atribuído.
•Ajudar uma criança em dificuldades quando alguma tarefa está além das suas capacidades.
Nunca devemos esquecer que brincar é altamente importante na vida da criança, primeiro por ser uma atividade na qual ela já se interessa naturalmente e, segundo, porque desenvolve suas percepções, sua inteligência, suas tendências à experimentação, seus instintos sociais.
Angela Cristina Munhoz Maluf
(capítulo do livro: brincar prazer e aprendizado -vozes, 2003)
As crianças precisam atravessar diversos estágios no aprendizado de brincar em conjunto, antes de serem capazes de aproveitar as brincadeiras de grupo. Mesmo depois que ela ganhou confiança em brincar com outras crianças ela gostará, às vezes, de voltar a brincar sozinha ou apenas na presença de amigos, sem colaboração de alguma parte.
Podemos identificar diferentes tipos de brincadeiras sob o ponto de vista da participação social, cada um deles implicando num maior envolvimento entre as crianças e uma maior capacidade de se relacionar e se comunicar com os outros.
Brincadeiras solitárias
Brincar pode prender totalmente a atenção da criança. Há muito que explorar no mundo: forma, textura (áspero, liso, escorregadio) consistência (duro, macio) cor, gosto. Tudo deve ser explorado, sentido, cheirado, experimentado. No início do brincar, significa isso, e a presença de outra criança não oferece nenhum interesse. Absorvido nas próprias atividades, separado de outras crianças, brinca com coisas diferentes. Freqüentemente silenciosamente, às vezes fala consigo mesmo.
Brincadeiras em paralelo... Brincar na presença do outro
Antes de mostrar interesse nas brincadeiras de outras crianças, a criança que está brincando sozinha vai querer passar boa parte do tempo brincando ao lado de seus novos amiguinhos, sem fazer esforço para estabelecer contato. Contentar-se-á em brincar ao lado de outras crianças, “em paralelo” e se absorverá na sua própria atividade. No máximo defenderá seus brinquedos. A fala não é geralmente dirigida a ninguém em particular. Até é possível que as crianças brinquem em silêncio.
Observar brincadeiras
Uma modificação muito grande acontece quando a criança passa a mostrar interesse nas atividades de outras crianças. No início, tal interesse parecerá bastante passivo, e bom espaço de tempo será gasto, simplesmente, na observação das brincadeiras. Pode-se notar, porém, que esse comportamento será bem diferente de uma olhada sem compromisso, pois a criança estará obviamente envolvida, muito absorvida em sua observação. Não há conversas entre eles.
Juntar se à brincadeira... Brincar com os outros do próprio grupo.
Os primeiros movimentos em direção a juntar-se às brincadeiras de um grupo podem tanto se tranqüilos quanto tempestuosos; isto depende do grupo em questão e da criança que pretende juntar-se. Seja como for, os relacionamentos no interior do grupo tendem a se formar rapidamente, talvez cessar com a mesma rapidez e, freqüentemente, se refazer minutos depois.
Existem dois tipos característicos de brincadeiras nessa fase:
O primeiro envolve fazer o que todos estão fazendo, apenas para não ser diferente, ou talvez como um meio de tornar-se um membro do grupo. É o que pode acontecer, por exemplo, quando um pequeno grupo de crianças está correndo juntas, gritando qualquer coisa.
O segundo surge quando membros do grupo estão engajados numa mesma atividade, como, por exemplo, desenhando ou montando um quebra-cabeça em volta de uma mesa, tendo, porém, como principal interesse conversar entre si.
O assunto da conversa pode afastar-se completamente da atividade que esteja sendo desenvolvida e incluir a troca de informações sobre os pais, os acontecimentos especiais como aniversários e passeios. A atividade em si pode ser mencionada na conversa, mas outra vez ocorrerá em uma situação mais ampla, relacionada com o que as crianças gostam ou não gostam, ou sobre o que cada uma está fazendo.
Brincadeiras Cooperativas
Em algum momento, o interesse do grupo se desvia da troca de idéias para o jogo no qual está envolvido. Na brincadeira cooperativa, é muito importante pertencer ao grupo. A criança tem um lugar definido, bastante diferente daquele decorrente da atividade individual que caracteriza as brincadeiras solitárias ou em paralelo e, diferente até, da simples socialização peculiar ao processo de se juntar a um grupo. (Cooperação simples).Brincadeiras cooperativas podem constituir, simplesmente, a atividade conjunta de montar objetos com peças de encaixe, ou fazer castelos de areia. A criança toma parte em atividades compartilhadas, fazendo as mesmas coisas, divide brinquedos, espera a sua vez, trabalha com os outros. A conversa é principalmente em torno da própria atividade.
Cooperação Complexa
Nesse tipo de brincadeira as crianças assumem papéis, esperam a vez, e toda a atividade depende mais do desempenho conjunto do grupo.
A criança brinca de faz-de-conta, assume um papel e o representa. Participa também de jogos com regras complexas. Certas brincadeiras, como imitar papai e mamãe, por exemplo, podem durar vários dias ou semanas, com graus variáveis de elaboração e com interrupções causadas por outros interesses. A conversa gira principalmente em torno dos papéis representados.
À medida que cresce, a criança vai incluindo mais tipos de brincadeiras em suas atividades. Assim, aos dois anos ela não é capaz de brincar cooperativamente, mas aos quatro já consegue. Quando mais crescida ela, ocasionalmente, brinca sozinha ou em paralelo.
As brincadeiras sociais vão se desenvolvendo à proporção que a criança descobre como se comunicar com as outras, usando a palavra. De um modo geral somente aos dois anos, ela começa a se interessar em observar outras crianças brincando, e até tentar brincar junto. Mas sempre estas crianças são suas rivais, e quando encontra problemas, procura a mãe. Aos três anos ela começa a brincar mais com outras crianças, fica feliz em ser aceita em um grupo.A partir dos quatro anos participa de jogos de faz-de-conta, brinca de forma cooperativa simples, em paralelo, solitária. Nessa idade a criança gosta de todos os tipos de atividade.
Observando as brincadeiras das crianças, vamos notar o desenvolvimento e as mudanças em seus interesses e nos padrões de seu relacionamento social. Uma tal compreensão tem vantagem adicional de ajudar bastante na vida com uma criança pequena. Por exemplo, sabemos que, uma festa de aniversário com muitas crianças de dois anos de idade não será, jamais, um sucesso. Já aos três anos enquanto algumas crianças estão prontas para participar de brincadeiras de grupo, outras ainda se encontram no estágio solitário ou em paralelo.
Quando as crianças estão doentes ou sentindo-se inseguras, suas brincadeiras regridem a fases anteriores e elas passam a brincar da forma como o faziam há seis meses ou um ano. Isto é de se esperar e devemos tomar providências para satisfazer as necessidades da criança.
A maior parte das crianças que brinca sozinha, leva mais tempo para atravessar diversos estágios de aprender a brincar em grupo. Nunca devemos forçar uma criança a participar de brincadeiras em grupo se ela não quiser; é perfeitamente possível que ela não saiba como fazer isto, por ainda não estar preparada.
Como podemos ajudar a criança brincar
À medida que a criança cresce ela vai aprendendo várias brincadeiras, começa a gostar de brincar com outras crianças, e não perde a necessidade e nem o interesse como fazia nos estágios anteriores.
A melhor maneira de a criança aprender a brincar é respeitarmos seu próprio ritmo, ajudá-la e encorajá-la, se necessário. Se a criança possui oportunidade de brincar com outras crianças da mesma idade, a maioria delas aprende; antes do cinco anos, saberá dividir, compartilhar e conviver bem em grupos. Devemos proporcionar à criança muitas oportunidades de atravessar os diversos estágios de aprendizado. Além disso, é importante se ter idéia do que fazer durante as atividades das crianças, para tornar as coisas mais fáceis para todas elas.
Os adultos podem, dessa maneira, cumprir várias funções:
•Dar apoio;
•Escolher o momento certo para ajudar a criança a se retirar da brincadeira, quando sentir que ela está insegura.
•Assegurar sempre que a criança esteja pronta para novas experiências, deixando que ela se manifeste.
•Dar idéias: sugerir novas atividades, e estar sempre preparado a ter idéias rejeitadas, quando as crianças ficarem determinadas e seguirem outro rumo.
•Estimular conversas: às vezes a conversa decorre naturalmente da brincadeira, desviando a atenção da criança do aqui e agora.
•Dar conselhos: julgar cuidadosamente quando a criança será capaz de aprender com a experiência, ou se é melhor intervir.
•Atuar como juiz: avaliar situações intervir, para resolver atritos ou evitá-los.
•Tomar parte na brincadeira: aceitar qualquer papel que lhe seja atribuído.
•Ajudar uma criança em dificuldades quando alguma tarefa está além das suas capacidades.
Nunca devemos esquecer que brincar é altamente importante na vida da criança, primeiro por ser uma atividade na qual ela já se interessa naturalmente e, segundo, porque desenvolve suas percepções, sua inteligência, suas tendências à experimentação, seus instintos sociais.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Psicanálise e Educação
PSICANÁLISE E EDUCAÇÃO
Questões do cotidiano
Renate Meyer Sanches
São Paulo - Editora Escuta, set/2010 - 2ª Edição – 90 páginas.
O Livro parte da teoria psicanalítica, de Freud, percorrendo por autores como Melanie Klein, D.W. Winnicott, Froncoise Dolto e Maud Mannoni. Inspirada nas situações (suas e de alguns entrevistados) vividas no cotidiano, dentro estruturas sociais viciadas, a escola e as instituições totais (Febem), o texto que Renate nos traz, remete à prática, formal ou informal, de questões educacionais, cujo foco é: o educador, a criança, a família, suas histórias, suas dificuldades e angústias, como seres únicos, porém de comportamento semelhantes, cada qual com sua subjetividade, agindo num mundo de construção permanente do eu, do outro, e do entorno social. O estudo objetiva contribuir para um novo olhar da criança, do educador e da instituição, para uma intervenção mais adequada.
