segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A difícil arte de amar

"A Difícil Arte de Amar"

A Limitação do Conhecimento entre o Homem e a Mulher

Uma Interpretação da Psicologia Simbólica Junguiana

Heidegger nos ensina que, para pensar ontologicamente, o ser humano necessita tematizar os problemas. A tematização da identidade do homem e da mulher é uma ocupação que se perde na origem dos tempos, mas o aprofundamento do seu estudo faz parte de várias ciências humanas na modernidade. Continuando esse estudo, quero aqui enfatizar que, apesar de muitos acharem esse tema resolvido com o rótulo simplório “homens são de Marte e mulheres são de Vênus”, ele é muito mais complexo do que aparenta e está ainda no seu início. Sua importância é devida à polaridade biológica e emocional homem-mulher ser das mais importantes na vida da espécie e ao fato de elaestar muito deformada e em grande parte fixada na Sombra.

Da mesma forma que muitos de nós ainda acreditamos na imobilidade da Terra e, por isso, temos dificuldade em imaginar a descoberta heliocêntrica de Copérnico, também achamos que sabemos como é o homem e a mulher, porque, afinal... já nos conhecemos há bem mais de cem mil anos, não é?

A Formação da Identidade e da Sombra

A identidade das coisas na Consciência não se forma diretamente pelas vivências. A identidade se cria e se organiza com a formação da polaridade Ego e não-Ego, ou seja, da polaridade Ego-Outro. Vou descobrindo quem eu sou, junto com a descoberta de quem eu não sou. A identidade do Ego e do Outro emerge da indiferenciação psíquica original pela elaboração dos símbolos e das funções estruturantes coordenada pelos arquétipos a partir das vivências.

A elaboração simbólica começa com a atenção do Self focada em um símbolo que está na posição indiferenciada do Arquétipo Central. Ela continua pela coordenação do Arquétipo Matriarcal por meio da posição insular e, posteriormente, pelo Arquétipo Patriarcal, com sua posição polarizada, a qual é seguida pela coordenação do Arquétipo da Alteridade por meio da posição dialética (Byington, 2008).

A elaboração simbólica tem início na posição insular matriarcal por intermédio da função estruturante da imitação, que pode ser sintônica (semelhante) ou distônica (reativa), e se aperfeiçoa, na posição polarizada patriarcal, por tantas repetições quanto forem necessárias das funções estruturantes da introjeção e da projeção. A elaboração na posição dialética da alteridade continua a ser feita pelas repetições seguidas das funções estruturantes da introjeção e da projeção, que vão, paulatinamente, aperfeiçoando a identidade do Ego e do não-Ego, ou seja, do Outro.

De acordo com a Psicologia Simbólica Junguiana, o Arquétipo Matriarcal, da sensualidade, e o Arquétipo Patriarcal, da organização, englobam o masculino e o feminino, ou seja, estão presentes na psique tanto do homem quanto da mulher. Ao considerar o matriarcal igual ao feminino, e o patriarcal igual ao masculino, a cultura em geral e a psicologia em particular projetaram defensiva e redutivamente no masculino e no feminino os papéis históricos vivenciados pelo homem e pela mulher durante os mais de 10.000 anos de dominância patriarcal.

Quando ocorre um distúrbio da elaboração simbólica, a polaridade Ego-Outro fica deformada. Suas características não se diferenciam corretamente e a identidade dos dois fica misturada e comprometida. O distúrbio da elaboração é a principal origem da fixação que forma a Sombra, ou seja, o pecado, o crime, o mal e toda a psicopatologia (Byington, 2008).

Devido à sua complexidade e às circunstâncias da vida, a elaboração da identidade e da relação homem-mulher foi se deformando com o tempo e passou a apresentar fixações e defesas tanto na dimensão matriarcal quanto na patriarcal e, também, na alteridade, que inclui os Arquétipos da Anima e do Animus.

Pelo fato de a elaboração simbólica somente realizar o seu potencial pleno dentro da posição dialética de alteridade, é de fundamental importância elaborar as fixações da relação homem-mulher na dimensão matriarcal, depois na dimensão patriarcal e, finalmente, na própria dimensão de alteridade. Precisamos compreender, então, que a função estruturante do amor só pode ser profundamente elaborada e vivenciada quando o homem e a mulher se tornam capazes de se conhecer ao exercerem plenamente a posição dialética, que inclui os Arquétipos da Alteridade, da Anima e do Animus. Essa elaboração é inseparável da liberdade, da consideração mútua e dos direitos iguais para o desenvolvimento do homem e da mulher como companheiros no processo de individuação de cada um.

As Principais Disfunções da Polaridade Homem-Mulher na Dimensão Insular Matriarcal

O assentamento dos povos deu origem à formação das aldeias, das vilas e das cidades-reino. Uma vez garantida a alimentação com a introdução da silagem, o convívio social das pessoas necessitava agora ser organizado. A partir daí, o Arquétipo Patriarcal, que é o arquétipo da organização, foi intensamente ativado e propiciou a organização da povoação do Planeta.

Os mitos são os sonhos do Self Cultural, oriundos da atuação da função estruturante da imaginação (função transcendente, de Jung) sobre fatos históricos, circunstâncias ambientais ou sobre ideias e emoções individuais ou coletivas. Eles desempenham funções estruturantes importantes para a formação da identidade individual e cultural.

Durante a dominância matriarcal da pré-história predominaram os mitos de fertilidade, nos quais grandes deusas e deuses propiciam as forças da natureza. As religiões panteístas bem expressaram o culto das divindades como forças criadoras da fertilidade da natureza. No entanto, a identificação dessas forças exclusivamente com as grandes mães foi um redutivismo do Arquétipo Matriarcal ao feminino, como já mencionei.

Na realidade, os grandes deuses também expressam a criatividade da fertilidade.Dentro da dominância patriarcal, o mito da Gênese na mitologia judaico-cristã descreve o nascimento de Eva a partir de uma costela de Adão e, assim, deforma matriarcalmente a relação homem-mulher nessa importante raiz mitológica da Cultura Ocidental. Essa deformação matriarcal serve de base para uma deformação patriarcal da relação de poder, segundo a qual a mulher deve obedecer ao homem.

A organização social patriarcal deu uma forma à sociedade, que influenciou todas as suas dimensões, a começar pela propriedade privada, pelas classes sociais e pela família, em torno das quais se formularam a moral (superego) e as leis para aplicá-la.

Como todas as polaridades do Self Cultural, a relação homem-mulher também foi intensamente coordenada pela organização patriarcal. Apesar da mudança do paradigma sensual matriarcal para a organização patriarcal, a lei do mais forte continuou a ser a diretriz maior da elaboração simbólica. Os governantes foram privilegiados com o poder diante do povo, os nobres diante dos servos e, posteriormente, o proprietário diante do operário, o latifundiário diante do trabalhador do campo, os pais diante dos filhos, o professor diante dos alunos, o ser humano diante da flora e da fauna, e assim por diante. A polaridade homem-mulher sofreu a mesma deformação que a organização da família e da sociedade.

O trabalho no lar, dividido entre a função procriadora e doméstica, foi atribuído à mulher, enquanto as funções religiosa, militar, jurídica e operacional social foram atribuídas ao homem. As funções do homem foram claramente privilegiadas pelo “pátrio poder”. As consequências desse arbítrio na civilização marcaram a ferro e fogo, pela polaridade opressor-oprimido, a identidade histórica do homem e da mulher. Apesar da grande diferença que observamos entre esses papéis sociais nas diferentes culturas, o denominador comum arquetípico da polarização patriarcal na organização social, baseada na lei do mais forte, nos permite perceber uma desigualdade inegável, que tem impedidoa realização emocional e existencial do homem e da mulher como indivíduos e como casal. Não importa, para esse impedimento, se o homem é o repressor e a mulher a reprimida, pois ambos tiveram importantes aspectos da sua identidade deformados e fixados na Sombra, os quais limitam muito, até hoje, sua realização, o seu conhecimento mútuo e a busca do amor.

A manutenção dessa desigualdade por meio do poder tem sido uma das características da organização patriarcal. Uma de suas formas foi o controle da sensualidade da mulher pela mutilação dos seus órgãos sexuais externos, que pode incluir a extirpação dos grandes lábios vaginais e a cliterotomia.

Existem hoje, na África, por volta de 130 milhões de mulheres genitalmente mutiladas (BBC Brasil, 2014). Geralmente, essa mutilação é feita em meninas, ainda inconscientes da sexualidade, pelas velhas parteiras do grupo, elas próprias já mutiladas na sua infância. Em certas sociedades, porém, as próprias moças pedem para ser mutiladas, pois o fato de não o serem significa que gostam de sexo e, por isso, devem ser preteridas para casar, pois não podem ser “moças de família”

O Sadomasoquismo na Relação Homem-Mulher

Ao ampliar a visão sobre a sexualidade utilizando o conceito de função estruturante arquetípica, a Psicologia Simbólica Junguiana pode percebê-la como uma função estruturante da Consciência, junto com a função estruturante do poder. Dessa maneira, a relação sadomasoquista pode ser vista, além de uma perversão sexual (Krafft 1893), como um distúrbio da relação de poder, como é o caso do favorecimento da automutilação das pretendentes ao casamento em algumas tribos africanas.

É dentro dessa mentalidade de repressão da sensualidade da mulher na família patriarcal que vemos sociedades islâmicas, nas quais milhões de mulheres só podem mostrar sua face para os seus maridos dentro de casa. Nesse contexto, floresce a repressão não só à sensualidade da mulher, como também ao seu desenvolvimento intelectual. Tornou-se emblemático o caso de ácido jogado no rosto de meninas indo para a escola, coroado pelo tiro dado na cabeça da menina Malala, pelo fato de ela defender o crescimento da escolaridade feminina no Paquistão (O Globo, 2013). A serviço da repressão da mulher está até mesmo o estupro recomendado por lei tribal.

Recentemente, na Índia, uma jovem foi estuprada por 12 homens por ter sido vista namorando um rapaz de outra comunidade (Folha de São Paulo, 2014). Dentro dessas barbaridades que nos causam horror e que são praticadas em muitas culturas há milênios, mas que pouco se conhecia e hoje, com a internet, ficamossabendo dia a dia, devemos reconhecer também as consequências da dominância patriarcal nas sociedades ocidentais consideradas “evoluídas” e nas quais achamos que os homens e as mulheres têm direitos iguais e que, se não se amam, é porque não querem.

