sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Indisciplina X Disciplina

INDISCIPLINA X DISCIPLINA Mônica Nogueira da Costa Figueiredo Sumário Indisciplina x Disciplina: a relação com a escola e com a vida Resumo Disciplina não é algo inerente do ser humano ninguém nasce disciplinado, mas é importante tentar entender algumas coisas sobre a indisciplina e a disciplina, para podermos tornar este assunto mais fácil de lidar. O principal é percebermos qual é o maior problema que envolve o tema “indisciplina”. Por que este assunto nos incomoda tanto? A que a indisciplina pode levar? Algumas questões devem ser pontuadas para que as respostas possam ajudar a chegarmos a algum lugar. Introdução Por que existem pessoas indisciplinadas e outras disciplinadas? O que é a disciplina? O que fazer? Estas são algumas questões que aparecem quando este tema é abordado e acabam gerando uma grande ansiedade nas pessoas que estão envolvidas na história: filhos/alunos; pais/professores. Disciplina é uma questão contínua. Não se deve pensar que porque as regras já foram apresentadas, está terminado o trabalho. Enquanto o sujeito ainda não adquiriu um comportamento de entendimento sobre o que está vivendo ou vendo importância naquilo que foi demonstrado, não vai seguir ou utilizar aquelas regras em sua vida. Isto explica porque um sujeito é indisciplinado e o outro não. As pessoas são diferentes. Alguns acreditam que as normas apresentadas são importantes e outros, não. Ao falar de indisciplina, em primeiro lugar temos que pensar no sujeito e não focar na questão disciplina. A proposta, então, é fugir deste foco e tentar entender um pouco o sujeito. Para querer que as pessoas obedeçam às regras, é preciso haver explicação das mesmas para que possam ser compreendidas. É inevitável o questionamento delas ou desobediência, em algum momento, quando vêm impostas sem nenhuma explicação. Acabam provocando um estranhamento. Para tentar responder as questões apresentadas no início, e outras, elas serão separadas, na tentativa de serem esclarecidas aos poucos. Por que a indisciplina do nosso filho/aluno nos incomoda tanto? A maior preocupação de pais e professores, ao encararem este problema é a consequência desta ação. A indisciplina pode levar o sujeito ao desajuste social e/ou ao fracasso escolar. Temos que perceber que o nosso filho/aluno é um cidadão com direitos e deveres. Devemos criar metas, dentro da educação, para segui-las. Pensar o que é mais importante e quem é este pequeno cidadão que convive conosco. Esta é nossa missão. Prepará-lo para o convívio social é um dos objetivos da educação. Por isso, é tão importante que ele entenda as regras e possa estar com os outros. Realmente, é difícil que o sujeito consiga conviver com outros sem respeito aos limites e sem criar disciplina de convivência. Ao mesmo tempo imaginamos que sem participar do meio ele vá apresentar dificuldades de aprendizagem por falta de concentração e organização. Esta questão pode existir ou não. Existem vários casos de crianças que são indisciplinadas, mas que conseguem desenvolver um bom método de aprendizagem. Muitas vezes, o aluno até por não se sentir desafiado pelo sistema escolar, torna-se indisciplinado. Por que existem pessoas indisciplinadas e outras disciplinadas? Algumas pessoas nunca poderiam ser modelo ou ginasta. Nem por isso, podem ser consideradas pessoas indisciplinadas dentro da sociedade, por não conseguirem seguir as regras destas profissões. Com certeza, elas serão disciplinadas dentro das profissões que escolheram e que estão de acordo com as exigências. Então, por que generalizamos com as crianças? O que temos que pensar é: Isto que ele está fazendo atrapalha ou atrapalhará sua vida? A professora Zuleide Rodrigues escreveu em seu artigo, no site “pedagobrasil”, o seguinte: “As atitudes comportamentais vão se formando gradativamente a partir do nascimento por meio de diversos paradigmas, institucionais ou não, em sua maioria com a imposição de valores, de fora para dentro, obrigando a uma passividade que crianças e jovens não se predispõem a aceitar”. A importância das regras, ao serem interiorizadas pelo sujeito, faz com que ele as siga e perceba o quanto o seu envolvimento é importante. Vindo de fora para dentro só cria pessoas que não as seguirão. Ao fazer escolhas, a compreensão das regras é fundamental, pois caso não concordemos, estaremos cientes que não estamos fazendo a escolha certa. Ao nos adaptarmos às normas é sinal que concordamos e por isso iremos segui-las. Podemos, então, entender que ser disciplinado significa que concordamos e por isso conseguimos seguir as regras sem problema. A situação complicada surge quando