Oferece instrumentos para questões sobre agressividade, sexualidade, e outras, buscando caminhos para lidar com angústias e dificuldades enfrentadas por educadores e educandos, propondo maneiras de olhar e pensar a criança, o educador e a instituição.
Dividido em seis capítulos, de forma narrativa a autora apresenta situações cotidianas, sugerindo idéias de como se colocar diante de problemáticas e possíveis dificuldades, tais como: A educação na cultura contemporânea; O ato de aprender e suas dificuldades: uma leitura psicanalítica; O jogo; Agressividade; Sexualidade; A função da verdade.
As culturas contemporâneas, tidas como: tipicamente narcisíca, valoriza o indivíduo, o prazer imediato, dificulta relações de amizade, transformações na família, deixando pais inseguros, perdendo o eixo da educação de seus filhos, valorizando excessivamente a criança em detrimento do certo e errado.
O aprender, não é diferente de outras atividades humanas, segundo Winnicott inicia-se nos primórdios da vida, sendo prazeroso para uns e sofrimento para outros, necessitando por vezes de um objeto transicional, que tem por função fazer uma ponte entre o mundo interno e o externo, aliviando a angústia da criança em situações de conflito. O prazer só vem quando o conflito é resolvido, e o educador ao lidar com essas questões será necessário criar condições de confiabilidade, para que a criança não sinta que o processo de aprendizagem é algo imposto, amenizando, porém colocando limites, levando a um processo de crescimento.
O jogo tem funções de fantasia, fundamental para o processo de aprendizagem levando a criança a elaborar o aprendizado, se apropriando deste modo, de pequenas dificuldades cotidianas e superando obstáculos, ao mesmo tempo, socializando, compartilhando experiências descobrindo a si mesma e ao mundo no qual se constrói, explorando, exercitando a criatividade, transformando sua realidade intelectualmente, dando significado, assimilando conceitos, regras que facilitarão seu contato com o mundo adulto.
Uma das maiores queixas de pais e educadores é a agressividade. “A psicanálise concebe um sujeito no qual a agressividade se constitui num potencial inato, tão fundamental quanto a sexualidade, algo que pertence ao rol dos recursos básicos do indivíduo para sua sobrevivência e seu crescimento.”(pg 43). Sinal de movimento, a agressividade é um impulso vital, diferente da destrutividade, que é a frustração imposta pelo ambiente. O educador reconhecendo este sentimento deve mostrar à criança sua legitimidade auxiliando-a a encontrar formas de expressar-se sem agredir a si e ao outro. Neste sentido a criança descobre que o mundo nem sempre lhe dá o que quer, exigindo o desenvolvimento de seus recursos internos para lidar com situações de frustração, uma boa ajuda para o entendimento dos conflitos é a brincadeira, histórias e conversas, que fornecerão à criança instrumentos saudáveis para seu desenvolvimento e transformação.
A sexualidade é talvez uma das maiores questões que causam dificuldades aos pais e educadores, por tratar-se de uma rede de contradições e conflitos, pela curiosidade e entendimento, pelas descobertas. Compreender a sexualidade, colocar limites e canalizar seu potencial frente ao mundo que apresenta muitos estímulos, é tarefa difícil, porém é condição essencial para a inserção do indivíduo no sociedade.
Muitas vezes no cotidiano parece ser mais fácil dizer pequenas mentiras às crianças, em questões como a morte, separação dos pais, adoção, abrigamento em instituições; Porém para a criança a confiança em si e no mundo esta sendo abalada, gerando sintomas de dor, sofrimento, de medo, desamparo, culpa. Faz-se necessário aos pais e educadores lidarem com a verdade de maneira sutil, lidando com esta problemática através de estratégias educacionais, como histórias, auxiliando a criança a lutar com seus fantasmas de maneira benéfica.
Num estilo coloquial, mesmo em se tratando de assuntos complexos, a educação na cultura contemporânea, é colocada com questões recorrentes, o argumento se desenvolve num contexto social que interfere na subjetividade, no jogo das aparências, e, no qual a criança torna-se um adulto em miniatura com seus desejos atrelados ao poder da mídia, incentivando o consumismo desvairado, onde o ser vale o tem, e não o que se é, tendo pouca compreensão de si, a criança incorpora valores impostos, causando insegurança nos pais e educadores. Porém diante destas transformações ficamos sem referencial para discernir o certo do errado, numa dúvida permanente, até, do que é certo e o que é errado, causando uma sensação de estranheza, onde os lugares (dos pais e educadores) não são claramente definidos e tudo toma um lugar comum. A compreensão de si fundamenta-se no reconhecimento da coexistência, e ao mesmo tempo constitui-se como ponto de partida para a compreensão do outro.) O ser da compreensão, Augras, M, pg 56, 1981. Nesse sentido observamos crianças tornando-se tiranas, defrontando-se com seus pais, anulando a possibilidade de descobrir suas reais capacidades, estas são questões da sociedade pós-moderna. (Nessa perspectiva de pós-modernidade, a família na atualidade acena para identidades contraditórias, para a pluralidade de centros de poder, e o sujeito com problemas de aprendizagem apresenta-se como parte desta dinâmica e diversidade e diferenciação.), Pitombo, E, - Família, psicopedagogia e pós-modernidade. pg 3 ( texto analisado em sala de aula)
Entendemos que instituições totais, dentro das condições de trabalho, e do cotidiano, as atividades ali exercidas, são permeadas pela hierarquia própria destas instituições, onde não há autonomia, e na qual os funcionários perdem o referencial, profissional/pessoal, aliciados numa teia de poderes subliminares, onde as relações são perpassadas pela “mão” institucional, perpetuando, desta forma, o sistema. Institucionalizado, o funcionário é ao mesmo tempo possuidor e possuído da Febem “à medida que vão ocorrendo transformações na identidade, concomitantemente ocorrem transformações na consciência (tanto quanto na atividade).” Ciampa, A da C. pág. 186, 1996. Desta forma não é possível que crianças e jovens abrigados, recebam toda atenção e respeito merecido.
A agressividade tem um movimento que nos comunica algo. Alguma coisa não vai bem. Essa comunicação é um vínculo com o espaço externo. A criança ingressa cada vez mais no mundo dos adultos, e com seu entendimento da realidade, manifesta essa agressividade através de seus atos, demonstrando raiva num movimento que traz à tona suas frustrações, o que neste sentido torna-se positivo, descobrindo que o mundo não lhe dá tudo o quer, e às vezes necessita. Já a passividade, a não manifestação de seus desejos encobre algo muito sério. Violência é tema de difícil argumentação, pois pertence ao rol de experiências intimas, pessoais, falar de violência implica em fazer surgir sentimentos de dor, sofrimentos que devem ser mantidos na esfera pessoal. Crianças vítimas de violência são agressivas. A escola é um espaço que a leva a criança a aprender a ser um ser social, o educador em sua pratica, não deve restringir-se a meras ações de reprodução do conteúdo, aprendizagem também é saber dar limites, perceber qual o melhor momento para introduzir assuntos delicados, que interferem no processo de aprendizagem.
Não é fácil se expor, e expor uma dúvida é ainda mais difícil, a criança é curiosa por natureza e faz perguntas que desestabilizam pais e educadores, a sexualidade não tem jeito de ficar trancada, porém trata-se de um dos assuntos menos resolvidos na escola e na família. Compreender a sexualidade, a curiosidade com relação ao outro e si mesmo, não são situações preocupantes, o educador preparado dará espaço para discussão, de modo adequado, com limites, desmistificar os conflitos implícitos e explícitos, lidando também com seus próprios conflitos, porque falar de sexualidade implica em expor-se também, distanciando-se da malicia, elaborando diálogos sensíveis, sem ambivalência, onde as emoções sejam atingidas para que a compreensão e o crescimento se façam.
O ato de aprender fica por vezes, prejudicado, diante de tantos estímulos aos quais as crianças são expostas, a vida torna-se um paradoxo, as situações colocadas, nos levam à reflexão, a percepção de si e do outro, e do contexto no qual se esta inserido. As soluções sugeridas são simples, práticas, coloquiais, que merecem aprofundamento, diante da subjetividade dos envolvidos, uma vez que, a prática se fará na intersubjetividade. O livro não se propõe a mudar teorias, inserir conceitos, porém respaldar a prática cotidiana, sensibilizando o leitor, a ter um novo olhar, maior atenção sobre si, seu entorno e à criança, é claro, objetivo, e nos induz a pensar, nas mudanças necessárias de hábitos cristalizados que interferem negativamente em nosso exercício profissional.
(Portanto mesmo que a psicanálise não se destine a educar, muito pelo contrário, ela só existe a partir de uma prática clínica com finalidade bem distinta da educação, pensasse que seu aporte teórico possa contribuir para pensar o campo da educação ou suas práticas, como uma via possível de articulação, do saber do sujeito do inconsciente com o saber sistematizado transmitido pela escola, ou seja, o educador subsidiado com esse saber poderá com mais propriedade fazer resistência aos saberes totalizados e fechados preconizado pela psicologização da educação, que muitas vezes, tende a padronizar modelos ideais de comportamento, como se ao sujeito não houvesse possibilidade de aprender a partir do erro e do equívoco.) Psicanálise e educação: algumas reflexões, Chernicharo, Edna A M pgs 4 e 5 (pdf)
A leitura deste livro é recomendada aos pais, alunos da área de educação, psicólogos, psicopedagogos, e demais funções correlatas. Trata-se de uma obra com linguagem simples, que traz problemas do cotidiano como exemplos, e neles busca soluções com propostas práticas e objetivas, sendo um grande ponto de partida para quem pretende respaldar, seu crescimento pessoal e profissional, contribuindo para uma postura mais reflexiva do leitor.