A descoberta de Freud (1905) da sexualidade infantil foi um choque para o puritanismo da cultura ocidental. No entanto, mesmo dentro da almejada isenção científica, a Psicologia não se liberou da misoginia patriarcal. Assim é que Freud, junto com a descoberta da sexualidade infantil, descreveu a reação da menina quando percebe que não tem pênis, atribuindo a ela um complexo de castração e a inveja do pênis. Um exemplo significativo de sadomasoquismo, dentro da teoria psicológica, parece-me ser professoras de Psicologia ensinarem essa interpretação psicanalítica como verdadeira.

Outro exemplo da interpretação patriarcal defensiva atribuída pela Psicanálise ao desenvolvimento da sexualidade infantil foi a fase de latência descrita da infância até apuberdade. Ora, o menino não tem essa fase porque sua sexualidade é desde sempreestimulada como incentivo à sua masculinidade. Quem apresenta a fase de latência da sexualidade é a menina, mas não por ser ela natural, e sim por ter sua sexualidade reprimida. Desta maneira, a própria descoberta da sexualidade infantil feminina deumargem a mais uma oportunidade para a organização patriarcal da Consciência inferiorizar a mulher.

O Quatérnio Primário e a Formação da Polaridade Ego-Outro

Outra consequência da deformação da identidade masculina e feminina pela teoria do desenvolvimento psicológico foi a redução da relação primária à díada criança-mãe, com a exclusão do pai. Essa redução e deformação da relação primária coincide com os papéis familiares redutivos históricos estabelecidos para o homem e a mulher na tradição milenar da família formada pela organização patriarcal. No entanto, essa redução e deformação desaparecem quando percebemos as relações da criança com os pais e a formação da sua identidade Ego-Outro pelo quatérnio primário.

Nesta relação quaternária, o Complexo Materno (Mãe e cuidadoras) se relaciona com o Complexo Paterno (pai e cuidadores), estabelecendo um vínculo interparental vivenciado pela criança com base em suas próprias características (Byington, 2008).

Pelo fato de a identidade se formar pela relação entre esses quatro pilares, devemos perceber o resultado desta interação pela sincronicidade e não pela causalidade. Quando interpretamos essa relação pela causalidade, atribuindo a autoria de um sintoma a um outro componente do quatérnio, caímos forçosamente no redutivismo e na deformação. Foi o que a Psicanálise fez maciçamente ao responsabilizar a criança pelo Complexo de Édipo.

Precisamos sempre elaborar cada um dos pilares do quatérnio primário para compreender a formação de qualquer característica da identidade. Quando assim fazemos com as reações de Laio, Jocasta e de Édipo, temos uma noção muito mais abrangente da formação deste complexo, de sua fixação e do grau de sua patologia. Ao elaborar, dentro da sincronicidade, a família dos Labdácidas, que gerou Laio, vemos que o Complexo de Édipo é tudo, menos normal e de responsabilidade exclusiva de Édipo. Isso evita a redução da normalidade à patologia na formação da identidade e a responsabilização da criança pela patologia familiar

A Diferença entre a Constituição do Homem e da Mulher

Outra deformação da relação homem-mulher que limita sua compreensão mútua e sua relação amorosa é a sua diferença constitucional. Ela precisa ser levada em conta na formação da identidade deles e na influência que tem no seu relacionamento. O homem e a mulher são geneticamente muito diferentes pelo fato de o genoma da mulher possuir os cromossomos XX e o do homem, XY. Essas características geraram um sem número de diferenças simbólicas, mas essas características não são causalmente determinantes de nenhum aspecto das suas identidades. No entanto, elas precisam ser levadas em conta quando buscamos compreender a identidade e a dinâmica simbólica da sua formação.

Junto com a força física, temos outra grande diferença entre o homem e a mulher, centrada na função da gestação. Quando analisamos sumarissimamente o funcionamento do organismo da mulher, nos damos conta que ele é radicalmente diferente do organismo do homem. Desde a puberdade dela até a menopausa, ou seja, aproximadamente dos 12 aos 50 anos, ela vive ciclos de 28 dias, organizados em função da possibilidade da fecundação e da gestação. Em cada ciclo menstrual, os ovários geralmente produzem 1 óvulo, que poderá ser fecundado em uma das Trompas de Falópio, na descida para o útero. A ovulação está ligada à interação da hipófise com o ovário para desenvolver cada um dos óvulos do reservatório ovariano. Quando ocorre a fecundação, a menstruação se interrompe e os hormônios femininos preparam a gestação, o parto e o aleitamento. Quando a fecundação não ocorre, recomeçam as menstruações e os preparativos para a possibilidade de uma fecundação, duas semanas depois. Cada ciclo menstrual afeta cada mulher de uma forma ou de outra e as variações dele são comparáveis às quatro fases da Lua.

O organismo do homem é endocrinologicamente radicalmente diferente em função da relação com a fecundação, a gestação e o aleitamento. À produção unitária da mulher para cada ciclo menstrual, compara-se a produção de 300 milhões de espermatozoides por dia e a 600 milhões deles em cada ejaculação. Enquanto cada óvulo desliza soberanamente trompa abaixo, em direção ao encontro nupcial, os espermatozoides são dizimados aos milhões pela secreção uterina, de tal forma que somente um sobrevivente seja coroado com o triunfo antes da morte (Spielrein, 1912).



A Diferente Formação da Identidade do Homem e da Mulher

Como descrevi em meu livro sobre as sete fases arquetípicas da vida (Byington, 2013), a identidade do menino e da menina se forma de maneira muito diferente a partir do início da terceira fase da vida (2 -12 anos). Até os 2 anos de idade, o menino e a menina se sentem iguais ao pai e à mãe quanto à identidade do gênero. Ao se dar conta e ao começar a ser tratado como menino, por volta dos dois anos de idade, ele percebe que, pelo fato de ser homem, ele não é igual à mãe e a menina percebe também, que por ser mulher, não é igual ao pai. Essa constatação para ela não tem a importância que tem para ele, pois ela não sofre nenhuma interdição e continuará com todas as atividades iguais à mãe no vestir e no brincar. Ela poderá até mesmo vestir o salto alto de sua mãe, brincar de mãezinha, “ter filhinhos” e “amamentá-los”. A ela, nada será proibido na relação com sua mãe e isso é muito diferente do que acontecerá com ele, que não poderá mais vestir-se como a mãe ou desempenhar qualquer atividade tida como feminina, sob pena de ser ridicularizado e chamado pejorativamente de mulherzinha, para dizer o mínimo.

Como essa transformação ocorre num nível verbal, mas ainda também grandemente pré-verbal, é difícil imaginarmos o quanto essa separação abrupta e traumática da identificação com a mãe afetará a função afetiva do menino. No entanto, a grande diferença entre o homem e a mulher, que levou à afirmação de que “homens vêm de Marte” e “mulheres de Vênus”, origina-se nessa fixação. Quanto maior for a dominância patriarcal na cultura e a repressão da função afetiva do menino com a ameaça de homossexualidade, mais difícil será para ele elaborar esse trauma e desenvolver a sua função afetiva. A compensação dessa ruptura com a mãe, que seria naturalmente mitigada e compensada pela relação afetiva com o pai, também é cerceada pela ameaça de homossexualidade, que, em grau maior ou menor, limitou o amadurecimento da função afetiva dele.

Dessa maneira, dos 2 aos 12 anos, resta ao menino privilegiar a agressividade e o arquétipo do herói para grandes lutas e aventuras, em detrimento de seu amadurecimento afetivo. É esse realmente “o caminho de Marte”, que tornará a competitividade, a agressividade e, em último caso, a guerra, uma tendência mais familiar que o carinho e a afetividade social (Byington, 2013).

O que ocorre com a menina no seu amadurecimento emocional é radicalmente diferente. Elas “são de Vênus” e diferentes dos meninos, não porque assim nasceram, mas porque têm a permissão de continuar a simbiose com a mãe após os 2 anos de idade, desempenhando plenamente a função afetiva, sem nenhuma ridicularização ou ameaça de, por isso, se tornarem homossexuais. É comum vermos duas, três e até quatro meninas andando juntas, afetiva e carinhosamente abraçadas, algo impensável para os meninos, ao menos em nossa cultura. Assim, a mulher se expressa verbalmente muito mais do que o homem porque sua afetividade é bem mais livre e estimulada.

A ferida primal da menina pela separação da identificação com o pai não afetará sua espontaneidade afetiva, que será preservada pela simbiose com a mãe. Essa ferida afetará a autoestima da menina e sua confiança na sua inteligência, na sua iniciativa e capacidade de liderança e de mando, quanto mais prevalecer o privilégio masculino na dominância patriarcal. Essa ferida poderá ser compensada pela relação com um pai que admire a sua inteligência e o seu desempenho escolar, mas é agravada pela desqualificação da formação intelectual da mulher na sociedade de dominância patriarcal.

A influência da elaboração da ferida primal pela separação do menino da mãe e da menina do pai terá uma grande consequência a partir da puberdade. Nessa fase, a afetividade é expressa pelos Arquétipos da Anima e do Animus, junto com a maturidade das glândulas sexuais.

Devido à limitação da função afetiva e ao estímulo cultural da sexualidade masculina após a puberdade, o homem tenderá a se relacionar com a mulher privilegiando a sexualidade. Inconsciente dessa limitação do homem, a mulher tenderá a entrar no relacionamento de forma predominantemente afetiva e amorosa e este será um dos importantes panos de fundo para a limitação do amor adulto. Este desequilíbrio será agravado quanto mais a mulher entrar no casamento e na criação dos filhos dependente financeiramente do homem e sem a autoconfiança para o desenvolvimento profissional e sua autonomia.

A limitação afetiva do homem, além de fazê-lo privilegiar a sexualidade, o deixa inseguro afetivamente. Isto frequentemente o leva a tratar a mulher com um autoritarismo que varia do controle moral e financeiro à opressão física e mental, convergindo para o sadismo, o espancamento e até mesmo o homicídio. Este relacionamento opressivo da mulher, junto com o privilégio econômico financeiro das classes dominantes, se apega às forças reacionárias avessas a quaisquer medidas progressistas.

A Busca do Amor na Relação Homem-Mulher e o Paradigma de Alteridade

A integração progressiva da posição dialética do Arquétipo da Alteridade, preconizada pelo Mito do Buda no Oriente e pelo Mito Cristão no Ocidente, chegou nas sociedades ocidentais com as grandes modificações que começaram a abalar significativamente a dominância da organização patriarcal e a desigualdade da relação homem-mulher.

A segunda metade do século XX apresentou o início dessas grandes mudanças nas sociedades ocidentais. Junto com os movimentos em prol dos direitos humanos, o desenvolvimento tecnológico e médico alterou fundamentalmente a relação homem mulher.