não concordamos e estas normas são generalizadas e servem para todos. Isto ocorre, por exemplo, dentro da sociedade onde são para todos. Desta forma, temos que compreender que a obediência deve ocorrer para que não vire um caos, mas também perceber nosso papel nesta sociedade a ponto de podermos nos colocar e emitir nossas opiniões. Trabalhar as normas desde que somos pequenos facilita o seu entendimento e o porquê ela existe. O que é a disciplina? A revista Nova Escola, de julho de 2005, apresentou uma entrevista com o professor Lino de Macedo, sobre “disciplina”. Lá ele fala sobre a origem da palavra: “Em sua origem, a palavra disciplina tem a ver com discípulo. Discípulo é uma pessoa que tem alguém como modelo e se entrega pelo valor que atribui a essa pessoa. Com o tempo, perdeu-se o elemento de referência que havia antigamente. Isso tem de ser novamente conquistado, pouco a pouco, pelos dois lados.” Desta forma, vale pensar qual é o nosso exemplo. De que maneira nós levamos nosso dia a dia, com ou sem disciplina? Todos os dias, seguimos as mesmas regras? Se somos capazes de mudá-las de acordo com nossas conveniências, vale a pena prepararmos as crianças para esta mobilidade também. Nesta entrevista é perguntado o seguinte para ele: “Qual o principal erro da escola em relação à disciplina?” E ele responde: “É pensar que existe um único tipo de disciplina e que ela só pode ser imposta.” Devemos tomar cuidado com as regras rígidas. Será que nós suportamos estas regras? Então, imaginem uma criança, ou pior, um adolescente. As questões de disciplina variam: entre famílias; profissões; trabalhos; pessoas etc. Por isso, não podemos responder o que é disciplina. Talvez o que queiramos é: Pessoas responsáveis (cumpridoras de seus deveres e dos horários) Pessoas críticas que saibam colocar seus pensamentos Pessoas que saibam respeitar os outros. O que fazer? Tânia Zagury (2000) coloca que: “Ao longo dos anos, se os acostumarmos a serem “comprados”, “subornados” ou “chantageados” eles aprenderão a agir desta forma calculista; se, ao contrário, lhes dermos nosso carinho e aprovação, eles terão o seu ego fortalecido, sua auto-estima elevada e, a cada dia, sentirão mais prazer em agir de forma adequada.” Deve ficar claro o que estão ganhando e perdendo, na vida, caso façam ou não façam suas tarefas. Não devemos tirar o futebol, televisão, computador etc, como primeiro recuso, caso não cumpram; ou o contrário, caso cumpram, ganharão. Isto é tratá-los como animais domesticados. “Ganha um biscoitinho se pular direitinho pelo arco”. Claro que valorizar os atos que foram corretos é essencial. Isto envolve elogios, palmas e “festa”. Nunca se pode gerar uma expectativa de que haverá um ganho material por um comportamento de “obediência”. Por que não criar, juntos, as regras que mostrem as coisas mais importantes a serem seguidas? Juntos, eles também criarão comprometimento com o que é estabelecido. Eles devem entender que irão estudar, irão à escola e farão suas atividades caseiras e que isto tem importância. Só que isto pode ser harmonizado, permitindo que eles organizem também os seus horários. Afinal, se a preocupação é justamente que eles possam estar inseridos em uma sociedade, como podemos transformá-los em pessoas que aguardam algo por suas atitudes e não pessoas que agem de forma consciente e crítica. Conclusão Não é receita de bolo o que devemos fazer para buscar a disciplina, mas podemos enumerar algumas coisas num pequeno resumo daquilo que apareceu como o mais importante de tudo e foi citado: Conheça seu filho/aluno. Perceba que ele pode ser diferente de você. Converse com ele, não dê apenas “broncas”. Faça com que ele entenda quais são os direitos e os deveres. Permita que ele participe ativamente do processo de organização do seu dia e semana. Dê exemplo através de seu comportamento. Crie você a disciplina com relação ao seu filho. Ele deve perceber que você está dando importância a ele e que também existirão cobranças. Cumpra o que fala. A criança precisa perceber que, se falam algo, que deve ser feito, deve haver cobrança, senão ela relaxa. Um exemplo é o professor que não cobra o trabalho de casa, fazendo com que esta tarefa perca o valor. Pense duas vezes antes de fazer uma ameaça, para quando ela for feita, realmente seja cumprida. Enfim, perceba-se e veja o que foi fácil e difícil para você. Veja o outro, respeitando-o, desta maneira será fácil o diálogo e também respeitar os direitos das crianças. Não pense que disciplina e limite devam ser impostos, eles devem ser trabalhados e internalizados. Só assim serão compreendidos e respeitados. Zagury termina seu livro fazendo um levantamento de “regrinhas” importantes para que haja um bom resultado o desenvolvimento dos limites. Uma das ideias que ela levanta é: “... não espere que seu filho compreenda, aceite e se comporte além do que as necessidades da idade permitem.” Com esta ideia finalizo, para que possamos pensar no que vamos fazer daqui para frente. Bibliografia Referências Bibliográficas: MACEDO, Lino de. Fala, Mestre!. Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/0183/aberto/mt_73655.shtml. Acesso em: 3 de julho de 2005. RODRIGUES, Zuleide Blanco. Indisciplina, Mal dos Tempos!. Disponível em: http://www.pedagobrasil.com.br/pedagogia/indisciplina.htm. Acesso em: 3 de julho de 2005. ZAGURY, Tânia. Limites sem Trauma: construindo cidadãos. Rio de Janeiro: Record, 2000. Publicado em 08/11/2011 15:15:00 Currículo(s) do(s) autor(es) Mônica Nogueira da Costa Figueiredo - (clique no nome para enviar um e-mail ao autor) - Pedagoga; Psicopedagoga; Professora do Departamento de Educação da Universidade Gama Filho, professora da Disciplina Informática Educativa para o curso de Letras e Pedagogia; Professora de Psicopedagogia Institucional pela Universidade Castelo Branco. Outras obras de Mônica Nogueira da Costa Figueiredo O computador como elemento agregador no ambiente escolar Informática com uma abordagem psicopedagógica

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Programa televisivo

PROGRAMA TELEVISIVO

Vanessa T. da Soler e Rafael S. de Guimarães

Sumário

Concepções de gênero transmitidas pelas brincadeiras de um programa televisivo direcionado ao público infantil. Conceptions of genders transmitted through childrens' plays on a tv show directed to the infantile public
Resumo
A construção dos gêneros depende das características impostas culturalmente para eles, já que juntamente com o sexo há uma série de comportamentos, interesses, características afetivas que são culturalmente impostos aos homens e às mulheres. São abundantes as produções da mídia e da cultura que transmitem essas concepções, e servem de instrumento para a dominação, selecionando quais conteúdos serão ditos e conhecidos pelo seu público. Nosso objetivo neste trabalho foi verificar quais são as concepções de gênero transmitidas pela mídia televisiva direcionada ao público infantil. Verificamos que as concepções de gênero são transmitidas de formas sutis ao público do programa. Por vezes, apreendem idéias mais atuais, caracterizando as meninas como guerreiras e ativas. Outras vezes reforçam as idéias referentes à hierarquia de gênero, em que os homens seriam mais capacitados para o desenvolvimento de algumas atividades.
Descritores: Mídia televisiva, relações de gênero, ideologia, público infantil.
Abstract
The building of genders depends on the characteristics culturally imposed. Along with sex, there are a series of behaviors, interests, affective characteristics also culturally imposed on men and women. Media and cultural productions that transmit these conceptions abound and function as instruments for domination, selecting what will be said or known by its public. Our aim was to verify what on television is directed to children. We have found out that the conceptions of genders are subtly transmitted to children. Sometimes they learn more current ideas, and we see girls playing warriors, being active, sometimes those conceptions only reinforce the hierarchy of genders, with men seen as more capable of developing some activities.
Key words: television, gender relations, ideology, infantile public.

I Introdução
As discussões em gênero tinham pouca expressão quando se iniciaram. Para atingirem os níveis atuais, foram necessárias a crise da Psicologia Social e também as pressões dos movimentos feministas que se consolidaram há poucas décadas.
As manifestações contra a discriminação feminina tiveram uma maior visibilidade na virada para o séc XX, época em que a mulher começou a “existir socialmente, a falar, a escrever, a votar [...] a mulher estaria começando a existir ‘para si’” e quando a idéia de direitos iguais entre homens e mulheres impulsionou uma mobilização em países da América do Norte e da Europa. Ocorreu, então, o chamado ‘sufragismo’, reivindicação feminina quanto ao direito de votar, algumas vezes somada à oportunidade de estudo e à própria organização da dinâmica familiar. Este movimento corresponde à primeira onda do movimento feminista, e estava ligado aos interesses das mulheres brancas e de classe média. Após uma certa acomodação, ocorre, no final da década de 60, a segunda onda do feminismo, e se caracteriza pelas construções teóricas das estudiosas e militantes, e dos críticos do movimento . A partir daí, originou-se e questionou-se o conceito de gênero.