Renate Meyer Sanches é professora e supervisora da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica - PUC-SP por 38 anos, Renate Meyer Sanches é psicanalista, mestre em Psicologia Social e Doutora em Psicologia Clínica, é autora dos livros: Escolhi a vida: desafios da Aids mental; Psicanálise e educação: questões do cotidiano; organizadora e coautora de Winnicott na clínica e na instituição; e Conta de novo mãe.
Mãe de Claudia, Lars e Simone, é avó de Rafael, Naomi, David e Sofia. http://www.osmelhoreslivrosaqui.com/2010/11/conta-de-novo-mae-livro-da-psicanalista.html
Carmem Ap. Mendes Fidalgo
Sedes Sapientiae
Aluna do curso: Clínica Psicopedagógica: Interseção Teoria e Prática
Docentes: Elisa Maria Pitombo e Beatriz Helena Stucchi
Bibliografia:
Augras, Monique – O ser da compreensão – fenomenologia da situação de psicodiagnóstico, 2ª edição, Ed. Vozes, 1981
Ciampa, Antonio da C – A estória do Severino e a História da Severina – um ensaio de psicologia social, 6ª reimpressão, Ed. Brasiliense 1986
Chernicharo, Edna A M pgs 4 e 5 ( arquivo pdf) Psicanálise e educação: algumas reflexões.
Pitombo, Elisa M - Família, psicopedagogia e pós-modernidade ( texto ) pg 3
http://pepsic.bvs-psi.org.br/scieloOrg/php/reflinks.php?refpid=S1415-6954200900020000600020&pid=S1415-69542009000200006&lng=es
Questões do cotidiano
Renate Meyer Sanches
São Paulo - Editora Escuta, set/2010 - 2ª Edição – 90 páginas.
O Livro parte da teoria psicanalítica, de Freud, percorrendo por autores como Melanie Klein, D.W. Winnicott, Froncoise Dolto e Maud Mannoni. Inspirada nas situações (suas e de alguns entrevistados) vividas no cotidiano, dentro estruturas sociais viciadas, a escola e as instituições totais (Febem), o texto que Renate nos traz, remete à prática, formal ou informal, de questões educacionais, cujo foco é: o educador, a criança, a família, suas histórias, suas dificuldades e angústias, como seres únicos, porém de comportamento semelhantes, cada qual com sua subjetividade, agindo num mundo de construção permanente do eu, do outro, e do entorno social. O estudo objetiva contribuir para um novo olhar da criança, do educador e da instituição, para uma intervenção mais adequada.
Oferece instrumentos para questões sobre agressividade, sexualidade, e outras, buscando caminhos para lidar com angústias e dificuldades enfrentadas por educadores e educandos, propondo maneiras de olhar e pensar a criança, o educador e a instituição.
Dividido em seis capítulos, de forma narrativa a autora apresenta situações cotidianas, sugerindo idéias de como se colocar diante de problemáticas e possíveis dificuldades, tais como: A educação na cultura contemporânea; O ato de aprender e suas dificuldades: uma leitura psicanalítica; O jogo; Agressividade; Sexualidade; A função da verdade.
As culturas contemporâneas, tidas como: tipicamente narcisíca, valoriza o indivíduo, o prazer imediato, dificulta relações de amizade, transformações na família, deixando pais inseguros, perdendo o eixo da educação de seus filhos, valorizando excessivamente a criança em detrimento do certo e errado.
O aprender, não é diferente de outras atividades humanas, segundo Winnicott inicia-se nos primórdios da vida, sendo prazeroso para uns e sofrimento para outros, necessitando por vezes de um objeto transicional, que tem por função fazer uma ponte entre o mundo interno e o externo, aliviando a angústia da criança em situações de conflito. O prazer só vem quando o conflito é resolvido, e o educador ao lidar com essas questões será necessário criar condições de confiabilidade, para que a criança não sinta que o processo de aprendizagem é algo imposto, amenizando, porém colocando limites, levando a um processo de crescimento.
O jogo tem funções de fantasia, fundamental para o processo de aprendizagem levando a criança a elaborar o aprendizado, se apropriando deste modo, de pequenas dificuldades cotidianas e superando obstáculos, ao mesmo tempo, socializando, compartilhando experiências descobrindo a si mesma e ao mundo no qual se constrói, explorando, exercitando a criatividade, transformando sua realidade intelectualmente, dando significado, assimilando conceitos, regras que facilitarão seu contato com o mundo adulto.
Uma das maiores queixas de pais e educadores é a agressividade. “A psicanálise concebe um sujeito no qual a agressividade se constitui num potencial inato, tão fundamental quanto a sexualidade, algo que pertence ao rol dos recursos básicos do indivíduo para sua sobrevivência e seu crescimento.”(pg 43). Sinal de movimento, a agressividade é um impulso vital, diferente da destrutividade, que é a frustração imposta pelo ambiente. O educador reconhecendo este sentimento deve mostrar à criança sua legitimidade auxiliando-a a encontrar formas de expressar-se sem agredir a si e ao outro. Neste sentido a criança descobre que o mundo nem sempre lhe dá o que quer, exigindo o desenvolvimento de seus recursos internos para lidar com situações de frustração, uma boa ajuda para o entendimento dos conflitos é a brincadeira, histórias e conversas, que fornecerão à criança instrumentos saudáveis para seu desenvolvimento e transformação.
A sexualidade é talvez uma das maiores questões que causam dificuldades aos pais e educadores, por tratar-se de uma rede de contradições e conflitos, pela curiosidade e entendimento, pelas descobertas. Compreender a sexualidade, colocar limites e canalizar seu potencial frente ao mundo que apresenta muitos estímulos, é tarefa difícil, porém é condição essencial para a inserção do indivíduo no sociedade.
Muitas vezes no cotidiano parece ser mais fácil dizer pequenas mentiras às crianças, em questões como a morte, separação dos pais, adoção, abrigamento em instituições; Porém para a criança a confiança em si e no mundo esta sendo abalada, gerando sintomas de dor, sofrimento, de medo, desamparo, culpa. Faz-se necessário aos pais e educadores lidarem com a verdade de maneira sutil, lidando com esta problemática através de estratégias educacionais, como histórias, auxiliando a criança a lutar com seus fantasmas de maneira benéfica.
Num estilo coloquial, mesmo em se tratando de assuntos complexos, a educação na cultura contemporânea, é colocada com questões recorrentes, o argumento se desenvolve num contexto social que interfere na subjetividade, no jogo das aparências, e, no qual a criança torna-se um adulto em miniatura com seus desejos atrelados ao poder da mídia, incentivando o consumismo desvairado, onde o ser vale o tem, e não o que se é, tendo pouca compreensão de si, a criança incorpora valores impostos, causando insegurança nos pais e educadores. Porém diante destas transformações ficamos sem referencial para discernir o certo do errado, numa dúvida permanente, até, do que é certo e o que é errado, causando uma sensação de estranheza, onde os lugares (dos pais e educadores) não são claramente definidos e tudo toma um lugar comum. A compreensão de si fundamenta-se no reconhecimento da coexistência, e ao mesmo tempo constitui-se como ponto de partida para a compreensão do outro.) O ser da compreensão, Augras, M, pg 56, 1981. Nesse sentido observamos crianças tornando-se tiranas, defrontando-se com seus pais, anulando a possibilidade de descobrir suas reais capacidades, estas são questões da sociedade pós-moderna. (Nessa perspectiva de pós-modernidade, a família na atualidade acena para identidades contraditórias, para a pluralidade de centros de poder, e o sujeito com problemas de aprendizagem apresenta-se como parte desta dinâmica e diversidade e diferenciação.), Pitombo, E, - Família, psicopedagogia e pós-modernidade. pg 3 ( texto analisado em sala de aula)
Entendemos que instituições totais, dentro das condições de trabalho, e do cotidiano, as atividades ali exercidas, são permeadas pela hierarquia própria destas instituições, onde não há autonomia, e na qual os funcionários perdem o referencial, profissional/pessoal, aliciados numa teia de poderes subliminares, onde as relações são perpassadas pela “mão” institucional, perpetuando, desta forma, o sistema. Institucionalizado, o funcionário é ao mesmo tempo possuidor e possuído da Febem “à medida que vão ocorrendo transformações na identidade, concomitantemente ocorrem transformações na consciência (tanto quanto na atividade).” Ciampa, A da C. pág. 186, 1996. Desta forma não é possível que crianças e jovens abrigados, recebam toda atenção e respeito merecido.
A agressividade tem um movimento que nos comunica algo. Alguma coisa não vai bem. Essa comunicação é um vínculo com o espaço externo. A criança ingressa cada vez mais no mundo dos adultos, e com seu entendimento da realidade, manifesta essa agressividade através de seus atos, demonstrando raiva num movimento que traz à tona suas frustrações, o que neste sentido torna-se positivo, descobrindo que o mundo não lhe dá tudo o quer, e às vezes necessita. Já a passividade, a não manifestação de seus desejos encobre algo muito sério. Violência é tema de difícil argumentação, pois pertence ao rol de experiências intimas, pessoais, falar de violência implica em fazer surgir sentimentos de dor, sofrimentos que devem ser mantidos na esfera pessoal. Crianças vítimas de violência são agressivas. A escola é um espaço que a leva a criança a aprender a ser um ser social, o educador em sua pratica, não deve restringir-se a meras ações de reprodução do conteúdo, aprendizagem também é saber dar limites, perceber qual o melhor momento para introduzir assuntos delicados, que interferem no processo de aprendizagem.
Não é fácil se expor, e expor uma dúvida é ainda mais difícil, a criança é curiosa por natureza e faz perguntas que desestabilizam pais e educadores, a sexualidade não tem jeito de ficar trancada, porém trata-se de um dos assuntos menos resolvidos na escola e na família. Compreender a sexualidade, a curiosidade com relação ao outro e si mesmo, não são situações preocupantes, o educador preparado dará espaço para discussão, de modo adequado, com limites, desmistificar os conflitos implícitos e explícitos, lidando também com seus próprios conflitos, porque falar de sexualidade implica em expor-se também, distanciando-se da malicia, elaborando diálogos sensíveis, sem ambivalência, onde as emoções sejam atingidas para que a compreensão e o crescimento se façam.