A descoberta dos anticoncepcionais e da função do clitóris no orgasmo da mulher; sua profissionalização progressiva; a despatologização e admissão da homossexualidade dentro do desenvolvimento dos direitos humanos; o estímulo ao desenvolvimento da afetividade do homem; a queda do muro de Berlin, com o término da guerra fria; a pacificação relativa dentro da globalização e o desenvolvimento fantástico da comunicação foram decisivos para propiciar o crescimento intenso da liberdade de desenvolvimento do homem e da mulher e da sua busca de um diálogo profundo para o seu conhecimento recíproco e o seu relacionamento amoroso.

Infelizmente, porém, o reacionarismo de muitas culturas dominantemente patriarcais não só não diminuiu como, compensatoriamente, até mesmo aumentou. O ataque traiçoeiro e covarde às Torres Gêmeas de Nova York e a humilhação do mundo islâmico pela guerra mentirosa, covarde e terrivelmente destrutiva do Iraque, acompanhada do impasse fanático no problema israelense, desencadearam o terrorismo moderno. Ele foi acompanhado da intensificação do que há de mais retrógrado em muitas sociedades, centradas na miséria, no atraso social e na opressão conjugal e intelectual da mulher pela exacerbação da organização patriarcal repressiva tradicional nessas sociedades.

O Feminismo

Com o desenvolvimento dos direitos humanos graças à integração social progressiva da posição dialética do Arquétipo da Alteridade, desencadeou-se na cultura ocidental um movimento de afirmação da mulher em todas as dimensões existenciais. No entanto, devido à opressão e deformação sofrida nos milhares de anos de humilhação dentro da organização patriarcal, esse movimento ainda não atingiu a mentalidade propiciadora do desenvolvimento pleno da mulher para conseguir se relacionar amorosamente com o homem em condições de igualdade e liberdade.

Deformado pelas muitas defesas estruturadas nos milênios de opressão, o feminismo seguiu, principalmente na segunda metade do século XX, um caminho de autossuficiência, prepotência e competição com o homem pelo poder, baseado nas mesmas deformações do machismo que, através dos tempos, inviabilizaram a capacidade de amar do homem. Tratou-se, assim, de uma verdadeira enantiodromia (enantio=contrário e dromus=correr), uma corrida para o contrário no relacionamento homem-mulher, que se opôs à opressão patriarcal da mulher dentro do mesmo arquétipo que a oprimiu. Esse movimento reativo inviabilizou a ultrapassagem da organizaçãopatriarcal para alcançar um relacionamento na liberdade e na amorosidade da alteridade.

Nessa competição, atrelada a uma relação de poder, as jovens lançaram-se a uma conduta sexual e social aparentemente livre e moderna, mas cuja insegurança e desregramento caminharam defensiva e sombriamente para o exibicionismo, a promiscuidade sexual compulsiva, a gravidez precoce, as doenças sexualmente transmissíveis e uma profunda desorientação existencial que as afastou da autorrealização profissional e amorosa que tinham certeza de ter conseguido.

Aos poucos, porém, o movimento feminista vem percebendo os descaminhos dessa busca, que, devido às inúmeras atitudes defensivas adotadas, precisam ser elaborados e modificados. Com isso, o movimento feminista vem abordando ultimamente seu grande desafio, que é a realização profissional, com a conquista da independência financeira junto com a manutenção da sua riqueza afetiva no relacionamento com o homem, com os filhos e com o lar, os quais no passado contribuíram para o seu cerceamento, mas que hoje precisam ser integrados na sua autorrealização.

Conclusão

Como já havia percebido Hegel (1899) em sua teoria sobre o espírito da História, a humanidade caminha com progressos e retrocessos em direção à liberdade. Esse é o grande ideal para desenvolvermos a possibilidade da nossa sobrevivência dentro doamor, que necessita que o homem e a mulher atinjam sua abertura e dedicação no seu processo de individuação.

Inúmeros são os entraves históricos constitucionais e psicodinâmicos que necessitamos enfrentar para desenvolver a capacidade de amar, mas a análise desse processo histórico mostra que nossa espécie tem a necessidade de elaborar essa Sombra para que o homem e a mulher se tornem companheiros na busca da plenitude.


** Artigo publicado na Junguiana, Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, nº 32-1, junho de 2014, São Paulo, SP.

Referências Bibliográficas

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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A dimensão psicológica analítica da arte

A Dimensão Psicológica Analítica da Arte
Por Flavio de Carvalho - 16 de agosto de 2017

“Apenas aquele aspecto da arte que existe no processo de criação artística pode ser objeto da psicologia, não aquele que constitui o próprio ser da arte. (…) Ou seja, a pergunta sobre o que é a arte em si, não pode ser objeto de considerações psicológicas, mas apenas estético-artísticas” (JUNG, 1991, p. 54).


Tomando como ponto de partida a citação acima, proferida por Jung, numa palestra sobre a “Relação da psicologia analítica com a obra de arte poética”, desejamos discorrer de maneira breve acerca do modo peculiar de conceber a produção psicológica e a criação artística, apresentado por tal abordagem.

Começamos tentando delimitar, com Jung, o que estaria no campo da psicologia em relação à arte. Percebemos, pois, que não estamos tentando dizer o que é arte, mas procurando conhecer mais a respeito da atividade criadora e da estruturação da obra de arte.

Sob esta perspectiva, a psicologia analítica busca contribuir no processo da decifração das imagens simbólicas contidas em determinada obra, clarificando suas significações, que, muitas vezes, não são possíveis de serem apreendidas pela a visão da época vigente (Silveira, 1976, p.55).


É importante determo-nos um pouco mais na questão trazida acima, que envolve a compreensão das imagens simbólicas de uma obra de arte. Este é um ponto fundamental que aparece quando falamos em criação artística na teoria Junguiana.

Para tal abordagem, existem dois diferentes processos na criação de uma obra. Um destes processos estaria mais vinculado à intenção do artista, ao que ele deseja representar. Esse tipo de arte é bastante acessível e de fácil compreensão. O outro, todavia, parece escapar ao próprio artista que o concebe. É como se, de súbito, fosse tomado por uma inspiração avassaladora, que o move a dar determinada forma a sua arte.

Quanto a esses dois processos, é interessante esclarecermos que, primeiramente, Jung trata-os referindo à criação literária. Posteriormente, o crítico contemporâneo Herbert Kühn irá pensar esses dois processos, de forma análoga, nas artes plásticas.

Denomina-os, respectivamente, de “Arte dos Sentidos” e “Arte da Significação”.

Outro ponto relevante é que esses dois tipos de processo não são mutuamente excludentes. Eles ocorrem em diversos graus de intensidade. Jung diz que, mesmo no primeiro caso, o artista não escapa da influência do inconsciente (si mesmo) (op.cit., p.63).

Nesta breve explanação, vem desenhando-se algo fundamental em nossa análise: para a psicologia analítica, o processo criativo vai além do consciente, do pessoal. A esse processo criativo, tal abordagem nomeia-o de complexo autônomo.

Este é um conceito bastante caro à psicologia Junguiana. Para auxiliar-nos na clarificação do mesmo, recorreremos à Nise da Silveira (1976 – p.35):

“Os complexos são agrupamentos de conteúdos psíquicos carregados de afetividade. Compõe-se primariamente de um núcleo possuidor de intensa carga afetiva. Secundariamente estabelecem-se associações com outros elementos. Formam-se assim verdadeiras unidades vivas, capazes de existência autônoma”.

Esses complexos constituem a maior parte dos conteúdos do inconsciente pessoal, mas não são restritos a ele. Existem complexos de outra natureza, relativos a manifestações vitais do ser humano. O que tal constatação mostra-nos é que os complexos estão alicerçados sobre uma base comum, os arquétipos.

(Para saber mais sobre arquétipos, Clique Aqui!)

É importante esclarecermos que arquétipos não são ideias ou imagens inatas, mas maneiras instintivas de imaginar e de fazer representações que se assemelhem. De uma maneira simplificada, o que se torna mais relevante acerca desta questão é que podemos sempre pensar na ligação entre vivências individuais e as grandes experiências da humanidade (ibid).

Tomando como base esses conceitos, Jung irá abordar as obras de arte, ao serem interpretadas, como possuidoras de um caráter super pessoal, inerente às produções humanas.

Como exemplo disso, temos a análise que o autor faz de um quadro de Leonardo da Vinci: “A Virgem, o menino Jesus e Sant’Ana”, exposto no Museu do Louvre. Este quadro também foi alvo de análise de Freud, em seu artigo sobre o pintor.

A diferença marcante entre as duas interpretações é que, enquanto Freud preocupa-se, primordialmente, em descobrir conexões entre o que foi pintado e os acontecimentos emocionais infantis de Leonardo; Jung, por sua vez, dá relevância à imagem arquetípica na qual se estrutura a figura, dando menor destaque à psicologia individual do autor.

(Para ler mais a respeito sobre Freud e Jung, Clique Aqui e Aqui)

Deste modo, sua análise inicia apoiando-se na hipótese de ter ocorrido uma reativação do arquétipo mãe, devido aos fatos acontecidos na vida de Leonardo. O pintor, quando criança, teve a experiência de conviver com duas “mães”.

Uma era Caterina, sua mãe legítima e a outra, era Donna Albiera, esposa de seu pai. Quando possuía por volta de cinco anos, Leonardo foi levado para morar com o pai e com sua madrasta.

Além disso, foi descoberta por Oscar Pfister, a projeção da imagem de um abutre nas pregas do manto da Virgem. Tal imagem projetada inconscientemente pelo pintor vincula-se a uma recordação fantasiosa de sua infância, onde um abutre teria posto a cauda em sua boca, quando ele ainda estava no berço.

Freud irá deter-se mais neste ponto, apesar de traçar algum paralelo entre a vivência do pintor e mitos da antiguidade egípcia.

(Para ler mais a respeito de mitologia, Clique Aqui!)

Jung, contudo, enfatiza este aspecto, meio relegado por Freud, ligando todas essas imagens ao mito egípcio de Mout, uma deusa mãe, que era representada com corpo de mulher e cabeça de abutre. Com isso, demonstra que, mesmo o arquétipo mãe assumindo formas mais condizentes com a época (figura da Virgem e de Sant’Ana), a representação do abutre ainda aparece de forma velada.

A figura mãe desdobra-se, também, em relação a outro mito, popular em vários povos, que é a de ser uma característica de heróis possuírem duas mães: a mãe carnal e a mãe espiritual. Esses dois aspectos encontram-se no mesmo arquétipo e aparecem na obra de da Vinci.