As vertentes que surgiram da segunda onda do feminismo concordam que em termos políticos as mulheres ocupam posições sociais subordinadas em relação ao domínio masculino. A subordinação feminina é pensada como algo relativo à época histórica e à cultura que está sendo estudada, porém é encarada como algo universal, já que está presente em todas as partes do mundo e em todos os períodos históricos conhecidos .
Quando o controle social e o poder sobre o trabalho são associados à masculinidade, temos a hierarquia de gênero. Até pouco tempo atrás o patriarcado prevalecia como forma de hierarquia de gênero, a mulher passava do domínio do pai para o domínio do marido, podendo expressar alguma forma de poder no papel de mãe, diferente do papel de esposa ou filha, aos quais deveria ser subordinada. Hoje a autoridade e o poder social se identificam por atributos considerados como masculinos.
Algumas teorias explicam a subordinação do gênero. Segundo Strey , as teorias ligadas à sociobiologia atribuem a dominação masculina à seleção natural, na qual a mulher se submeteria ao homem que melhor ajudaria na criação dos filhos. Ela é quem deveria preservar seus óvulos, escolhendo um parceiro mais adaptado às condições da época, de forma que os filhos herdassem dele estas características biológicas e, para convencê-lo, a mulher se submeteria a ele. As teorias estruturalistas alegam que as mulheres têm menor status, pois são associadas ao domínio doméstico, já os homens, ao domínio público. A subordinação também pode ser baseada nas origens humanas. Segundo estas teorias, há dois milhões de anos os homens eram encarregados da caça e as mulheres eram naturalmente mais voltadas para a maternidade e para a família, então dependeriam deles para se alimentar. A autora expõe ainda que “não existem provas suficientes nesse sentido para dar sustentação a teorias deste tipo” .
A distinção entre gênero e sexo, iniciada pelas feministas anglo-saxãs, visava “rejeitar um determinismo biológico implícito no uso de termos como sexo ou diferença sexual” . Gênero não está relacionado às diferenças sexuais, mas ao que é socialmente construído a partir destas diferenças. Segundo Strey gênero “depende de como a sociedade vê a relação que transforma um macho em um homem e uma fêmea em uma mulher” e das relações de poder existentes entre homens e mulheres.
O sexo biológico não determina comportamentos, interesses, estilos de vida, características afetivas, emocionais e intelectuais, mesmo que traga o estigma de que, se a criança recém nascida for menina receberá influências que buscarão adaptá-la aos comportamentos ‘de menina’, deverá constituir seu desejo, seu discurso, sua posição de desejante, através dessa mínima diferença, como coloca Kehl :
Somos desde o início e para sempre ‘homens’ ou ‘mulheres’ porque a cultura assim nos designou e nossos pais assim nos acolheram, a partir da mínima diferença inscrita em nossos corpos, com a qual teremos de nos haver para construir, isto sim, o desejo, a posição a partir da qual desejamos, o objeto que haveremos de privilegiar e o discurso a partir do qual enunciaremos nossa presença no mundo.
Nolasco também concorda com esta posição. Para o autor, quando uma criança nasce além de expectativas há o espaço para a realização dos desejos dos pais. Do menino espera-se ação e da menina, recato, recolhimento. O ponto de partida para a diferenciação dos comportamentos são os genitais e através deles se delineará a subjetividade dos indivíduos.
As relações vivenciadas pelos sujeitos, homens e mulheres, se dão no campo do social, e é nele, portanto, que se constroem os gêneros. Do mesmo modo, verificamos que o gênero afirma o aspecto relacional existente entre homem e mulher, em que o entendimento de qualquer um dos dois não pode ocorrer se o outro não for considerado, por isso a necessidade de verificar como ambos foram e são construídos socialmente. Para entendermos gênero, devemos buscar como o homem e a mulher foram socialmente construídos, mesmo sabendo que essa construção toma como base o ângulo masculino para interpretação da realidade, tornando-se uma visão excludente e unilateral. Além do caráter relacional, as concepções de gênero também afirmam as relações de poder existentes entre seus diferentes papéis.