O ato de aprender fica por vezes, prejudicado, diante de tantos estímulos aos quais as crianças são expostas, a vida torna-se um paradoxo, as situações colocadas, nos levam à reflexão, a percepção de si e do outro, e do contexto no qual se esta inserido. As soluções sugeridas são simples, práticas, coloquiais, que merecem aprofundamento, diante da subjetividade dos envolvidos, uma vez que, a prática se fará na intersubjetividade. O livro não se propõe a mudar teorias, inserir conceitos, porém respaldar a prática cotidiana, sensibilizando o leitor, a ter um novo olhar, maior atenção sobre si, seu entorno e à criança, é claro, objetivo, e nos induz a pensar, nas mudanças necessárias de hábitos cristalizados que interferem negativamente em nosso exercício profissional.
(Portanto mesmo que a psicanálise não se destine a educar, muito pelo contrário, ela só existe a partir de uma prática clínica com finalidade bem distinta da educação, pensasse que seu aporte teórico possa contribuir para pensar o campo da educação ou suas práticas, como uma via possível de articulação, do saber do sujeito do inconsciente com o saber sistematizado transmitido pela escola, ou seja, o educador subsidiado com esse saber poderá com mais propriedade fazer resistência aos saberes totalizados e fechados preconizado pela psicologização da educação, que muitas vezes, tende a padronizar modelos ideais de comportamento, como se ao sujeito não houvesse possibilidade de aprender a partir do erro e do equívoco.) Psicanálise e educação: algumas reflexões, Chernicharo, Edna A M pgs 4 e 5 (pdf)
A leitura deste livro é recomendada aos pais, alunos da área de educação, psicólogos, psicopedagogos, e demais funções correlatas. Trata-se de uma obra com linguagem simples, que traz problemas do cotidiano como exemplos, e neles busca soluções com propostas práticas e objetivas, sendo um grande ponto de partida para quem pretende respaldar, seu crescimento pessoal e profissional, contribuindo para uma postura mais reflexiva do leitor.
Renate Meyer Sanches é professora e supervisora da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica - PUC-SP por 38 anos, Renate Meyer Sanches é psicanalista, mestre em Psicologia Social e Doutora em Psicologia Clínica, é autora dos livros: Escolhi a vida: desafios da Aids mental; Psicanálise e educação: questões do cotidiano; organizadora e coautora de Winnicott na clínica e na instituição; e Conta de novo mãe.
Mãe de Claudia, Lars e Simone, é avó de Rafael, Naomi, David e Sofia. http://www.osmelhoreslivrosaqui.com/2010/11/conta-de-novo-mae-livro-da-psicanalista.html
Carmem Ap. Mendes Fidalgo
Sedes Sapientiae
Aluna do curso: Clínica Psicopedagógica: Interseção Teoria e Prática
Docentes: Elisa Maria Pitombo e Beatriz Helena Stucchi
Bibliografia:
Augras, Monique – O ser da compreensão – fenomenologia da situação de psicodiagnóstico, 2ª edição, Ed. Vozes, 1981
Ciampa, Antonio da C – A estória do Severino e a História da Severina – um ensaio de psicologia social, 6ª reimpressão, Ed. Brasiliense 1986
Chernicharo, Edna A M pgs 4 e 5 ( arquivo pdf) Psicanálise e educação: algumas reflexões.
Pitombo, Elisa M - Família, psicopedagogia e pós-modernidade ( texto ) pg 3
http://pepsic.bvs-psi.org.br/scieloOrg/php/reflinks.php?refpid=S1415-6954200900020000600020&pid=S1415-69542009000200006&lng=es
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Educação Medicalizada
Educação Medicalizada
Autora: Carmem Fidalgo
Psicopedagoga
I Seminário Internacional – A Educação Medicalizada:
Dislexia, TDAH, e outros supostos transtornos.
Para os psicanalistas, essa situação é familiar. Freud recomendava que os pacientes fossem escutados com "atenção flutuante". Ele não sugeria que, durante a sessão, os analistas lessem o jornal ou cuidassem de seus e-mails.
Mas acontece que interpretar significa juntar dois pensamentos que, à primeira vista, não parecem ter muito a ver um com o outro. Para que isso aconteça, é preciso manter aberta a porta da divagação, de modo que pensamentos estrangeiros ao contexto não sejam barrados por princípio.
O diagnóstico médico e a escuta psicanalítica são processos que exigem um exercício criativo, se não inventivo. Neles, pode ser bem-vindo, AO MESMO TEMPO, divagar (ou mesmo devanear) e seguir os caminhos focados do pensamento que executa uma tarefa.
Nos anos 60, o metilfenidato (um estimulante) começou a ser usado para tratar o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) em crianças em idade escolar. De 60 a 90, o diagnóstico de TDAH aumentou brutalmente: nos EUA, por exemplo, de 12 crianças em cada mil nos anos 70, chegou-se a 34 em cada mil nos anos 90.
Seja qual for a realidade neurológica e psicológica do TDAH e seja qual for a eficácia do seu tratamento com metilfenidato, é difícil não constatar que a epidemia tem também uma explicação cultural.
Sua história começa logo nos anos 60, uma época em que divagar (perder-se no pensamento e pelo mundo) era um valor positivo da contracultura. Desde então, voltamos a prezar o olhar focado do predador. O ápice dessa reação (e do diagnóstico de TDAH) foi a religião do sucesso dos anos 90.
Ora, começam a aparecer pesquisas que revalorizam a divagação e o devaneio. "Descobrimos" o que já sabíamos: há uma desatenção sem a qual não se consegue pensar nada que valha a pena.
Usando apenas o dito "controle executivo" focado, conseguiremos cumprir tarefas adequadamente (mesmo assim, à condição que não haja imprevistos), mas não inventaremos nada. A própria invenção científica (não só a criação artística) pede um uso simultâneo de controle executivo e divagação.
A segunda documenta (por ressonância magnética funcional) a cooperação possível de pensamento focado e devaneio (que ainda são, por muitos, considerados como atividades exclusivas uma da outra).
À luz dessas pesquisas, seria bom reavaliar nossa hipervalorização da atenção focada e, sobretudo, nossa medicalização sistemática de crianças que, às vezes, com toda razão, gostam de sonhar de olhos abertos. Contardo Calligaris 09/09/2010
Medicalização da Educação: Conseqüências para a criança e para o adolescente
Resumo da Palestra de: Maria Aparecida Affonso Moysés – Médica Pediatra – Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP – autora do livro: A institucionalização invisível e outros.
Existem pessoas que tem doenças reais, que podem dificultar a aprendizagem, mas também existem infinitos modos de aprender, pessoas sentem, agem, são tranqüilas, explosivas, etc, e nem por isso são doentes. O extremo reflete as possibilidades deste infinito. Quais as evidências científicas que existem, comprovando doenças como TDAH, dislexia? Não negamos doenças, e diferentes modos de aprender. Existem conflitos de interesse, conflitos com a ética, com o ser humano.
Categorias Teóricas: TDH, TDAH, TOD, Dislexia – Não pertencem à esfera da ciência.
Doenças neurológicas podem provocar muitas seqüelas, inclusive na aprendizagem. Em 1.896 o texto de um oftalmologista inglês, questiona a cegueira verbal, e coloca que crianças que não aprendem podiam ter estas cegueiras verbais, à qual foi dado o nome de: dislexia. Em 1.962 foi classificada como disfunção cerebral mínima, específica porque compromete a escrita e desaparece com a idade. Atualmente com exames de neuroimagem, captam diferenças de fluxo sanguíneo metabolizados pelas células, alterações temporais, frontais, parentais e cerebelo, que auxiliam no diagnóstico, (maiores dados: ABD, Associação Brasileira de Dislexia, 8º Simpósio Internacional de Dislexia) http://www.dislexia.org.br/ - Os exames são feitos com ativação do cérebro, textos para ler, pseudo palavras, palavras escritas. Como diferenciar de analfabetos? Quando o cérebro aprende mudam os resultados, causa de não saber ler, ou porque o cérebro aprendeu? Quando há muita explicação e disputa, se esta muito longe do real.
Ler não é enxergar, é uma tarefa cognitiva e mexe com as emoções, exemplo: um texto em árabe, para quem não sabe ler árabe, no exame acusará dislexia, pessoas tem comportamentos diferentes e o exame será alterado. Em 1.998 há um consenso americano, com base em evidências.
É necessária reflexão, preconceitos são formas cristalizadas, negações do real, são imutáveis, estão na esfera da fé, e não da razão, é empírico, portanto, não é mundo da ciência.
Em seus estudos Foucault, constata que, quem inicia a medicina é a ciência médica, e a medicina se autoconstitui como ciência, atribuindo ao corpo normatizações, o que é normal e o que é doença, fazem com a lógica da biologia.
Na biologia há vida, comunicação, biologizar estreita, não há vida, não tem contexto, não tem história, são processos da medicina.
O mundo é dos homens, a história social é mutável, nós construímos o mundo, constituímos a linguagem, constituímos a nossa subjetividade, na medicina a subjetividade é deletada, é preciso não nos biologizar, corpos sem vida, submetidos. Preconceitos são tidos como verdades absolutas, não se substituem, se acumulam. Em tempos não muito remotos, as crianças da classe trabalhadora, eram tidas como crianças que não aprendiam, não se alimentavam bem, tinham piolhos “eu nunca vi piolho comer neurônio” - Não estamos aqui só no campo dos preconceitos, mas no campo do controle social, dos interesses econômicos.
Os processos de medicina omitem ou distorcem os dados reais, dizem que metilfenidatos/anfetaminas são drogas seguras e eficazes, porém o principio ativo é o mesmo da cocaína , aumenta a dopamina (sensação de bem-estar), mas, ainda assim é um químico, perde-se a sensibilidade da vida, ficam em outra esfera, provocam artificialmente a sensação de bem-estar, a vida sexual – nada.