Este é um exemplo bastante interessante, que nos possibilita uma melhor compreensão em relação ao que já foi referido anteriormente sobre o papel dos complexos e dos arquétipos no processo de criação artística. Muitos outros exemplos ainda poderiam ser citados, inclusive relativos a obras mais contemporâneos. Artistas como Picasso, Lispector, Zé Ramalho, entre tantos outros, poderiam ser por nós analisados e, com certeza, muito contribuiriam com nossa reflexão.

Em relação ao que já foi posto, resta-nos, ainda, frisar que não basta haver a emergência de imagens arquetípicas, para se criar uma obra de arte. Essas imagens estão sempre se revelando em nossa vida cotidiana, seja através de sonhos ou de fantasias inerentes ao humano. Para que tais imagens transformem-se em arte, é necessário que sejam elaboradas, de maneira que se tornem acessíveis a linguagem da época na qual estão inseridas. Esse processo de elaboração (ou transmutação, como se refere Silveira) ainda não foi possível de ser explicado por nenhuma psicologia.

Para finalizar, deixemos com o próprio Jung a tarefa de condensar o que, nesta curta explanação, tentamos expor, visando o fomento da discussão acerca do encontro entre arte e psicologia.

Este é o segredo da ação da arte.

O processo criativo consiste (até onde nos é dado segui-lo) numa ativação inconsciente do arquétipo e numa elaboração e formalização na obra acabada.

De certo modo a formação da imagem primordial é uma transcrição para a linguagem do presente pelo artista, dando novamente a cada um a possibilidade de encontrar o acesso às fontes mais profundas da vida que, de outro modo, lhe seria negado.

É aí que está o significado social da obra de arte: “ela trabalha continuamente na educação do espírito da época, pois traz à tona aquelas formas das quais a época mais necessita” (op.cit., p.71).



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Referências Bibliográficas:

Jung, C. G. Relação as psicologia analítica com a obra de arte poética (1922). In: O espírito na arte e na ciência. 3ªed. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 54-72.

Silveira, N. Jung – vida e obra. 5ªed. Rio de Janeiro: José Álvaro editor, 1976.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Um novo instrumento de avaliação Psicopedagógica

Terapia de Reciclagem Infantil, um Novo Instrumento Possível para Avaliação Psicopedagógica

Autor: Monique Sampaio de Medeiros | Publicado na Edição de: Julho de 2017
Categoria: Psicologia Escolar



Resumo: Este presente artigo visa contribuir e analisar um novo instrumento de avaliação no âmbito psicopedagógico onde sua base é desenvolvida a partir da teoria cognitiva comportamental, e seu principal objetivo é permitir novas compreensões e práticas mediante o processo de aprendizagem. O método é uma descoberta recente, porém, já viaja mundo a fora, e é apresentado como um novo instrumento de avaliação psicológica, podendo ter a possibilidade de adapta-lo para uso psicopedagógico, pois regulamenta as emoções do sujeito, bem como a sua intensidade. Essa terapia visa ainda contribuir para o bem estar emocional, qualidade de vida, empatia, situações de estresse e ansiedade, e ainda a conversação, desobediência e ajuda a convivência social. Usando o símbolo de reciclagem, para absorver a ideia de reciclar seus pensamentos e emoções.
Palavras-chave: avaliação, método, instrumento, emoções.

1. Introdução


Com a psicopedagogia tomando maiores proporções mediante a avaliação de quem á procura, é necessário entender a função da psicopedagogia na avaliação do sujeito que aprende.
O destaque que a psicopedagogia é de caráter interdisciplinar, que oferece estrutura para educar e ensinar, portanto o processo de intervenção ocorre combatendo o fracasso escolar.
"No uso do método clínico, o psicopedagogo intervém no processo educativo durante as conversas com a criança, buscando investigar o seu desenvolvimento psicológico, e, também, procura conhecer a forma como o individuo organiza sua estrutura intelectual. (Balestra, 2012. p. 26).
A importância do psicopedagogo frente às dificuldades de aprendizagem começa a configurar-se quando se toma consciência das dificuldades dos alunos e cuida-se em apresentar os objetivos, os temas de estudos e as tarefas numa forma de comunicação clara e compreensível, juntamente com o professor e na escola, em um todo. As formas adequadas de comunicação concorrem positivamente para a interação professor-aluno e outros que fazem parte do contexto escolar.
De acordo com o Código de Ética da Psicopedagogia, no Capítulo I, Artigo 1 º, afirma que "A Psicopedagogia é um campo de atuação em Educação e Saúde que se ocupa do processo de aprendizagem considerando o sujeito, a família, a escola, a sociedade e o contexto sócio histórico, utilizando procedimentos próprios, fundamentados em diferentes referenciais teóricos".
O novo método de abordagem clínica, chamado de terapia de reciclagem infantil, trás consigo uma ampla bagagem dos autores, que contendo em sua prática de aplicação vários casos que deram certos, que utilizam diversos parâmetros teóricos, embasando sua aplicação. O método de reciclagem surgiu a partir de uma demanda observada em consultório clinico de psicologia, sendo particularmente novo no mercado, mais que já trouxe excelentes resultados.
Foi criado a partir da deficiência de informações onde ocorria casos que precisavam de mais detalhes, observações minuciosas, e passou a ser um dispositivo psicoterapêutico desenvolvido e formado por duas modalidades de intervenção. "A primeira utilizada para o tratamento de contextos clínicos como depressão e ansiedade e a segunda com aspecto preventivo para trabalhos em grupo em instituições escolares, postos de saúde ou grupos comunitários". Sua composição é feita por três instrumentos denominados pelos autores como ferramentas de acesso a criança:
"Baralho das Emoções, Baralho dos Pensamentos e Baralho dos Comportamentos. Instrumentos esses que dão base à psicoterapia cognitiva, sendo ainda preventivo no que se diz os comportamentos, que é o objeto de estudo desse trabalho, um novo método que vise a prevenção de possíveis comportamentos indesejáveis" (acesso: tritreinamentos.com.br).
O método de reciclagem infantil foi formatado no intuito de formalizar uma intervenção do início ao fim do processo avaliativo da criança, levando em conta que os protocolos de infância, de um modo geral, são parciais e direcionados a um funcionamento psicopatológico específico.
A emoção não é uma ferramenta menos importante que o pensamento e, portanto, necessita de estímulos. Afirma, ainda, que a educação sempre implica em mudanças nos sentimentos e a reeducação das emoções vai na direção da reação emocional inata. (Vygotsky, 2003, p.121.).
Portanto é necessária uma visão mais ampla do sujeito que aprende, podendo esclarecer suas emoções através de seus pensamentos. Conhecê-lo de forma eficaz verificando sua bagagem até a sua primeira avaliação, e diante disto formatar as possíveis abordagens e intervenções. Lembrando ainda que os instrumentos aqui abordados terão um caráter preventivo, onde os resultados podem ser conclusos ou não, devendo assim, ser encaminhado ao profissional competente.
O objetivo dessa pesquisa é colocar na prática psicopedagógica mais uma possibilidade de intervenção, mais um método de avaliação, um projeto que ainda é jovem, mais que pode solucionar e mostrar grandes resultados. Esse instrumento psicoeducativo vem a contribuir na ação social do indivíduo.
O psicopedagogo tem nos espaços sociais uma intensa variedade de vertentes que lhe permitem e, simultaneamente, exigem renovação em sua base teórica, sua prática e metodologia a serem utilizadas, produzindo novos significados. (Maia, 2008, p. 50).
A partir da ação psicopedagogica diante do sujeito que necessita do aprender, essa prevenção é até mesmo um resgate de aspectos relativos ao desenvolvimento da aprendizagem, onde coloca o sujeito frente à motivação, a sua trajetória, o contexto em que vive, com a finalidade de ajudá-lo a compreender sua essência, a se descobrir como pessoa e consequentemente explorar o seu universo.
Com a utilização do método e seus instrumentos que são baralhos, onde ainda será mais bem detalhado, podemos citar que esse material é composto de cartas ilustrativas, separadas por gêneros, e ainda trás consigo emoções que se sente, podendo ser agradáveis ou não. A seguir vamos observar que o método fica separado por três baralhos distintos e sua aplicação é necessária ainda um treinamento específico com os autores desse instrumento.

2. Desenvolvimento

A psicopedagogia envolve não só os problemas de aprendizagens, mais analisa como a criança aprende, e como ela absorve novos conhecimentos. É a partir desse processo de estímulos que devemos aprofundar e investigar se há algum obstáculo para que a criança não desenvolva. Essa intervenção foca o sujeito, e suas relações com a aprendizagem.
Para o psicopedagogo cuja atuação se volta especialmente para os problemas de aprendizagem é que a teoria nos permite conhecer as possibilidades de construção de estruturas mentais nos diferentes estagio dessa aquisição do conhecimento.
Com base na teoria cognitiva comportamental, o sujeito que aprende é levado a uma mudança de comportamento ou aquisição, que podem ser causados por estímulos internos ou externos. Ainda sendo estudando diversas modalidades de aplicações da aprendizagem.
“O aprendizado consiste em uma mudança relativamente persistente no comportamento do indivíduo devido à experiência. Esta abordagem, portanto, enfatiza de modo particular a maneira como cada indivíduo interpreta e tenta aprender o que acontece”. (Lakomy. 2008, p.16).
Portanto, aos profissionais de psicopedagogia compete à observação do sujeito que aprende suas interações sociais, seu ambiente familiar, educacional e pessoal, para que de tal forma deve ser aprofundado os instrumentos e novas práticas que auxiliam nessa descoberta.
A afetividade não é nada sem a inteligência, que lhe fornece meios e esclarece fins. É pensamento pouco sumario e mitológico atribuir as causas do desenvolvimento às grandes tendências ancestrais, como se as atividades e o crescimento biológico fossem por natureza estranhas à razão. Na realidade, a tendência mais profunda de toda atividade humana é a melhor é a marcha para o equilíbrio. E a razão - que exprime as formas superiores desse equilíbrio - reúne nela a inteligência e a afetividade. (Piaget, 2001, p . 65).
Os estudos a respeito da afetividade representam uma valiosa contribuição para a educação da criança e da família e, especialmente, na escola. O acompanhamento do seu desempenho escolar, ou seja, do processo cognitivo, é importante, mas o aspecto afetivo não pode ser negligenciado em nenhum momento do desenvolvimento infantil, principalmente na vida escolar.
O símbolo da reciclagem que é utilizado no método trás uma abordagem simples de se compreender, como é usado para respeitar a natureza e evitar poluição. Da mesma forma aplica-se com as crianças, para que possam entender que é possível reciclar seus pensamentos, para que ele não contamine as emoções e comportamentos, já que é natural do ser humano, e todos vamos sentir e pensar, mais que pode entender que não traga nenhuma consequência ruim.
A seguir a formatação desse artigo está dividida por meio dos três baralhos, que irão ser apresentados com seus respectivos objetivos, como são utilizados, a faixa etária de aplicação e ainda indicarão qual a emoção que a criança está sentindo ou sentiu, se é pertinente ou momentânea, e sua intensidade, medida através de um termômetro ilustrativo.