Chamamos a situação “na qual o poder e o controle social sobre o trabalho, os recursos e os produtos, são associados à masculinidade” de hierarquia do gênero. Pessoas de ambos os sexos podem desempenhar funções onde o poder está explicito, porém esta função permanece sendo masculina. Essa distinção e a não capacidade de desempenhar funções são passadas ideologicamente aos integrantes da sociedade.
Segundo Chauí entendemos por ideologia um sistema de idéias e normas construído em separado das condições materiais, e que, sem perceber, seus produtores, os ideólogos, teóricos e intelectuais, exprimem esta desvinculação. Assim as idéias aparecem como separadas do mundo, mesmo que o expliquem, quando na verdade os pensadores que estão distanciados do mundo material e por isso suas idéias revelam tal separação. A autora argumenta que esta contradição entre as idéias e o mundo social também é uma conseqüência do próprio mundo social ser contraditório e pelas reais contradições permanecerem ocultas, pois são relacionadas às forças produtivas e as relações de poder.
A ideologia, portanto, “é um dos meios usados pelos dominantes para exercer a dominação, fazendo com que esta não seja percebida como tal pelos dominados” . A existência e a manutenção da ideologia se dão pelos seguintes fatores: a) a separação entre trabalho intelectual e trabalho material (pensadores e trabalhadores); b) o fenômeno de alienação, ou seja, a não percepção dos homens de que as condições reais de existência são produzidas por eles, e de que eles são produzidos por estas condições, atribuindo, então, a origem da vida social a forças independentes e superiores às suas, como deuses, o destino ou o próprio Estado; c) a dominação de uma classe sobre a outra:
A ideologia nasce para fazer com que os homens creiam que suas vidas são o que são em decorrência da ação de certas entidades [...] que existem em si e por si e às quais é legítimo e legal que se submetam [...] a ideologia cristaliza em verdades a visão invertida do real. Seu papel é fazer com que no lugar dos dominantes apareçam idéias “verdadeiras” [...] que tais idéias representam efetivamente a realidade [...] e que essas idéias são autônomas (não dependem de ninguém) e que representam realidades autônomas (não foram feitas por ninguém).

Segundo Kellner muitos críticos propuseram que o conceito de ideologia se estendesse a teorias e idéias que legitimem os interesses de forças dominantes nos termos de sexo e raça também, como o de classe. A ideologia então mobiliza “sentimentos, afeições e crenças para induzir anuência a certos pressupostos nucleares dominantes acerca da vida social [...] esses pressupostos nucleares, o “senso comum” de uma sociedade, são mobilizados por grupos” . Portanto não há uma só ideologia, mas há pressupostos que os grupos políticos movimentam e colocam em ação.
Quando se diz que a ideologia está relacionada com a existência da luta de classes/grupos sociais é porque um de seus papéis também é mascarar esta luta. Assim, quanto mais se ocultar a origem da divisão social e esta luta de pressupostos dos grupos, maior será o poder e a eficácia da ideologia.
Para Kellner uma ampla variedade de produções de mídia, cultura e comunicação serve de instrumento de dominação e oferece recursos para a resistência e para a mudança. Chouliaraki propõe que o diálogo público, inclusive o exposto pela televisão delimita conteúdos que devem ser ditos e conhecidos, e estabelece tais conteúdos como verdadeiros em detrimento de outros. Ou seja, a mídia televisiva seleciona os conteúdos que lhes serão úteis para a dominação e para a reprodução das idéias em voga e os transmitem ao público.
Podemos falar em cultura midiática quando reconhecemos o fato de que a maioria da população é socializada pelo sistema midiático-cultural desde sua mais tenra infância. Essa característica aponta para “a função pedagógica da mídia como a grande (des)educadora das massas e da infância” .
Os produtos da indústria cultural, como o rádio, a televisão, o cinema “fornecem os modelos daquilo que significa ser homem ou mulher, bem-sucedido ou fracassado, poderoso ou impotente [...] ajuda a modelar a visão prevalecente de mundo e os valores mais profundos” . O autor continua argumentando que a cultura contemporânea é dominada pela mídia, que aos meios de informação e entretenimento exercem a dominação, nos ensinando como pensar, sentir, se comportar, agir e em que temer. O modelo então é repassado ao público, que está saturado devido à enxurrada de influências vindas de todos os lados dos meios de comunicação.
A cultura midiática reorganiza a percepção do espaço, do tempo e das relações e as difundem. Verificar a dimensão da influência dos veículos da indústria cultural não é difícil, já que conforme Moreira “todas as expressões culturais, como a arte, as manifestações populares, a literatura, a política, a religião etc., passam ou acontecem por meio da mediação desse sistema de transmissão simbólica”.