Quando se tira a Ritalina, os neurônios estão encharcados de dopamina, o que aumenta o uso de cocaína, cerca de 30 a 50%, das crianças, hoje adolescentes, estão em clínicas de drogaditos, porque a Ritalina é fácil de se encontrar, barata e os médicos dizem que é uma droga segura. Pesquisas mostram o uso em estudantes, para potencializar o aprendizado, mas as reações adversas são fortes: psicose, sonolência, tontura, suicídio, viram “zumbis” contidos em si mesmos. Deve-se fazer exames de sangue periodicamente, pois compromete as células sanguíneas, causa anemia profunda, coma hepática irreversível, doenças coronárias e morte súbita
A Ritalina foca a atenção – mas... Para que focar a atenção? Se a criança não presta atenção, às vezes o assunto não é interessante. Remédios são dados rotineiramente, quando medicalizada, a criança, se desconstrói direitos à vida, e, sociais. Diagnóstico/drogas – refém da doença iatrogênicamente (doutrina médica reinante, no século XVI, que pretendia explicar todos os fenômenos da economia animal pela química rudimentar da época.) fonte: dicionário Aurélio.
Todos devem ter acesso a educações laicas, gratuitas – Que interesses defendem a medicalização? A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo ministrou um curso para professores diagnosticarem TDH, TDAH, dislexia, e outros distúrbios/transtornos de aprendizagem, que foi patrocinado pela NOVARTIS (Laboratório Farmacêutico) – onde ficam os professores comprometidos pela educação de qualidade? - Existe um projeto que obriga as escolas a contratar profissionais para avaliar quem tem dislexia e tratar na escola.
Medicamento como o metilfenidato jamais devem ser dados, não há efeito terapêutico potencial, o medicamento pode ajudar como muleta. Existem famílias aprisionadas pelo diagnóstico, os pais, em sua maioria, se apegam à possibilidade de uma vida melhor para seus filhos, contexto histórico de várias consultas, se agarram às possibilidades, se apegam ao diagnóstico, e ali, ficam reféns. É preciso que a criança e a família se apropriem do processo da normalidade, é preciso tornar as avaliações menos herméticas, é preciso embasamento científico, alguns questionários para detecção de TDAH, beiram ao ridículo, com questões absurdas, tais como: é esquecido em atividades do dia-a-dia? ; Não consegue se envolver em atividades de forma calma? –- QUEM ESPERA QUE CRIANÇAS BRINQUEM DE FORMAS CALMAS? Os critérios usados, não são critérios de doença, mas de normas sociais, hoje o que existe, são critérios para rótulos, onde, criança mal educada é SINÔNIMO de cliente. Citando o texto: Os vendedores de doença e o livro: Bioética como novo paradigma - Um Novo Modelo Biomédico e Biotecnológico - Marcelo Pelizzoli – Pois criar problemas que levam a tomar remédios, é controle social.
A medicalização é uma nova forma de controle social, cita o texto de Basaglia, um novo modo de vigiar e punir, e Foucault discutem as instituições (onde loucos e criminosos eram colocados na mesma categoria), e a sociedade de controle sem necessidades de paredes, onde os seres são refém do fracasso.
No Hospital das Clínicas do Paraná existe um programa chamado: DEDICA (atua especificamente com crianças vítimas de violência física e psicológica) http://www.hc.ufpr.br/dedica/ em que crianças são encaminhadas ao serviço de saúde, com dificuldades de aprendizagem, TDAH, drogas, etc.
Narra a história de Felipe, 6 anos, joga muito bem no computador, brinca, pula e corre, como uma criança saudável. Aos dois anos de idade, foi visitar, (acompanhado pelos pais) os irmãos adolescentes que se encontravam em um abrigo para menores, pois eram drogaditos e eram espancados pelos pais. Durante a visita Felipe foi espancado violentamente pelo pai, encaminhado ao Conselho Tutelar, este colocou a criança em uma casa abrigo, separado do núcleo familiar, começou a apresentar fobias, escondia-se, trancava-se em armários, não dormia. A psiquiatra do abrigo diagnosticou TDH, TOD (transtorno de oposição desafiador), medicação: Ritalina. Com o passar do tempo, Felipe tinha melhoras comportamentais, a psiquiatra diminuía ou aumentava a dose do medicamento conforme o relato que as monitoras lhe traziam. Identificam que a criança piora cada vez que um “amiguinho” sai do abrigo para adoção, relato de uma monitora: - acredito que a agressividade pela saída do colega. Numa tentativa, deixaram Felipe sem medicação, foi posto para adoção, um casal vai visitá-lo e com freqüência saem para passear, um dia levam Felipe para casa, lá encontra o filho deste casal, como não sabia da existência deste, acontece um conflito e as crianças brigam, Felipe se esconde na garagem, e lá começa a gritar, amassa os carros. A avó da criança (que criava a criança desde bebe) fala ao casal que não admite a adoção, Felipe é então devolvido ao abrigo, e nunca mais tem contato com eles.
Crianças espancadas, vitimas de maus tratos estão recebendo diagnósticos de que “eles” tem problemas, ninguém vê ou fala da violência a que são expostos, a criança é que é doente.
Dos 150 atendidos pelo programa, 127 tomam drogas psicoativas, 63 com doses crescente, 18 haviam tomado por mais de metade da vida.
É de vidas que estamos falando, precisamos dizer não, não precisamos desrespeitar as regras para mudar, vivemos a diversidade, somos diferentes e temos diferentes modos de ser, reagir, agir, não somos iguais, porém a sociedade nos quer uniformizados, padronizados, e, os que não se submetem, são medicados quimicamente, são sujeitos destituídos de seus corpos. O corpo de Felipe é um corpo doente.
Nós nos deixamos cooptar, ou nos colocamos em defesa da vida?
É preciso olhar para dentro e manifestar o nosso melhor!
Como introdução, foi usada parte do texto de Contardo Calligaris, postado em seu blog no dia 09/09/2010 e a seguir o resumo da palestra de Maria Aparecida Affonso Moysés, proferida no dia 13/11/2010 no I Seminário Internacional sobre a Educação Medicalizada.
Diante do exposto, entende-se que a educação já tão fragilizada pelos descaminhos políticos, sofre também a influência do lobby dos grandes laboratórios farmacêuticos, que patrocinam cursos e seminários aos professores, instrumentalizando-os a identificarem/diagnosticarem supostos transtornos de aprendizagem, numa leitura rasa, empírica, sem embasamento teórico profundo. Justificando deste modo uma, das várias razões, para o fracasso escolar.
O aluno não é mal alfabetizado, o aluno não sabe ler ou escrever corretamente, porque teve má formação escolar, o aluno não aprende porque tem “transtorno de aprendizagem” ou é portador de TDAH, ou dislexia.
O problema é do aluno, não da escola, e por tal situação, é encaminhado ao médico que embasará o suposto diagnóstico da professora, ganhando desta forma mais um “rótulo” e uma receita médica, que o fará produzir, render mais, na escola, demonstrando maior atenção e obediência – “Os critérios usados, não são critérios de doenças, mas de normas sociais, hoje o que existe, são critérios para rótulos, onde criança mal educada é sinônimo de cliente.” –
Entendemos a necessidade da medicalização quando há problema de fato, o que nos traz o I Seminário sobre Educação Medicalizada, é o excesso de medicalização, o crescente uso indiscriminado de determinadas drogas, que mais possuem efeitos colaterais, do que efeitos terapêuticos, tornando assim “natural” o “anti-natural” que é medicalizar crianças e/ou adolescentes sem doenças reais, comprovadas cientificamente.
Vivemos em uma sociedade onde a vida foi banalizada, a violência crescente nos grandes centros urbanos ceifa jovens, que morrem por motivos fúteis, ou tornam-se “zumbis” vítimas da drogadição ilegal, como se isso já não bastasse para idiotizar a infância e a juventude, o professorado e a classe médica também resolveram colaborar, com maior ênfase, para a crescente sociedade “zumbilândia”, prescrevendo a “droga da obediência – Ritalina”. (O Mundo mudou, mas as crianças continuam sendo crianças, os professores reclamam dos alunos, mas não ensinam, na escola se os alunos não tem “desempenho normal“, chama-se um especialista, que diagnostica: dislexia, TDAH, ou outros supostos transtornos (como verdade absoluta), tirando a responsabilidade do professor, ou da família. Cada vez menos a gente se responsabiliza pela vida, e, delegar aos especialistas nos redime de culpa, pois “estamos fazendo a nossa parte” – Rosely Sayão (Em palestra proferida no I Seminário Internacional de Educação Medicalizada 11/11/2010).
Bella Lugosi ( O mais jovem dos quatro filhos de um banqueiro, Bela Lugosi começou a sua carreira nos palcos da Europa em várias peças de William Shakespeare. Mas no entanto tornou-se famoso pelo seu papel de Drácula numa encenação da clássica história de vampiro de Bram Stoker, e teve como especialidade os filmes de horror. Bela Lugosi fugiu de casa com 11 anos, abandonou a escola e engajou-se no trabalho de mineração. Na adolescência começou a atuar em pequenas companhias teatrais. O caminho mais comum o guiou do teatro para o cinema mudo húngaro, atuando com o nome artístico de Arisztid Olt. Porém, teve que interromper seu início de atividades no cinema graças à Primeira Guerra Mundial. Há boatos de que ele tenha sido ferido três vezes, assim causando sua futura dependência em morfina para aliviar as dores que seguiram por sua vida inteira. Há também uma versão que diz que ele conseguiu ser liberado do serviço se passando por louco.) Wikipédia. -- foi o primeiro ator a protagonizar Drácula, e o visual do conde, por ele criado, foi reproduzido em uma enorme variedade de filmes hollywoodianos. Atualmente o visual de Bella Lugosi, é tido como “trash”, pois os vampiros eram considerados “do mal”, criaturas das trevas, desprovidos de alma, que sugavam o sangue, roubavam almas de suas vítimas, hoje os vampiros são “do bem”, galãs que amam intensamente, sofrem por estes amores, punem-se por causar sofrimentos, e lutam contra os que persistem em causar mal à humanidade, (saga Crepúsculo). Na animação infantil Monstros S.A o “bicho papão” tem a função de assustar crianças, ganha por produção de choros e gritos (fonte de energia), o que sustenta sua sociedade, porém o protagonista acaba sendo seduzido pela docilidade de uma criança e os valores sociais da cidade dos monstros acabam por ser invertidos, a produção de energia tem agora como fonte, risos e gargalhadas.