2.1 Baralho das Emoções

Surgiu através das terapias cognitivas comportamental, que busca o bem estar e regulação das emoções. “Visa ainda o trabalho psicoeducativo com a criança e adolescente acerca do reconhecimento, evocação, verificação de intensidade e frequência de ativação dessas emoções” (TRI Treinamentos 2015), bem como sua adequação e respostas comportamentais. Ajudando o desenvolvimento da empatia e consequente incremento de socialização.
Diante deste instrumento na sua organização são utilizadas seis emoções básicas que podem ser observadas há qualquer momento, destacando ainda suas funções e como agem diante do sujeito. Divididas em emoções agradáveis e desagradáveis de sentir, onde a própria criança faz sua referência, podendo ainda estar livre para destacar outras emoções que sente em determinadas situações. Podendo ser medidas através de um termômetro que indica a intensidade que está sentindo determinada emoção, entre elas, muito fraca indo até muito forte. Sua composição é feita por quarenta e duas cartas dividas em dois baralhos, masculino e feminino, e um termômetro para cada baralho. Além disso, há mais vinte cartas extras com expressões de emoções representadas através de desenhos de meninos e meninas.
Seus principais objetivos são ajudar no processo diagnóstico através do monitoramento da intensidade e frequência onde medida semanalmente; promover mudança dos estados patológicos, promovendo bem estar, e harmonizando os pensamentos como voz dessas emoções pseudoeducando para obter resultados positivos e assim promover a possível aprendizagem.
O presente estudo é um fruto de mais de uma década de trabalho dos autores com uma significativa população infantil através de práticas privadas e visa, objetivamente, ser um instrumento facilitador da prática clínica infantil, produzindo uma adaptação aos protocolos de psicoterapia cognitiva à infância e possibilitando um rapport, uma facilidade de acessarmos a criança na clínica. (Caminha & Caminha, 2007 p. 67).
Sua abordagem pode ser dividida em até 10 sessões, com crianças a partir dos sete anos de idades e que apresentam confusões e/ou perturbações eminentes, ou ainda que demonstrem um quadro comportamental diferenciado que busca investigação.
A terapia é contínua e deve apresentar as emoções vividas pelo sujeito, e que lhe ensina a dominar seus pensamentos. Através desde pressuposto a terapia ganha forma para buscar o bem estar do sujeito, em qual que seja sua primeira demanda emocional. Pois trabalha diretamente as suas emoções.
Segundo Carvalho (2010), “cada emoção tem seu respectivo padrão de manifestação fisiológico e comportamental”. As manifestações fisiológicas variam de acordo com cada emoção evocada, envolvendo diversos sistemas orgânicos em seu processamento. As manifestações comportamentais resultam em respostas motoras, podendo ser de natureza voluntaria ou involuntária.
De acordo com fatores que problematiza a aprendizagem, as áreas que o método de reciclagem infantil aborda, tem total prevalência no aprender do sujeito. A aprendizagem não depende só de uma área que funcione bem, é necessário que o bem estar físico, corporal e mental esteja bem alinhado para que possa ter uma mudança de comportamento.
É necessário rever cuidadosamente cada relação do indivíduo e suas inicias dificuldades, pois a criança precisa estar segura para que enfrente essas dificuldades, pois os obstáculos são prováveis, não só as consequências vislumbradas em sala de aula: leitura, escrita, compreensão e interpretação de textos, problemas em relação à matemática, à atenção e ao comportamento, pois tais dificuldades podem ser agravadas ou mesmo geradas por questões sociais mais complexas advindas da história particular de desenvolvimento de cada um.
Por meio desses obstáculos, especifico o epistemofílico, que destacado acima, há ainda causas pelas questões emocionais, o sujeito que buscar aprender pode ser bloqueado ou até mesmo impedido de conhecer o novo devido a questões que ele mesmo não consegue expor, ou que não confidencie nas propostas que já conhecemos, para tanto é necessária uma investigação mais minuciosa, com uma maneira leve, porém, resultante de seus próprios questionamentos e sensações que possa estar a sentir.
Cabe ao terapeuta observar como o sujeito se comporta, caso demonstre alguma reação adversa, ou que não atende aos comandos, e ainda não tenha segurança, ou não confie em si próprio.

2.2 Baralho dos pensamentos: reciclando ideias, promovendo consciência.

De acordo com CAMINHA & CAMINHA (2012, p. 18) o baralho “surgiu no intuito de instrumentalizar terapeutas cognitivos na sequência do baralho das emoções com uma ferramenta que aponta as principais cognições derivadas das emoções consideras as básicas”, e com a intensão de promover essa técnica de reciclagem de pensamentos, onde utiliza-se um cartão descrito como de enfrentamento, denominado de S.O.S (saque seu cartão; olhe seu cartão; e siga seu cartão).
É usado em três fases de aplicação, onde é mostrado completamente em seu manual do usuário. Tem como desenvolvimento a faixa etária que é a partir dos 6 anos de idade, denominada de modelo lúdico. Indo dos 9 anos até aos 14 anos sendo denominado de modelo completo.
Durante essa etapa, as crianças aprendem a relação existente entre aquilo que pensam e o modo como se sentem e como agem. Entendem que pensamentos não são, necessariamente, verdade. Podemos pensar coisas equivocadas a respeito de nos mesmo, dos outros, e da vida, de forma geral. NEUGELD, (2015).
A intervenção também busca diminuir problemas relacionados ao convívio social, como o bulling, o isolamento e a exclusão. Através do uso no caráter preventivo.
O acompanhamento do aluno diante da dificuldade e as intervenções proposta pela psicopedagogia estão sendo a cada dia melhores estudada com o propósito de melhorias e práticas, sendo transformadas a partir de um pressuposto, como por exemplo, a caixa de trabalho, passou a desencadear a caixa de área, que também utiliza do material da entrevista operacional centrada na aprendizagem – EOCA, para iniciar o trabalho mediante uma consigna.
Importante ressaltar que o baralho citado, vai conseguir de alguma forma estabilizar o sujeito diante de possíveis confusões de sentimentos e pensamento que passa a ser a voz das emoções. Para tanto o uso do instrumento tem a colaborar com a prática avaliativa, possa conhecer melhor o sujeito que busca excluir qualquer obstáculo para aprender.
O baralho contribui para que o terapeuta consiga identificar os principais pensamentos ativos, suas manifestações, permite ainda traçar metas e os objetivos, monitorando e acompanhando a cada sessão onde o sujeito obteve melhoras.
Com a divisão das três fases desse processo, onde cada uma das fases analisa determinadas causas (patológicas ou não), aborda em sequência, os impactos negativos que a criança já convive, mantendo seu controle, podendo ser agradáveis ou desagradáveis de sentir; a equilibração das emoções e seus impactos positivos, onde se destaca as emoções agradáveis de sentir, como por exemplo, o amor e a alegria; ambientalizar e socializar a criança, buscando ainda ser empáticas, assertivas e colaborativas.

2.3 Baralho do comportamento: efeito bumerangue

De acordo com Caminha e Caminha (2013, p.18) “O efeito bumerangue é uma metáfora que escolhemos para explicar ao paciente e aos seus pais que somos ativos em nossos processos cognitivos, afetivos, e comportamentais”.
Sabemos que o comportamento é a expressão visível do sujeito, e que é através dele que podemos observar a interação com o meio, a relação com os indivíduos da espécie, sua adaptação e progressão biológica.
Em seus momentos de aplicação a prática de psicoeducar abrange todos os indivíduos que estão envolvidos nesse processo e que vem possibilitar o bem estar e consequentemente a resposta positiva esperada pelo instrumento. O sujeito compreende que existem comportamentos que ajudam e que não ajudam durante o percurso da vida, e que esses são fundamentais para ênfase da resolução do problema.
O material que acompanha o manual de uso, onde destaca-se 33 cartas e 20 cartões de comportamentos. (Caminha, 2103) “É utilizado também o termômetro de intensidade e frequência, onde acontece o pensamento socrático, sendo monitorado por um diagrama, onde é possível observar o desenvolvimento comportamental do sujeito”. Na finalização do processo, é aplicado ainda técnicas de relaxamento, em participação dos responsáveis, onde contribui para benefício entre corpo e mente.
É de suma importância a inserção dos pais, para que o trabalho transcorra de um modo adequado e eficaz. Ainda se por ventura a emoção mais ativada pela criança for uma emoção secundaria, como por exemplo, preocupação ou ainda ansiedade, remeter sempre a emoção a sua respectiva emoção básica originária. (Caminha e Caminha, 2011).
O objetivo do instrumento é transformar as estratégias do sujeito, sendo possível identificar as classes do comportamento, como se apresentam, sua frequência. A aplicação é realizada em quatro momentos de maneira ampla e didática.
Onde no primeiro momento acontece de com a presença dos pais ou responsáveis, de maneira que venha psicoeducar a família, e mencionar sobre o bem-estar de todos.
Em um segundo momento são utilizados diagramas, que possibilitam a criança identificar quais comportamentos que ajudam e os que não ajudam, sua intensidade, frequência, vantagens e desvantagens.
No terceiro momento acontece a ampliação do repertorio de comportamentos, em que se dá ênfase na resolução do problema.
No último momento, se trabalha a prevenção, manutenção, e os comportamentos estimulantes, onde pode ser trabalhado o processo psicoterápico por meio de técnicas de relaxamento (YOGA), respiração e ABCDE.

3. Metodologia

A metodologia abordada para esse trabalho é tipo bibliográfica, mas com uma pitada de inovação, trazendo uma nova proposta de trabalho para a área psicopedagógica, onde o principal objetivo é contribuir com a sociedade e suas necessidades.
Para formular a pesquisa foi necessário a princípio uma participar de curso com duração de vinte horas de treinamento de aplicação da terapia, onde os próprios autores que ministraram com duração de dois dias, realizado na cidade local. Ainda foram utilizadas pesquisas em livros, sites de busca, artigos já publicados, foram também revistos o código de ética da profissão, e suas possibilidades de acréscimo para embasamento do trabalho, pois, é direcionado a psicólogos infantis e escolares.
Sabendo das possibilidades da utilização desde método para acréscimo do nível de conhecimento da profissão, é de extrema importância novos instrumentos que façam avaliações corretas, éticas, precisas e que o sujeito que é investigado não fique acuado ou possível influenciado quanto aos métodos já existentes.
A terapia cognitiva comportamental, que é utilizada nesse instrumento de pesquisa, vem para ajudar as crianças a lidar com suas emoções, situações de estresse e ansiedade, ainda deve aprender regras concretas de convivência, a empatia também é trabalhada indicando o estado emocional do sujeito
Portanto, essa terapia busca a melhoria de qualidade de vida que pode ainda ser estudada na aplicação avaliativa do psicopedagogo que trabalha na construção das habilidades e que possam dar mais suporte na prática educacional e psicoeducativa, pois, sabemos da importância da profissão e suas peculiaridades.