Alguns aspectos que modificam a percepção da realidade são: o “contexto cultural, a história pessoal e familiar, classe social, gênero, idade, disposições herdadas etc” . O contexto cultural nos oferece uma abertura para discutirmos sobre a cultura midiática. Nela a realidade é filtrada e se oferece ao público uma percepção “altamente fragmentada, efêmera e impessoal, imersa no ambiente cultural da propaganda e do marketing” que na realidade estão interessados no consumo de suas mercadorias, sejam elas concretas e materiais, ou culturais. Os símbolos que utiliza, os valores, imagens e mensagens são cobertos por um poder, que pode ser ideológico na medida em que cria ou recria formas de dominação, seja ela sutil ou explícita.
O autor acredita que os meios de comunicação exercem uma função pedagógica que visa transmitir aos indivíduos os princípios de funcionamento do mundo, não desconsiderando outras instâncias, como a família, a escola e a religião. Considera que a propaganda pode traduzir a essência dos meios de comunicação já que é o principal financiador destes, e que a mercadoria da mídia possui uma correlação com os conteúdos veiculados pela publicidade já que também visam ao consumo.
Carmem Caldas-Coulthard argumenta que os anúncios publicitários, em particular, além de predispor seu público a adquirir um produto, também reforçam ou veiculam concepções de gênero e sociais. A publicidade então, é configurada como uma forma educativa, pedagógica, mas que se distingue das instituições de ensino devido ao seu apelo à emoção e ao desejo.
Verificamos então que a mídia tem um papel importante na introjeção de idéias e modos de pensar de seu público. Como nossos pais também estão inseridos nesta cultura, eles acabam por transmitir sua maneira de pensar e agir, influenciada pela mídia desde sua infância. A própria televisão tem programas voltados ao público infantil que além de entreter, acabam por disseminar, ideologicamente, os modelos de pensamentos e comportamentos a serem seguidos.
Segundo Perroti algumas visões, ajustadas a ótica do sistema econômico que organiza nossa sociedade, enfocam a criança como um ser culturalmente passivo, já que vista por esta maneira de organização, o adjetivo ativo é relacionado àquele que produz para o sistema, que o mantém e o reproduz. “E como esse sistema necessita de uma contrapartida cultural, reconhece-se enquanto tal somente aquilo que serve a ele, a cultura sendo, pois, confundida com a cultura dominante, a cultura do sistema” . O autor continua expondo que mesmo que grande parte dos elementos da ‘cultura infantil’ provenham da ‘cultura dos adultos’, eles podem ser incorporados ao universo cultural das crianças enquanto desaparecem da cultura de origem (a dos pais ou antepassados). Estes elementos sofrem modificações, mas continuam a exercer uma função no grupo social que os mantém.
Ainda segundo o mesmo autor, verificamos que a criança atua na cultura, mesmo que seu trabalho não seja reconhecido, pois como visto anteriormente, “na sociedade capitalista somente os que produzem e reproduzem o sistema econômico são passíveis de reconhecimento, de identificação” . Porém ao verificar que os veículos de comunicação transmitem conteúdos ideológicos culturais que devem ser reproduzidos e mantidos, constatamos que a criança atua, no momento em que acata as idéias impostas e as reproduz.
Esta dicotomia passividade/atividade pode ser transposta para a relação da criança com a indústria cultural. Em que momentos a criança pode ser ativa ao assistir televisão? Como ela pode ser ativa em relação aos veículos de comunicação se todos transmitem a mesma visão (hierarquizada) da realidade?
Somado ao fato da passividade diante dos meios de comunicação e dos conteúdos transmitidos por eles, vemos que o mundo da criança sofreu sérias conseqüências com a modernidade, que trouxe consigo o próprio conceito de infância e seus posteriores desdobramentos na cultura do consumo: seus espaços de desenvolvimento foram pouco a pouco retirados, a rua, o jardim, o espaço livre, o lúdico, devido à transformação do mundo na era pós-industrial. É por este motivo que se oferece “à criança, como substituição, a possibilidade de ela viver através de produtos culturais aquilo que lhe é negado no real” . Verifica-se também que pela primeira vez na história da humanidade as crianças estão em lares onde a televisão fica ligada, em média, sete horas por dia . Negar espaços e formas de brincar à criança, não é apenas negar a brincadeira. É negar atividades básicas de desenvolvimento do ser humano.