Na política a palavra de ordem é “flexibilizar” os partidos de direita e de esquerda perderam seus papéis antagônicos, passando a “naturalizar” o errado, a corrupção, com palavras bonitas, justificativas aparentemente lógicas, causando entorpecimento nas pessoas que não sabem mais “como pensar” (Frente a isso, um outro termo usado pelo autor – derretimento – será empregado para designar a desintegração desse discurso sólido e fixo já em vias de enferrujamento dos compostos institucionalizados. Agora, nessa nova modernidade maleável, para Bauman o que vigora é a ascensão de um objetivo individual, em declínio dessas instituições, analogamente, sólidas e tradicionalistas. Essa mudança de parâmetros teria provocado, então, uma quebra dos moldes, as molduras de classe, etnia, linhagem etc., alguns dos já históricos pontos de orientação. Esses padrões já não estigmatizam o indivíduo, pelo contrário, seria do indivíduo que partiria, se chocando com os multifacetados novos padrões, cada vez mais micros, de convívio social e, por isso, com sucinta fluidez, normas que vão e estão se maleando em curtíssimo espaço de tempo. A modernidade da fusão social pela solidificação individual: Modernidade Líquida, (de Zygmunt Bauman) Luciano Vieira Francisco. São tantas informações, que a contemporaneidade nos impõe, num ritmo frenético, nos causando a ilusão da obrigatoriedade de sermos politicamente corretos, sempre jovens, antenados, plugados (instalou-se no mundo, do educador formal e informal que valoriza somente a juventude, o estilo de vida, onde todos somos jovens, abolindo a infância e a velhice, vivendo em um tempo que é obrigatório “ser feliz”, sem problemas ou tarefas árduas, sem responsabilidades e comprometimento, apenas consumir a imagem da “ família margarina “, e para tal, delegamos, terceirizamos a educação de nossos filhos. Rosely Sayão). Estes valores extensivos à família, à sociedade e às instituições é preocupante no sentido de que estamos supervalorizando valores que nos são impostos, para podermos ser aceitos, tidos como inteligentes. Valores estes que nos induzem ao consumismo exagerado, desde potes de margarina (contendo Omega 3, claro, pois faz bem à saúde) até o uso indiscriminado de medicamentos, pois são distribuídos catálogos com ofertas de remédios, assim como ofertas de alimentos nos supermercados, e as pessoas compram/consomem, mesmo sem necessidade.
Nesse sentido estamos produzindo uma sociedade fundamentalista, refém de idéias produzidas pela mídia, onde a telenovela dita regras e normas de condutas? Onde ficam, as autonomias, as liberdades de expressão, o livre pensamento? (Nessa aparente e sedutora emancipação, Bauman questiona a liberdade como real objetivo almejado, cravando o leitor com uma revelação formulada como indagação: “A libertação é uma bênção ou uma maldição? Uma maldição disfarçada de bênção, ou uma bênção temida como maldição?” (BAUMAN, 2001, p. 26). Embasado por seu estudo, ele mesmo responde: “A verdade que torna os homens livres é, na maioria dos casos, a verdade que os homens preferem não ouvir” (BAUMAN, 2001, p. 26). Desse modo, as idéias tradicionais de revolução e mudança nesta sociedade já estão póstumas porque os reacionários já não estão mais conosco, o mundo fluído não permite a “tradicionalidade ideológica” com suas táticas pré-determinadas e solidificadas. Mas esse não é um comportamento escancarado, na verdade, o maior problema da atual sociedade está justamente nesta ausência de se auto-questionar e se posicionar, ela prefere não tentar se reconhecer e sente-se absolvida a cada justificativa em seu senso comum e/ou acadêmico, o que causa certa intransigência a novas questões, principalmente se estas tiverem força suficiente para por em juízo o modelo vigente) Luciano Vieira Francisco.
Nunca o que esta posto deixa a todos satisfeitos, bem como não é fácil se expor nesta sociedade pós-moderna, tão exigente de perfeição, onde o público e o privado se confundem, tornando a todos nós confusos. A família, refém destes valores agrega experiências que não são suas, tomam para si um discurso imposto, cristalizando preconceitos como verdades. (Nessa perspectiva de pós-modernidade, a família na atualidade acena para identidades contraditórias, para a pluralidade de centros de poder, e o sujeito com problemas de aprendizagem apresenta-se como parte desta dinâmica de diversidade e diferenciação.) Família, psicopedagogia e Pós-Modernidade, Elisa Pitombo – Instituto Sedes Sapientiae.
Em um mundo tão plural, como aqui, amplamente justificado, de pessoas plurais, com suas singularidades, acredito ser a medicalização um mal necessário em casos de doenças comprovadas, existindo a necessidade real de tratamentos terapêuticos para os portadores de algum tipo de transtorno de aprendizagem, porém de forma criteriosa, cuidadosa, com diagnósticos assertivos multidisciplinares, e umas posturas clínicas científica, investigativas, com escuta atenta à criança/e ou, adolescente e à família, percebendo todo o entorno social, e a subjetividade dos envolvidos, intervindo na intersubjetividade, com ações conscientes, pertinentes e objetivas.
“Nós vos pedimos com insistência: Não digam nunca: isso é natural !
Diante dos acontecimentos de cada dia, numa época em que reina a
Confusão, em que corre sangue,
Em que o arbítrio tem força de lei,
Em que a humanidade se desumaniza,
Não digam nunca:
Isso é natural !
Para que nada passe a ser imutável” Bertold Brecht
Bibliografia:
Pitombo, Elisa Maria (Instituto Sedes Sapientiae) - Família, psicopedagogia e pós-modernidade – Instituto Sedes Sapientiae - Cadernos de Psicopedagogia http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1676-492007000100006&script=sci_arttext
Francisco, Luciano Vieira - A modernidade da fusão social pela solidificação individual: Modernidade Líquida, de Zygmunt Bauman http://www.klepsidra.net/klepsidra23/modernidade.htm
I Seminário Internacional, a Educação medicalizada: Dislexia, TDAH e outros supostos transtornos, dias: 11, 12 e 13 de novembro de 2010. Evento do CRP, ocorrido no auditório da UNIP – Campus Vergueiro.
Autora: Carmem Fidalgo
Psicopedagoga
I Seminário Internacional – A Educação Medicalizada:
Dislexia, TDAH, e outros supostos transtornos.
Para os psicanalistas, essa situação é familiar. Freud recomendava que os pacientes fossem escutados com "atenção flutuante". Ele não sugeria que, durante a sessão, os analistas lessem o jornal ou cuidassem de seus e-mails.
Mas acontece que interpretar significa juntar dois pensamentos que, à primeira vista, não parecem ter muito a ver um com o outro. Para que isso aconteça, é preciso manter aberta a porta da divagação, de modo que pensamentos estrangeiros ao contexto não sejam barrados por princípio.
O diagnóstico médico e a escuta psicanalítica são processos que exigem um exercício criativo, se não inventivo. Neles, pode ser bem-vindo, AO MESMO TEMPO, divagar (ou mesmo devanear) e seguir os caminhos focados do pensamento que executa uma tarefa.
Nos anos 60, o metilfenidato (um estimulante) começou a ser usado para tratar o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) em crianças em idade escolar. De 60 a 90, o diagnóstico de TDAH aumentou brutalmente: nos EUA, por exemplo, de 12 crianças em cada mil nos anos 70, chegou-se a 34 em cada mil nos anos 90.
Seja qual for a realidade neurológica e psicológica do TDAH e seja qual for a eficácia do seu tratamento com metilfenidato, é difícil não constatar que a epidemia tem também uma explicação cultural.
Sua história começa logo nos anos 60, uma época em que divagar (perder-se no pensamento e pelo mundo) era um valor positivo da contracultura. Desde então, voltamos a prezar o olhar focado do predador. O ápice dessa reação (e do diagnóstico de TDAH) foi a religião do sucesso dos anos 90.
Ora, começam a aparecer pesquisas que revalorizam a divagação e o devaneio. "Descobrimos" o que já sabíamos: há uma desatenção sem a qual não se consegue pensar nada que valha a pena.
Usando apenas o dito "controle executivo" focado, conseguiremos cumprir tarefas adequadamente (mesmo assim, à condição que não haja imprevistos), mas não inventaremos nada. A própria invenção científica (não só a criação artística) pede um uso simultâneo de controle executivo e divagação.
A segunda documenta (por ressonância magnética funcional) a cooperação possível de pensamento focado e devaneio (que ainda são, por muitos, considerados como atividades exclusivas uma da outra).
À luz dessas pesquisas, seria bom reavaliar nossa hipervalorização da atenção focada e, sobretudo, nossa medicalização sistemática de crianças que, às vezes, com toda razão, gostam de sonhar de olhos abertos. Contardo Calligaris 09/09/2010
Medicalização da Educação: Conseqüências para a criança e para o adolescente
Resumo da Palestra de: Maria Aparecida Affonso Moysés – Médica Pediatra – Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP – autora do livro: A institucionalização invisível e outros.