4. Considerações Finais

Contudo para que possamos continuar os estudos sobre a terapia de reciclagem infantil será necessário maior incentivo para melhorias de aplicação do método dentro do consultório psicopedagógico, no entanto o primeiro passo já foi dado.
Por ser uma profissão ainda jovem, é necessária uma prática que dê bons frutos, para a sociedade entender que não é um profissional de reforço escolar, ou um professor especializado em reforço, é necessário, termos resultados positivos e satisfatórios, tanto para o sujeito aprendente, quanto para os pais e escolas.
O instrumento aqui citado, trás consigo um material que pode ser utilizado nas avaliações do psicopedagogo, uma abordagem teórica muito rica, feita por dois profissionais que a partir de sua rotina consegui ver muito além, utilizou diversas vezes em seus consultórios, e que hoje tem excelentes resultados, e em outro país, como Portugal, faz o uso deste método.
A psicopedagogia avança seus estudos a cada dia e é necessário que os profissionais estejam dispostos a ir em busca de novas abordagens, possíveis intervenção, de mais conhecimentos que possam ser aplicados no dia a dia, utilizar os novos recursos e pesquisas para que a prática da profissão seja por mérito, conceituada. Sabemos a importância do exercício da profissão, e o quão seu diagnóstico preciso mediante avaliação pode colaborar na vida desses usuários.
Sobre o Autor:

Monique Sampaio de Medeiros - Acadêmica de psicopedagogia clínica e institucional.

Fonte: https://psicologado.com/atuacao/psicologia-escolar/terapia-de-reciclagem-infantil-um-novo-instrumento-possivel-para-avaliacao-psicopedagogica © Psicologado.com

Freud e Jung: O que a emoção não deixou reunir

FREUD e JUNG: O que a Emoção não Deixou Reunir
Por Carlos Amadeu Botelho Byington - 9 de agosto de 2017 1477 1


Em primeiro lugar, devo dizer que falo de Freud e de Jung como os pais heróis de minha vocação. Ainda no curso médico, comecei minha análise com um psicanalista e logo me apaixonei pela obra de Freud. Estudei Psicanálise durante este período com a firme intenção de tornar-me psicanalista. Acontece que meu analista, “sem minha autorização”, foi fazer análise com a Dra. Nise da Silveira. Ela havia conhecido a obra de Jung, ido fazer análise com ele e a Dra. Marie-Louise von Franz em Zurique e retornara ao Rio de Janeiro, onde se tornou a pioneira da psicoterapia com técnicas expressivas e da Psicologia Analítica no Brasil. Assim aconteceu que minha primeira análise, que estava no seu quarto ano, terminou, ou continuou, numa viagem a Zurique para me formar analista junguiano.



Ao concluir meu curso de formação, escrevi uma tese intitulada Autenticidade como a Dualidade na Unidade. Nela incluí a noção de complementaridade entre as obras de Freud e de Jung, que me custou a ruptura com a Dra von Franz, a discípula erudita da obra de Jung e minha querida analista durante cinco anos. Ao retornar ao Brasil e fundar, com outros colegas brasileiros, a Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, continuei minha criatividade no desenvolvimento da teoria psicológica incluindo a complementaridade entre as obras de Freud e de Jung, dentro de um referencial simbólico e arquetípico, que intitulo Psicologia Simbólica Junguiana. Nesta teoria, retorno à obra e à figura de Freud para nutrir-me e, ao fazê-lo, freqüentemente relembro a frase célebre da cultura francesa, que tanto desenvolveu a arte de amar: “voltamos sempre ao nosso primeiro amor” – on revient toujours à son [1] premier amour. É dentro dessa perspectiva de afeto e gratidão que lhes falarei hoje sobre como vejo a problemática emocional no relacionamento destes dois gênios pioneiros da psicologia dinâmica.
[1]: Palestra de abertura do I Congresso Venezuelano de Psicanálise, a convite de Gonzalo Himiob, Luis Sanz, da Associação Venezuelana de Psicologia Analítica, da Escola Venezuelana de Psicologia Profunda e do Centro de Estudos Junguianos. Caracas, 10 de junho de 2005. 2 Médico Psiquiatra e Analista Junguiano. Membro fundador da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. Membro da Associação Internacional de Psicologia Analítica. Educador, historiador e criador da Psicologia Simbólica Junguiana. Site: www.carlosbyington.com.br
Jung conheceu o pensamento de Freud possivelmente através da leitura da Interpretação dos Sonhos (1900), pois na sua tese de formatura em Psiquiatria – Sobre os Fenômenos Ocultos – citou-a três vezes. O encontro pessoal entre eles, que durou treze horas, em fevereiro de 1907, na casa de Freud, em Viena, foi, no entanto, o grande marco que os reuniu num fascínio recíproco até 1913. O cerne da sua relação emocional e transferencial criativa e defensiva foi provavelmente o complexo paterno de ambos. Freud, dezenove anos mais velho, aos 50 anos já havia edificado os pilares de sua obra monumental, que iria transformar a cultura com a introdução dos conceitos de inconsciente dinâmico e de evolucionismo psicológico. Seu problema, como judeu dentro da cultura alemã e médico neurologista formado na escola positivista de Helmholz, era a ratificação institucional dessas novas Psicologia e Psiquiatria, centralizadas na sexualidade, em uma tradição psiquiátrica na qual não militava e que era exercida dentro de uma cultura tradicionalmente cristã e moralista, com forte componente anti-semita. Nesse contexto, Jung tinha várias características para ser o filho ideal, herdeiro e divulgador da obra do pai. “… na noite em que eu o adotei como filho mais velho e o ungi in partibus infidelium (na terra dos infiéis) como meu sucessor e príncipe coroado…”, escreveu Freud em 1909 (Carta 139). Além de ser o chefe de clinica do famoso Bleuler, que acabara de cunhar o termo esquizofrenia, e de chefiar o Burghölzli, em Zurique, um dos grandes centros de psiquiatria da Europa, Jung era filho de um pastor protestante, ou seja, melhor goyn não se poderia encontrar. Jung, por sua vez, aos 31 anos, apenas começava sua extensa carreira. Somente havia escrito sobre questões psiquiátricas – o próprio tema do Espiritismo havia sido tratado como uma tese de Psiquiatria. O gigante, que nos 53 anos seguintes iria empregar o conceito de arquétipo para enraizar todos os fenômenos humanos, individuais e culturais, na imaginação criativa transcendente do instinto de individuação, era apenas um jovem médico psiquiatra muito inteligente e ambicioso. Todos os componentes psicológicos dos complexos, símbolos e arquétipos são bipolares. A principal constituição arquetípica bipolar do complexo paterno é a paternidade e a filitute paterna, expressas dominantemente nas imagens do pai e do filho. [2]

Por suas histórias de vida, podemos inferir que tanto Freud quanto Jung apresentavam limitações significativas resultantes de fixações dos seus complexos paternos mal elaborados. A problemática de Freud com o complexo paterno, como sabemos, propiciou a descoberta genial do seu Complexo de Édipo. Primogênito, com cinco irmãs e um irmão dez anos mais jovem, numa tradição patriarcal que supervaloriza o homem, com uma linda mãe apenas 21 anos mais velha que ele, era muito difícil não sentir atração por ela, dentro da afetividade. Ao mesmo tempo, o pai, 20 anos mais velho que sua mãe, um pequeno comerciante, era um rival frágil diante de sua ambiciosa vocação acadêmica na competição normal entre filho e pai. A vivência do anti-semitismo na sociedade vienense e a dificuldade de um pai de família judáica para enfrentá-la, exemplificadas na adolescência de Freud, quando seu pai contou-lhe que havia sido humilhado na rua por um grupo de rapazes anti-semitas, que chegaram a derrubar seu boné, e que não havia reagido, possivelmente também contribuíram para a desidealização mal elaborada da figura paterna (Jones, 1953, vol.1, p. 22). A morte do pai quando Freud tinha 40 anos e a satisfação e a culpa que sentiu junto com a dor marcaram o caminho para a descoberta genial do Complexo de Édipo em si mesmo. Mas daí a concluir que todos os meninos, ao nascerem, já tenham inevitavelmente a tendência incestuosa e parricida como o instinto central do Id, parece-me uma generalização descabida. A identificação de Freud com Édipo é impressionante, como ilustra um episódio relatado por Jones. No seu aniversário de 50 anos, os discípulos de Freud lhe presentearam com um medalhão, idealizado por Paul Federn, que trazia de um lado a sua imagem e do outro, Édipo diante da Esfinge, com a famosa frase de Sófocles: aquele que decifrou o famoso enigma e foi um homem extraordinariamente poderoso. Foi uma sincronicidade, pois, segundo Freud confidenciou muito emocionado aos presentes, ele, quando jovem, caminhando pelos corredores da Universidade de Viena, havia se deparado com vários bustos de antigos professores e fantasiado, exatamente com essas palavras, que um dia também seria célebre (Jones, 1953, vol.2, p.13). No entanto, seria essa identificação restrita exclusivamente ao lado genial e bem sucedido da personalidade de Édipo? Ora, sabemos que a celebridade de Édipo ocorreu muito menos por ter ele decifrado o enigma do que por ter matado o pai, praticado o incesto com sua mãe, ter tido quatro filhos com ela e ter se automutilado, cegando-se, ao sabê-lo. Édipo só se torna existencialmente sábio depois do seu repúdio à guerra entre seus dois filhos e da peregrinação ao Templo [3] das Eríneas, das Fúrias, descrito por Sófocles em Édipo em Colona, a última peça da trilogia. Somente aí ele se consagra e é finalmente conduzido por Teseus para o Além. O drama de Édipo nos transmite, então, um paradoxo que reúne a glória do intelecto coroada pela tragédia existencial.