A criança, como sabemos, expressa suas fantasias, desejos e experiências através de jogos e brinquedos. Além disso, segundo Winnicott “é no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o seu self”. Sendo assim, ocorre uma sofisticação da representação do contexto social em que a criança vive, visto que pelo brinquedo acontecem os acertos e erros, as adaptações, as soluções de problemas, que vão torná-lo sujeito autônomo.
O autor argumenta que a importância do ato de brincar e do lúdico era observada na Antiguidade e ultrapassou os tempos, permanecendo nas culturas atuais. Os jogos e brincadeiras têm um caráter universal. Com a modernidade e o uso em grande escala do computador, surgiram os jogos virtuais, que atualmente mantêm a atenção das crianças para si, confirmando a modificação do espaço oferecido para a criança brincar.
Machado expõe que brincar também é explorar o mundo por meio de objetos, principalmente as brincadeiras sem regras rígidas. Poder, através do brinquedo, transformar e dar formas a matérias, proporciona às crianças instrumentos úteis para um crescimento mais saudável. “Brincar é, para a criança pequena, o que trabalhar deveria ser para o adulto: fonte de autodescoberta, prazer e crescimento” .
Transmitir conteúdos ideológicos para a criança de hoje através de uma cultura midiática voltada para ela é saber que quando adulta já terá introjetado esta maneira de ver o mundo e não estranhará a relação entre exploradores e explorados, a cultura do consumismo e os demais elementos transmitidos. Fazer com que estas crianças consumam, ou desejem consumir hoje, é torná-las consumidoras certas quando adultas.
A mídia não transmite somente conteúdos econômicos. A publicidade ainda baseia-se em velhos padrões da sociedade patriarcal, associando à imagem da mulher a idéia de domesticidade, em que ela é responsável pelo consumo de produtos e artefatos para a casa, e para os outros membros da família, além, é claro, de seu consumo pessoal , restando ao homem a idéia de provedor da casa. Portanto, a mídia considera o gênero mais um produto que deve veicular e que tem implicações diretas na vida dos indivíduos. Dizer que os gêneros e seus papéis recebem um reforço ideológico da mídia voltada ao público infantil, significa que esta é uma idéia que deve ser disseminada pela mídia de uma forma mascarada, que não cause impacto nos espectadores e que obtenha a credibilidade e a reprodução das idéias por eles.
Constatando então que a mídia transmite ideologicamente elementos que façam com que seu público veja a cultura de forma mascarada, incluindo nos seus conteúdos concepções de gênero, o objetivo desta pesquisa é verificar quais são estas concepções transmitidas pela mídia televisiva infantil ao seu público. Para isso, analisamos, em um programa infantil de auditório, as brincadeiras desenvolvidas, seus participantes, o cenário em que acontece e o discurso da apresentadora e dos participantes relacionados ao gênero.
A importância deste trabalho se justifica no fato da mídia influenciar e fazer com que seu espectador se identifique com as ideologias, as posições e as representações sociais que elas transmitem, objetivando com que pensem e comportem-se de acordo com os “valores, às instituições, às crenças e às práticas vigentes” . Investigamos assim, como a concepção de gênero é transmitida e qual é esta concepção.
II A escolha do programa e das categorias da análise
As fontes de dados deste estudo foram as brincadeiras desenvolvidas no programa infantil de auditório “Tv Xuxa” da Rede Globo. A seleção e análise das brincadeiras se deram após duas etapas. Primeiramente optamos por selecionar um programa de auditório infantil que é transmitido por emissoras de canais sem assinatura. Descartadas algumas possibilidades, escolhemos apenas uma que apresenta um programa com essas características. Assim, selecionamos o programa “TV Xuxa” da Rede Globo, que é transmitido das 10 às 12 horas. Quatro programas, escolhidos aleatoriamente, foram gravados e depois tiveram suas brincadeiras transcritas para a análise neste trabalho. Os programas dos dias 05/10/2006, 09/11/2006,16/11/2006 e 17/11/2006 foram os escolhidos e suas brincadeiras exibidas nestes programas estão relacionadas no quadro 1.
Quadro 1:

As brincadeiras do programa são divididas em dois momentos. Um chamado “Acampamento X”, que são atividades desenvolvidas em uma fazenda, num espaço característico de acampamento. O segundo momento das atividades se dá no próprio palco do programa e se chama “Game X”. Observamos que durante duas horas de programa, incluindo os intervalos, são efetuadas somente duas brincadeiras, uma em cada espaço descrito. Confirmando assim os argumentos de Perroti em que a criança, além de ter perdido um espaço concreto para suas atividades lúdicas, é investida de produções culturais a fim de substituir o que é negado no espaço real. Investe-se em desenhos animados e nega-se o lúdico. Podemos nos perguntar então, como está ocorrendo o entendimento dos mundos interno e externo da criança, já que o lúdico, que é essencial a este processo está lhe sendo negado.