Existem pessoas que tem doenças reais, que podem dificultar a aprendizagem, mas também existem infinitos modos de aprender, pessoas sentem, agem, são tranqüilas, explosivas, etc, e nem por isso são doentes. O extremo reflete as possibilidades deste infinito. Quais as evidências científicas que existem, comprovando doenças como TDAH, dislexia? Não negamos doenças, e diferentes modos de aprender. Existem conflitos de interesse, conflitos com a ética, com o ser humano.
Categorias Teóricas: TDH, TDAH, TOD, Dislexia – Não pertencem à esfera da ciência.
Doenças neurológicas podem provocar muitas seqüelas, inclusive na aprendizagem. Em 1.896 o texto de um oftalmologista inglês, questiona a cegueira verbal, e coloca que crianças que não aprendem podiam ter estas cegueiras verbais, à qual foi dado o nome de: dislexia. Em 1.962 foi classificada como disfunção cerebral mínima, específica porque compromete a escrita e desaparece com a idade. Atualmente com exames de neuroimagem, captam diferenças de fluxo sanguíneo metabolizados pelas células, alterações temporais, frontais, parentais e cerebelo, que auxiliam no diagnóstico, (maiores dados: ABD, Associação Brasileira de Dislexia, 8º Simpósio Internacional de Dislexia) http://www.dislexia.org.br/ - Os exames são feitos com ativação do cérebro, textos para ler, pseudo palavras, palavras escritas. Como diferenciar de analfabetos? Quando o cérebro aprende mudam os resultados, causa de não saber ler, ou porque o cérebro aprendeu? Quando há muita explicação e disputa, se esta muito longe do real.
Ler não é enxergar, é uma tarefa cognitiva e mexe com as emoções, exemplo: um texto em árabe, para quem não sabe ler árabe, no exame acusará dislexia, pessoas tem comportamentos diferentes e o exame será alterado. Em 1.998 há um consenso americano, com base em evidências.
É necessária reflexão, preconceitos são formas cristalizadas, negações do real, são imutáveis, estão na esfera da fé, e não da razão, é empírico, portanto, não é mundo da ciência.
Em seus estudos Foucault, constata que, quem inicia a medicina é a ciência médica, e a medicina se autoconstitui como ciência, atribuindo ao corpo normatizações, o que é normal e o que é doença, fazem com a lógica da biologia.
Na biologia há vida, comunicação, biologizar estreita, não há vida, não tem contexto, não tem história, são processos da medicina.
O mundo é dos homens, a história social é mutável, nós construímos o mundo, constituímos a linguagem, constituímos a nossa subjetividade, na medicina a subjetividade é deletada, é preciso não nos biologizar, corpos sem vida, submetidos. Preconceitos são tidos como verdades absolutas, não se substituem, se acumulam. Em tempos não muito remotos, as crianças da classe trabalhadora, eram tidas como crianças que não aprendiam, não se alimentavam bem, tinham piolhos “eu nunca vi piolho comer neurônio” - Não estamos aqui só no campo dos preconceitos, mas no campo do controle social, dos interesses econômicos.
Os processos de medicina omitem ou distorcem os dados reais, dizem que metilfenidatos/anfetaminas são drogas seguras e eficazes, porém o principio ativo é o mesmo da cocaína , aumenta a dopamina (sensação de bem-estar), mas, ainda assim é um químico, perde-se a sensibilidade da vida, ficam em outra esfera, provocam artificialmente a sensação de bem-estar, a vida sexual – nada.
Quando se tira a Ritalina, os neurônios estão encharcados de dopamina, o que aumenta o uso de cocaína, cerca de 30 a 50%, das crianças, hoje adolescentes, estão em clínicas de drogaditos, porque a Ritalina é fácil de se encontrar, barata e os médicos dizem que é uma droga segura. Pesquisas mostram o uso em estudantes, para potencializar o aprendizado, mas as reações adversas são fortes: psicose, sonolência, tontura, suicídio, viram “zumbis” contidos em si mesmos. Deve-se fazer exames de sangue periodicamente, pois compromete as células sanguíneas, causa anemia profunda, coma hepática irreversível, doenças coronárias e morte súbita
A Ritalina foca a atenção – mas... Para que focar a atenção? Se a criança não presta atenção, às vezes o assunto não é interessante. Remédios são dados rotineiramente, quando medicalizada, a criança, se desconstrói direitos à vida, e, sociais. Diagnóstico/drogas – refém da doença iatrogênicamente (doutrina médica reinante, no século XVI, que pretendia explicar todos os fenômenos da economia animal pela química rudimentar da época.) fonte: dicionário Aurélio.
Todos devem ter acesso a educações laicas, gratuitas – Que interesses defendem a medicalização? A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo ministrou um curso para professores diagnosticarem TDH, TDAH, dislexia, e outros distúrbios/transtornos de aprendizagem, que foi patrocinado pela NOVARTIS (Laboratório Farmacêutico) – onde ficam os professores comprometidos pela educação de qualidade? - Existe um projeto que obriga as escolas a contratar profissionais para avaliar quem tem dislexia e tratar na escola.
Medicamento como o metilfenidato jamais devem ser dados, não há efeito terapêutico potencial, o medicamento pode ajudar como muleta. Existem famílias aprisionadas pelo diagnóstico, os pais, em sua maioria, se apegam à possibilidade de uma vida melhor para seus filhos, contexto histórico de várias consultas, se agarram às possibilidades, se apegam ao diagnóstico, e ali, ficam reféns. É preciso que a criança e a família se apropriem do processo da normalidade, é preciso tornar as avaliações menos herméticas, é preciso embasamento científico, alguns questionários para detecção de TDAH, beiram ao ridículo, com questões absurdas, tais como: é esquecido em atividades do dia-a-dia? ; Não consegue se envolver em atividades de forma calma? –- QUEM ESPERA QUE CRIANÇAS BRINQUEM DE FORMAS CALMAS? Os critérios usados, não são critérios de doença, mas de normas sociais, hoje o que existe, são critérios para rótulos, onde, criança mal educada é SINÔNIMO de cliente. Citando o texto: Os vendedores de doença e o livro: Bioética como novo paradigma - Um Novo Modelo Biomédico e Biotecnológico - Marcelo Pelizzoli – Pois criar problemas que levam a tomar remédios, é controle social.
A medicalização é uma nova forma de controle social, cita o texto de Basaglia, um novo modo de vigiar e punir, e Foucault discutem as instituições (onde loucos e criminosos eram colocados na mesma categoria), e a sociedade de controle sem necessidades de paredes, onde os seres são refém do fracasso.
No Hospital das Clínicas do Paraná existe um programa chamado: DEDICA (atua especificamente com crianças vítimas de violência física e psicológica) http://www.hc.ufpr.br/dedica/ em que crianças são encaminhadas ao serviço de saúde, com dificuldades de aprendizagem, TDAH, drogas, etc.
Narra a história de Felipe, 6 anos, joga muito bem no computador, brinca, pula e corre, como uma criança saudável. Aos dois anos de idade, foi visitar, (acompanhado pelos pais) os irmãos adolescentes que se encontravam em um abrigo para menores, pois eram drogaditos e eram espancados pelos pais. Durante a visita Felipe foi espancado violentamente pelo pai, encaminhado ao Conselho Tutelar, este colocou a criança em uma casa abrigo, separado do núcleo familiar, começou a apresentar fobias, escondia-se, trancava-se em armários, não dormia. A psiquiatra do abrigo diagnosticou TDH, TOD (transtorno de oposição desafiador), medicação: Ritalina. Com o passar do tempo, Felipe tinha melhoras comportamentais, a psiquiatra diminuía ou aumentava a dose do medicamento conforme o relato que as monitoras lhe traziam. Identificam que a criança piora cada vez que um “amiguinho” sai do abrigo para adoção, relato de uma monitora: - acredito que a agressividade pela saída do colega. Numa tentativa, deixaram Felipe sem medicação, foi posto para adoção, um casal vai visitá-lo e com freqüência saem para passear, um dia levam Felipe para casa, lá encontra o filho deste casal, como não sabia da existência deste, acontece um conflito e as crianças brigam, Felipe se esconde na garagem, e lá começa a gritar, amassa os carros. A avó da criança (que criava a criança desde bebe) fala ao casal que não admite a adoção, Felipe é então devolvido ao abrigo, e nunca mais tem contato com eles.
Crianças espancadas, vitimas de maus tratos estão recebendo diagnósticos de que “eles” tem problemas, ninguém vê ou fala da violência a que são expostos, a criança é que é doente.
Dos 150 atendidos pelo programa, 127 tomam drogas psicoativas, 63 com doses crescente, 18 haviam tomado por mais de metade da vida.
É de vidas que estamos falando, precisamos dizer não, não precisamos desrespeitar as regras para mudar, vivemos a diversidade, somos diferentes e temos diferentes modos de ser, reagir, agir, não somos iguais, porém a sociedade nos quer uniformizados, padronizados, e, os que não se submetem, são medicados quimicamente, são sujeitos destituídos de seus corpos. O corpo de Felipe é um corpo doente.
Nós nos deixamos cooptar, ou nos colocamos em defesa da vida?
É preciso olhar para dentro e manifestar o nosso melhor!
Como introdução, foi usada parte do texto de Contardo Calligaris, postado em seu blog no dia 09/09/2010 e a seguir o resumo da palestra de Maria Aparecida Affonso Moysés, proferida no dia 13/11/2010 no I Seminário Internacional sobre a Educação Medicalizada.
Diante do exposto, entende-se que a educação já tão fragilizada pelos descaminhos políticos, sofre também a influência do lobby dos grandes laboratórios farmacêuticos, que patrocinam cursos e seminários aos professores, instrumentalizando-os a identificarem/diagnosticarem supostos transtornos de aprendizagem, numa leitura rasa, empírica, sem embasamento teórico profundo. Justificando deste modo uma, das várias razões, para o fracasso escolar.
O aluno não é mal alfabetizado, o aluno não sabe ler ou escrever corretamente, porque teve má formação escolar, o aluno não aprende porque tem “transtorno de aprendizagem” ou é portador de TDAH, ou dislexia.