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A homenagem dos discípulos com o medalhão deveu-se, certamente, à identificação de Freud com o lado da personalidade de Édipo que decifrou o enigma, mas, como relacionar com Freud o outro lado da personalidade de Édipo, que saiu da vitória intelectual para a mais fragorosa das derrotas no processo existencial? Para tentar responder a essa pergunta ameaçadora para a glória de um tão grande gênio, necessitamos penetrar mais fundo no mito da Esfinge. Ela é a própria imagem do incesto, concebida com outros monstros no imaginário mitológico do período pré-olímpico da cultura grega. Sua mãe é a dragão Echidna, amante do seu próprio filho, o cão Orthos, irmão do cão Kerberos, de três cabeças, que guarda a porta do Hades. Seu corpo com garras e cauda de leão, cabeça de mulher, asas de águia e unhas de hárpia, expressa a monstruosidade que representa o incesto quando ele ocorre dentro da família e da cultura edificadas sobre o tabu de incesto (Kerényi, 1959). Como bem descreveu Engels (1884), a partir da obra de Morgan (1861), a ausência do conhecimento da função paterna biológica na família grupal dos bandos caçadores-coletores impedia a existência do papel social do pai estabelecido na família patriarcal, que deu início à civilização. Emprego a terminologia matriarcal-patriarcal referindo-me a arquétipos que correspondem a padrões típicos de funcionamento da Consciência e não a uma organização antropológica da família, como fez Bachofen, ou mitológica, como fez Neumann (Byington, 2004).



Como formulei em minha Teoria Arquetípica da História (Byington, 1983), a dominância do Arquétipo Patriarcal que se seguiu à dominância do Arquétipo Matriarcal só se tornou possível com a conquista da moradia permanente e a fundação das cidades, ensejadas pela revolução agropastoril e pela estocagem de alimentos. Minha interpretação do significado da formação da família patriarcal, dentro da dominância histórica do Arquétipo Patriarcal, é que a organização social dela oriunda produziu naturalmente o tabu de incesto. Por conseguinte, o incesto e o parricídio tornaram-se imorais somente com a organização patriarcal da família e da cultura, que marcaram o início da civilização. Assim sendo, podemos supor que, no bando caçador-coletor, com organização familiar de dominância matriarcal, o estupro era habitual e a mulher provavelmente se relacionava com qualquer homem que a possuísse, independentemente do grau de parentesco.

O parricídio, por sua vez, não seria proibido [4] simplesmente porque a figura social do pai não existia. Desta maneira, com o passar das gerações, os filhos resultantes acumularam todos os papéis familiares. Do ponto de vista desta Consciência Coletiva, nessa fase da cultura, isso seria natural e não haveria monstruosidade alguma. No entanto, depois de estruturada a civilização baseada na família patriarcal e no tabu de incesto, esse relacionamento naturalmente indiscriminado e incestuoso tornou-se equivalente à monstruosidade e foi projetado, na Mitologia Grega, nas imagens de animais fantásticos que praticavam abertamente o incesto. Seguindo esta hipótese, a Esfinge seria a representação do incesto existente na dimensão matriarcal e que, na dimensão patriarcal da cultura, passou a ser vista como monstruosidade. Pelo fato de o tabu de incesto acompanhar a codificação da lei, podemos compreender a associação do incesto com o parricídio, pois ambos representam a transgressão máxima, respectivamente, da família e da sociedade patriarcalmente organizada. Nesse sentido, o símbolo da Esfinge, que vem punir Tebas pela degeneração dos costumes através do enigma do processo existencial intelectualmente decifrado por Édipo, inclui o incesto e o parricídio. A palavra Esfinge vem da Mitologia Grega, que denominava o monstro de Sphigks, talvez aparentado com o verbo sphiggo, que significa apertar e que originou a palavra esfíncter, em Medicina. Por isso, Kerényi interpretava o significado da Esfinge como “aquela que aperta”, ou seja, como “a estranguladora” (Kerényi, 1959). Dentro deste significado, podemos ver a Esfinge como a imagem arquetípica da fixação, genialmente descrita por Freud como o principal distúrbio da libido no processo de desenvolvimento. O enigma da Esfinge é a pergunta sobre qual é o ser que caminha de quatro, no início; de dois, no meio; e de três no final. Ao decifrar o enigma como sendo o ser humano na infância, na vida adulta e na velhice, ou seja, ao definir a vida como processo de desenvolvimento, a Esfinge despenca no fundo do abismo. Se ela representa o incesto e o parricídio, os dois principais distúrbios do amor e da agressividade no desenvolvimento, e se Édipo a vence para depois afundar no incesto e no parricídio, este paradoxo pode significar que ele aparentemente a vence pelo intelecto, mas que a vitória intelectual é ilusória, pois, na realidade existencial, ela retorna do fundo do abismo para derrotá-lo. A falsa vitória do intelecto sobre a Esfinge representa, assim, a onipotência da Consciência racional que, ao descrever a vida, acredita controlá-la.

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Pensamos imediatamente na razão coroada em Paris pelo Iluminismo, na Revolução Francesa, e que logo a seguir naufragou no Terror. Mas, aplicada à identificação de Freud com Édipo, podemos pensar também no fenômeno do [5] insight como a maior desilusão da Psicanálise. De fato, a descoberta dos processos inconscientes deu origem à crença de que a simples compreensão racional desfaria qualquer sintoma e traria a sua cura, da mesma maneira que Anna O. despertou curada da fobia de água quando, hipnotizada por Breuer, lembrou-se que sua fobia se iniciara quando vira o cãozinho de sua governanta bebendo água de um copo em cima da mesa. Tão iludidos quanto Édipo, inúmeros psicanalistas passaram a tratar fóbicos, depressivos, portadores de ansiedades graves, adictos, pessoas com distúrbios de personalidade e até esquizofrênicos buscando a cura pelo insight através de análises até seis vezes por semana e interpretações exaustivas. Passavam-se meses e até anos. As interpretações pareciam corretas. Os pacientes chegavam até a verbalizar para amigos e familiares quais eram seus principais complexos inconscientes, mas a cura não vinha. Tudo era explicado pela resistência, nada pelo erro na teoria. Como Édipo, pacientes e analistas afundaram na patologia e na compulsão de repetição, e a Esfinge acumulou cada vez mais vitórias. Até hoje, a Psicanálise não ampliou a sua técnica de elaboração simbólica para ultrapassar a interpretação exclusivamente verbal e empregar qualquer uma das inúmeras técnicas expressivas não verbais utilizadas fartamente na Psicologia Analítica e em inúmeras outras escolas de psicoterapia. Os gregos chamavam a onipotência de hybris, a arrogância dos homens que perdiam a justa medida e desagradavam aos deuses, sendo por isso castigados. A hybris de Édipo, do Iluminismo, da Psicanálise e da ilusão mágica do poder da palavra é arquetípica. De fato, o cogito cartesiano é vivenciado pela criança na própria aquisição da palavra: “falo, logo sou”. No entanto, é entre escorregões e quedas que ela aprenderá que é através das experiências da vida que “o Verbo se encarna”.

O enigma da Esfinge refere-se ao tempo e às etapas da vida. Como a genialidade de Freud descobriu e Édipo tragicamente aprendeu, é o processo de desenvolvimento existencial através das vivências que formam a Consciência, e não o contrário. Se Édipo houvesse compreendido o enigma que decifrou também na dimensão existencial e não apenas intelectual, talvez tivesse examinado melhor sua infância e a relação com seus pais em Corinto e descoberto a história real do seu processo existencial. Ao decifrar a Esfinge somente no nível intelectual e sentir-se onipotentemente conhecedor da verdade, Édipo teve que pagar o preço da tragédia para descobrir sua verdade existencial. Infelizmente, a Psicanálise está tendo que pagar a onipotência da interpretação racional com mais de um século de frustrações. [6] Precisamos lembrar sempre e de novo que Freud e Jung analisaram mutuamente alguns dos seus sonhos, mas que ambos nunca foram analisados. É de se esperar então que, apesar da genialidade dos dois, muitas de suas teorias apresentem defesas atuadas como racionalizações. Dentre essas defesas, podemos perceber a resistência em incluir as descobertas um do outro. Pela criatividade extraordinária deles, estas formulações teóricas podem conter grandes descobertas, mas, ao mesmo tempo, operam em seus processos existenciais como grandes defesas, exatamente como aconteceu com Édipo. O maior sintoma da atuação de suas defesas, no que diz respeito à relação entre eles, foi para mim a sua separação abrupta, em plena associação extraordinariamente criativa, sem nenhuma elaboração emocional e qualquer integração das suas diferenças. Perderam eles, por certo, mas, por serem os pilares da psicologia dinâmica, sua separação traumática afetou o campo da Psicologia de maneira fundamental. Ficaram polarizados no estudo do inconsciente pessoal e coletivo. Assim, não perceberam que a separação entre pessoal e arquetípico nem sempre existe, uma vez que a dimensão pessoal tem fundamentação arquetípica, a começar pelos símbolos do pai, da mãe e da criança bem como por todas as defesas descritas por Freud para formar o inconsciente pessoal. Por isso, devemos evitar acreditar que cada uma das teorias seja auto-suficiente e possa se desvincular das posições teóricas da outra, pois, quando assim fazemos, perpetuamos as limitações dos dois gênios e paralisamos a Psicologia nas suas fixações. São congressos como este que nos ajudam a perceber e a buscar ultrapassar as cisões e lacunas por eles deixadas. A meu ver, a principal conseqüência teórica da elaboração insuficiente do complexo parental de Freud foi sua descrição do Complexo de Édipo, genialmente descoberto em si mesmo, como normal e existente em todas as crianças. Qualquer analista principiante não teria a menor dificuldade em perceber a racionalização se alguém lhe dissesse que tem um problema, mas que todas as crianças nascem com ele. Essa racionalização confundiu extraordinariamente o normal com o patológico e toda a teoria do desenvolvimento da personalidade, ao postular que toda criança nasce perverso-polimorfa e precisa ser reprimida para sublimar seu Complexo de Édipo, formar seu Superego e civilizar-se. Este enfoque é muito diferente do enfoque arquetípico, que percebe a função estruturante do complexo parental com infinitas vivências de relacionamento entre cônjuges, pais e filhos, que, quando fixadas, podem originar o Complexo de Édipo, que Freud observou em si próprio. [7]