O problema é do aluno, não da escola, e por tal situação, é encaminhado ao médico que embasará o suposto diagnóstico da professora, ganhando desta forma mais um “rótulo” e uma receita médica, que o fará produzir, render mais, na escola, demonstrando maior atenção e obediência – “Os critérios usados, não são critérios de doenças, mas de normas sociais, hoje o que existe, são critérios para rótulos, onde criança mal educada é sinônimo de cliente.” –
Entendemos a necessidade da medicalização quando há problema de fato, o que nos traz o I Seminário sobre Educação Medicalizada, é o excesso de medicalização, o crescente uso indiscriminado de determinadas drogas, que mais possuem efeitos colaterais, do que efeitos terapêuticos, tornando assim “natural” o “anti-natural” que é medicalizar crianças e/ou adolescentes sem doenças reais, comprovadas cientificamente.
Vivemos em uma sociedade onde a vida foi banalizada, a violência crescente nos grandes centros urbanos ceifa jovens, que morrem por motivos fúteis, ou tornam-se “zumbis” vítimas da drogadição ilegal, como se isso já não bastasse para idiotizar a infância e a juventude, o professorado e a classe médica também resolveram colaborar, com maior ênfase, para a crescente sociedade “zumbilândia”, prescrevendo a “droga da obediência – Ritalina”. (O Mundo mudou, mas as crianças continuam sendo crianças, os professores reclamam dos alunos, mas não ensinam, na escola se os alunos não tem “desempenho normal“, chama-se um especialista, que diagnostica: dislexia, TDAH, ou outros supostos transtornos (como verdade absoluta), tirando a responsabilidade do professor, ou da família. Cada vez menos a gente se responsabiliza pela vida, e, delegar aos especialistas nos redime de culpa, pois “estamos fazendo a nossa parte” – Rosely Sayão (Em palestra proferida no I Seminário Internacional de Educação Medicalizada 11/11/2010).
Bella Lugosi ( O mais jovem dos quatro filhos de um banqueiro, Bela Lugosi começou a sua carreira nos palcos da Europa em várias peças de William Shakespeare. Mas no entanto tornou-se famoso pelo seu papel de Drácula numa encenação da clássica história de vampiro de Bram Stoker, e teve como especialidade os filmes de horror. Bela Lugosi fugiu de casa com 11 anos, abandonou a escola e engajou-se no trabalho de mineração. Na adolescência começou a atuar em pequenas companhias teatrais. O caminho mais comum o guiou do teatro para o cinema mudo húngaro, atuando com o nome artístico de Arisztid Olt. Porém, teve que interromper seu início de atividades no cinema graças à Primeira Guerra Mundial. Há boatos de que ele tenha sido ferido três vezes, assim causando sua futura dependência em morfina para aliviar as dores que seguiram por sua vida inteira. Há também uma versão que diz que ele conseguiu ser liberado do serviço se passando por louco.) Wikipédia. -- foi o primeiro ator a protagonizar Drácula, e o visual do conde, por ele criado, foi reproduzido em uma enorme variedade de filmes hollywoodianos. Atualmente o visual de Bella Lugosi, é tido como “trash”, pois os vampiros eram considerados “do mal”, criaturas das trevas, desprovidos de alma, que sugavam o sangue, roubavam almas de suas vítimas, hoje os vampiros são “do bem”, galãs que amam intensamente, sofrem por estes amores, punem-se por causar sofrimentos, e lutam contra os que persistem em causar mal à humanidade, (saga Crepúsculo). Na animação infantil Monstros S.A o “bicho papão” tem a função de assustar crianças, ganha por produção de choros e gritos (fonte de energia), o que sustenta sua sociedade, porém o protagonista acaba sendo seduzido pela docilidade de uma criança e os valores sociais da cidade dos monstros acabam por ser invertidos, a produção de energia tem agora como fonte, risos e gargalhadas.
Na política a palavra de ordem é “flexibilizar” os partidos de direita e de esquerda perderam seus papéis antagônicos, passando a “naturalizar” o errado, a corrupção, com palavras bonitas, justificativas aparentemente lógicas, causando entorpecimento nas pessoas que não sabem mais “como pensar” (Frente a isso, um outro termo usado pelo autor – derretimento – será empregado para designar a desintegração desse discurso sólido e fixo já em vias de enferrujamento dos compostos institucionalizados. Agora, nessa nova modernidade maleável, para Bauman o que vigora é a ascensão de um objetivo individual, em declínio dessas instituições, analogamente, sólidas e tradicionalistas. Essa mudança de parâmetros teria provocado, então, uma quebra dos moldes, as molduras de classe, etnia, linhagem etc., alguns dos já históricos pontos de orientação. Esses padrões já não estigmatizam o indivíduo, pelo contrário, seria do indivíduo que partiria, se chocando com os multifacetados novos padrões, cada vez mais micros, de convívio social e, por isso, com sucinta fluidez, normas que vão e estão se maleando em curtíssimo espaço de tempo. A modernidade da fusão social pela solidificação individual: Modernidade Líquida, (de Zygmunt Bauman) Luciano Vieira Francisco. São tantas informações, que a contemporaneidade nos impõe, num ritmo frenético, nos causando a ilusão da obrigatoriedade de sermos politicamente corretos, sempre jovens, antenados, plugados (instalou-se no mundo, do educador formal e informal que valoriza somente a juventude, o estilo de vida, onde todos somos jovens, abolindo a infância e a velhice, vivendo em um tempo que é obrigatório “ser feliz”, sem problemas ou tarefas árduas, sem responsabilidades e comprometimento, apenas consumir a imagem da “ família margarina “, e para tal, delegamos, terceirizamos a educação de nossos filhos. Rosely Sayão). Estes valores extensivos à família, à sociedade e às instituições é preocupante no sentido de que estamos supervalorizando valores que nos são impostos, para podermos ser aceitos, tidos como inteligentes. Valores estes que nos induzem ao consumismo exagerado, desde potes de margarina (contendo Omega 3, claro, pois faz bem à saúde) até o uso indiscriminado de medicamentos, pois são distribuídos catálogos com ofertas de remédios, assim como ofertas de alimentos nos supermercados, e as pessoas compram/consomem, mesmo sem necessidade.
Nesse sentido estamos produzindo uma sociedade fundamentalista, refém de idéias produzidas pela mídia, onde a telenovela dita regras e normas de condutas? Onde ficam, as autonomias, as liberdades de expressão, o livre pensamento? (Nessa aparente e sedutora emancipação, Bauman questiona a liberdade como real objetivo almejado, cravando o leitor com uma revelação formulada como indagação: “A libertação é uma bênção ou uma maldição? Uma maldição disfarçada de bênção, ou uma bênção temida como maldição?” (BAUMAN, 2001, p. 26). Embasado por seu estudo, ele mesmo responde: “A verdade que torna os homens livres é, na maioria dos casos, a verdade que os homens preferem não ouvir” (BAUMAN, 2001, p. 26). Desse modo, as idéias tradicionais de revolução e mudança nesta sociedade já estão póstumas porque os reacionários já não estão mais conosco, o mundo fluído não permite a “tradicionalidade ideológica” com suas táticas pré-determinadas e solidificadas. Mas esse não é um comportamento escancarado, na verdade, o maior problema da atual sociedade está justamente nesta ausência de se auto-questionar e se posicionar, ela prefere não tentar se reconhecer e sente-se absolvida a cada justificativa em seu senso comum e/ou acadêmico, o que causa certa intransigência a novas questões, principalmente se estas tiverem força suficiente para por em juízo o modelo vigente) Luciano Vieira Francisco.
Nunca o que esta posto deixa a todos satisfeitos, bem como não é fácil se expor nesta sociedade pós-moderna, tão exigente de perfeição, onde o público e o privado se confundem, tornando a todos nós confusos. A família, refém destes valores agrega experiências que não são suas, tomam para si um discurso imposto, cristalizando preconceitos como verdades. (Nessa perspectiva de pós-modernidade, a família na atualidade acena para identidades contraditórias, para a pluralidade de centros de poder, e o sujeito com problemas de aprendizagem apresenta-se como parte desta dinâmica de diversidade e diferenciação.) Família, psicopedagogia e Pós-Modernidade, Elisa Pitombo – Instituto Sedes Sapientiae.
Em um mundo tão plural, como aqui, amplamente justificado, de pessoas plurais, com suas singularidades, acredito ser a medicalização um mal necessário em casos de doenças comprovadas, existindo a necessidade real de tratamentos terapêuticos para os portadores de algum tipo de transtorno de aprendizagem, porém de forma criteriosa, cuidadosa, com diagnósticos assertivos multidisciplinares, e umas posturas clínicas científica, investigativas, com escuta atenta à criança/e ou, adolescente e à família, percebendo todo o entorno social, e a subjetividade dos envolvidos, intervindo na intersubjetividade, com ações conscientes, pertinentes e objetivas.
“Nós vos pedimos com insistência: Não digam nunca: isso é natural !
Diante dos acontecimentos de cada dia, numa época em que reina a
Confusão, em que corre sangue,
Em que o arbítrio tem força de lei,
Em que a humanidade se desumaniza,
Não digam nunca:
Isso é natural !
Para que nada passe a ser imutável” Bertold Brecht
Bibliografia:
Pitombo, Elisa Maria (Instituto Sedes Sapientiae) - Família, psicopedagogia e pós-modernidade – Instituto Sedes Sapientiae - Cadernos de Psicopedagogia http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1676-492007000100006&script=sci_arttext
Francisco, Luciano Vieira - A modernidade da fusão social pela solidificação individual: Modernidade Líquida, de Zygmunt Bauman http://www.klepsidra.net/klepsidra23/modernidade.htm
I Seminário Internacional, a Educação medicalizada: Dislexia, TDAH e outros supostos transtornos, dias: 11, 12 e 13 de novembro de 2010. Evento do CRP, ocorrido no auditório da UNIP – Campus Vergueiro.
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