Ao abandonarmos a teoria do perverso-polimorfo, percebemos que, da mesma forma que a monstruosidade da Esfinge, esta denominação expressa o preconceito da dominância patriarcal sobre o matriarcal, identificada com o desejo parricida e perverso. No entanto, se admitirmos com Erich Neumann que a primeira infância é dominada pelo Arquétipo Matriarcal e que, a criança, assim como a cultura, ao passar para a segunda infância entra na dominância patriarcal, devemos teorizar como isso se faz sem a sublimação do perverso-polimorfo para formar o Superego. De fato, é forçoso admitir que a dominância matriarcal na primeira infância ocorre em meio a todas as fantasias possíveis, que incluem as tendências incestuosas e parricidas. No entanto, quando a criança passa pela educação esfincteriana, a aquisição da fala e a socialização, sob a hegemonia patriarcal implantada com a aquisição do tabu de incesto, da lei e da organização social, é necessário separarmos as transformações que trazem a sócio-sintonia e as fixações que as impedem e que geram distúrbios do complexo parental, como aquelas presentes no Complexo de Édipo. Quando imputamos à criança o dinamismo perverso-polimorfo e edipiano já ao nascer, patologizamos seu Id a priori e criamos grandes problemas teóricos e práticos para perceber a anormalidade inerente às fixações e defesas durante o processo de desenvolvimento de dominância matriarcal e da sua passagem para a dominância patriarcal. Quando assim fazemos, reduzimos o Arquétipo Matriarcal e o identificamos com o desejo imaturo e desregrado e também criamos enormes dificuldades para conceber o funcionamento exuberante e criativo do dinamismo matriarcal durante o funcionamento da dominância patriarcal na segunda infância e no resto da vida. Como tenho buscado demonstrar, a partir da adolescência os arquétipos da Anima e do Animus passam a operar dentro do Arquétipo da Alteridade, que conjuga a interação dialética do Arquétipo Matriarcal, com o desejo e a sensualidade, e do Arquétipo Patriarcal, com a organização e a lei. A dificuldade de Freud perceber o Complexo de Édipo como uma variedade patológica das inúmeras características do complexo parental impediu-lhe de ver o complexo parental como a primeira e principal imagem arquetípica das incontáveis polaridades que permearão a elaboração simbólica de todo o processo de individuação no decorrer da infância, da maturidade e da velhice, como indicava o enigma da Esfinge. Podemos dizer que, se de sua parte, Freud atuou o lado senex do complexo paterno, fixado no Complexo de Édipo, Jung, por sua vez, atuou o lado puer na mesma fixação. É fato conhecido como a relação de Jung com seu pai foi problemática desde o início da vida, [8] sobretudo em relação à posição dogmática da sua religiosidade. A esse respeito, a visão de Jung, na entrada de sua adolescência, é muito ilustrativa de seu complexo paterno negativo.

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Um dia, ao voltar da escola para casa, Jung teve uma visão de Deus defecando e espatifando a Catedral da Basiléia. Esta visão, que muito o abalou, foi por ele e por muitos junguianos interpretada como sua revolta contra a religião dogmatizada na busca do Deus vivo, que caracterizou sua religiosidade. Ao associarmos a Catedral da Basiléia com o símbolo maior do Protestantismo, do qual seu pai era ministro, e pensarmos que Jung estava entrando na puberdade, é inevitável relacionarmos sua visão com um complexo paterno intensamente negativo, que provavelmente se constelou na relação com Freud. “Eu o considerava uma personalidade superior, na qual projetava a imagem do pai” (Jung, memórias, Sonhos e Reflexões). É inegável que a discordância quanto à natureza sexual da libido, da qual Freud nunca abriu mão, foi o ponto teórico central da ruptura, mas só a carga emocional subjacente a ela pode explicar sua forma intempestiva e por que tantas outras características das duas obras foram mantidas separadas, quando muitas delas não o são.

A maior resistência da Psicanálise à teoria junguiana centralizou-se, a meu ver, no conceito de arquétipo. No entanto, nenhum psicanalista nega que as funções psíquicas como a projeção, a introjeção, a identificação e todas as funções descritas como mecanismos de defesa, como a repressão, a formação reativa, a transferência, a resistência e a compulsão de repetição inexistam em algum ser humano ou em qualquer cultura isto é, que elas sejam arquetípicas. De fato, o conceito de inconsciente coletivo e de arquétipo é não só compatível como subjacente à teoria psicanalítica. Caso essas estruturas fossem aceitas como arquetípicas, seria muito mais fácil vê-las operando ora na normalidade e sem fixações, ora defensivamente, com fixações, o que as caracterizaria como funções estruturantes arquetípicas. Nesse caso, elas operariam normalmente na Consciência, como funções estruturantes não-fixadas, ou no inconsciente reprimido, como funções estruturantes fixadas e defensivas, reunindo as duas obras em torno da transferência. Quando lemos a Psicologia da Transferência, de Jung, e a comparamos à transferência neurótica, descrita por Freud, achamos, à primeira vista, que uma não tem nada a ver com a outra. No entanto, se as reunirmos como funções estruturantes arquetípicas, a de Jung, criativa, e a de Freud, defensiva, percebemos claramente que as duas se complementam extraordinariamente bem para explicar o relacionamento humano normal e patológico: a transferência criativa de Jung, [9] aplicada à busca do desenvolvimento pleno na Individuação, e a transferência defensiva de Freud, aplicada à fixação e à projeção das defesas. Da mesma forma, a percepção arquetípica da cena primária, do complexo de castração e da compulsão de repetição também podem expandir seu valioso conteúdo para o contexto existencial individual e coletivo e sair do redutivismo dentro do qual costumam ser empregados. A reação teórica de Jung à ruptura também foi muito significativa, a começar por haver descrito o funcionamento dos arquétipos e todo o processo de individuação somente na segunda metade da vida, sem ter nada a ver com a formação do Ego.

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Coube aos seguidores de Jung, como Jolande Jacobi, Michael Fordham e Erich Neumann descrever a formação do Ego a partir dos arquétipos e o processo de individuação desde o início da vida. A falta de percepção de Jung para a formação arquetípica do Ego antes dos seus seguidores aparece, assim, como uma possível reação fóbica à obra de Freud. Outra grande limitação da Escola Junguiana me parece ser o problema da formação e da natureza da Sombra, oriundo da relutância em incorporar a genial descoberta de Freud da fixação e da formação das defesas. Nesse sentido, a teoria dos complexos da Psicologia Analítica ficou muito aquém da teoria das defesas da Psicanálise para descrever a Sombra e o Mau na Psique. Tivesse Jung empregado a noção de fixação e de defesa à sua teoria dos complexos, não teria reduzido a Sombra ao mesmo sexo do Ego e os símbolos do sexo oposto aos Arquétipos da Anima e do Animus. Essa relutância tem a pertinácia das defesas de cunho emocional e limitou muito a psicopatologia e o estudo da ética na Psicologia Analítica e a própria interpretação de Jung dos fenômenos históricos e, sobretudo, do Cristianismo. Apesar de a Psicanálise ter, freqüentemente, confundido o normal e o patológico, a começar pela descrição do Complexo de Édipo e da recomendação de sua repressão para sublimá-lo e formar o Superego, o conceito de fixação aliado ao de defesa, sobretudo ao da resistência e da compulsão de repetição, são contribuições centrais arquetípicas para a formulação da psicopatologia psicodinâmica, ou seja, daquela que considera a importância dos processos inconscientes. Ao não incorporá-las sistematicamente na formação da Sombra, a Escola Junguiana freqüentemente reduz a Sombra ao que é incompatível com a Persona e a Consciência com o mesmo gênero do Ego. Essa perspectiva, no entanto, presta-se a enorme confusão teórica quando se interpreta símbolos valiosos da Sombra, caso em que ela é tida como positiva, em contraposição a situações em que ela é julgada [10] negativa ou destrutiva. Quando levamos em conta o fenômeno da fixação na formação das defesas, da compulsão de repetição, da resistência e da Sombra, isso não faz o menor sentido, posto que todos os símbolos e funções fixados na Sombra têm valor, são bissexuais e necessários ao processo de individuação. O mesmo acontece na concepção da ética e do Mal, que Jung tanto valorizou, mas que, ao deixar de lado os conceitos de fixação e de defesa, tornou-os, em muitos casos imprecisos e confusos. Assim, Jung formulou muitas vezes a ética, situando-a em função do processo de individuação, mas sem precisar suas disfunções e como se forma o Mau. No seu livro Aion chegou mesmo a falar do Mau Absoluto, mas sem fundamentá-lo cientificamente. Em meio a essa confusão conceitual, para enfatizar sua crença na existência do Mau, Jung empreendeu uma verdadeira cruzada contra a Doutrina do Summum Bonum da Teologia Católica, que afirma Deus ser bom e o Mau ser a Sua privação (privatio boni).



Ora, quando admitimos a Sombra como o Mau, originada nas fixações da elaboração simbólica, vemos claramente que ela não está nem no arquétipo nem no genoma ao nascer, e sim, que ela se forma como uma fixação do arquétipo (Privatio Boni) durante o desenvolvimento. Nesse caso, o Arquétipo Central, que dá origem à imagem de totalidade expressa pelo conceito de Deus nas religiões, tem o potencial para a realização plena (Summum Bonum) e é a sua disfunção durante a elaboração que gera a Sombra e o Mau. Outra conseqüência séria na obra de Jung pela falta de adotar o conceito de fixação e de defesa, apesar de ele tê-los conhecido fartamente com Freud, foi a sua dificuldade de assinalar e diferenciar claramente os aspectos positivos e negativos nos fenômenos culturais, aproveitados com má-fé, por exemplo, por aqueles que quiseram vingativamente desqualificar Jung com a pecha de anti-semitismo por haver deixado a Psicanálise. Esta limitação custou caro a Jung em muitos mal-entendidos graves, como foi, por exemplo, sua interpretação arquetípica do Nazismo através da imagem arquetípica guerreira de Wotan. Não há dúvida que ela existiu dentro do militarismo tradicional da Alemanha, mas deixar de computar junto com essa imagem a terrível fixação psicopática histérica que caracterizou a personalidade de Hitler e o Nacional Socialismo deu margem a que ele fosse injustamente massacrado com a acusação de anti-semitismo e de simpatizante do Nazismo. A interpretação do Cristianismo, junto com sua crítica e apologia, foi um tema precioso, tratado extensamente por Jung durante sua obra. A falta do emprego das diferenças entre as funções psíquicas não-fixadas e fixadas, mais uma vez prejudicou muito suas ponderações, porque considerou como uma coisa só e não diferenciou entre a pujança [11] criativa do Mito original e a patriarcalização fixada e defensiva do Mito durante sua institucionalização, que tanto o deformou a ponto de a Igreja criar a Inquisição, que torturou e assassinou em nome do Messias da compaixão. Tivesse Jung acolhido e empregado os conceitos de fixação e de defesa descobertos por Freud, teria certamente analisado melhor os inúmeros temas culturais que abordou, inclusive sua divergência básica com seu pai, localizada entre a posição dogmática, estagnada, fixada e defensiva da instituição e a posição mística viva e pujante do Mito, ambos como expressões do Cristianismo.

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Referências Bibliográficas

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ENGELS, Friedrich (1884). A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.

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