Foram identificados como aspectos da análise todas as características expostas durante a brincadeira que se relacionem às discussões de gênero. Portanto os participantes das brincadeiras, os critérios de inclusão na mesma, o cenário em que esta ocorre e os discursos da apresentadora e dos participantes relacionados ao gênero serão os subtemas desta análise, visto sua importância referente ao tema principal. A partir da análise das falas foram identificadas algumas características comuns entre eles. Estas características foram agrupadas de forma que se constituíram em categorias para análise, são elas: padrões de masculinidade e feminilidade observados nas brincadeiras; indicação das brincadeiras por gêneros; hierarquia de gênero através da brincadeira.
III A análise das brincadeiras
O programa TV Xuxa inicia com a entrada da apresentadora, Xuxa, cantando uma música direcionada ao seu público. Uma das frases da letra diz “solte a criança que existe em você”. Pensamos que esta frase seja uma forma de capturar também quem está cuidando da criança neste período, seja a babá (no feminino, já que dificilmente vemos homens nesta profissão), a pessoa responsável pelas atividades do lar ou um dos pais. Junta-se a isso a frase popular de que todos teríamos uma criança em nós. A letra então diz ao responsável pela criança ‘solte a criança que existe em você’ a fim de que seu lado criança se dedique a assistir a programação. Apreende-se outro público, que poderá assistir os desenhos, as brincadeiras, os intervalos e assimilará as idéias expostas por eles. Idéias estas que dizem respeito à função pedagógica da mídia, exposta por Moreira , que visa transmitir aos indivíduos os princípios de funcionamento do mundo.
Na seqüência temos o quadro “Por dentro do assunto”, que é caracterizado por explicações e informações acerca de um tema, a cada dia a temática muda. Julgamos interessante expor um quadro assistido, já que sua temática se relaciona com este trabalho, e se refere à descrição do brinquedo. Segue o discurso da apresentadora:
“As crianças sempre gostaram de imitar os adultos, por este motivo muitos brinquedos foram inventados desde que a humanidade existe. As meninas gostam de imitar as mães, cuidando dos filhos, arrumando a casa, fazendo comida, daí o sucesso da boneca e daqueles brinquedos que imitam os aparelhos domésticos, a mini máquina de costura, as batedeiras, as panelinhas. Já os garotos se amarram nos carrinhos, nos aviões, nos trenzinhos. Os brinquedos também são inventados para acompanhar as novidades do mundo. Quando o homem começou a viajar pelo espaço, por exemplo, apareceram os primeiros foguetinhos de brinquedo, e hoje tem até computadores de brinquedo. Existem profissionais que trabalham o dia todo só inventando brinquedos, mas muita gente inventa brinquedo em casa mesmo, às vezes com sucata e material reciclado e com muita criatividade, e olha que fica lindo”.
Verificamos que nesta fala há uma concepção sobre o brinquedo e a brincadeira. Eles existiriam devido ao fato das crianças gostarem de imitar os adultos e não como uma etapa essencial do desenvolvimento. O brincar, portanto, estaria ligado à imitação e desta forma transmitiria os conteúdos a serem seguidos. Segundo esta fala o mundo dos adultos é caracterizado pela mulher ser dona de casa, por ela costurar, fazer bolos e alimentos para a família. Já os homens são responsáveis pelo sustento e locomoção da família, ou seja, pelos carros, aviões e trens.
No momento em que se diferenciam as atividades pelo sexo/gênero, (“as meninas gostam de imitar as mães [...] Já os garotos se amarram nos carrinhos”) verifica-se a cisão entre dois mundos, o masculino e o feminino. Segundo o trecho acima a criança é encarada como um futuro adulto, que deve treinar suas habilidades através do brinquedo e depois exercer os papéis acima descritos. As realidades a serem vividas aparecem então divididas, ou escolhe-se brincar com utensílios domésticos, ou com aviões, ou se escolhe a passividade, ou a atividade.
Ao utilizar brinquedos que imitem utensílios domésticos, a menina estaria imitando a mãe e assim se preparando para ser uma mãe. Esta maneira de pensar é transmitida através do enfoque no público alvo do brinquedo e do discurso e comportamento dos pais; a menina é vestida de rosa, deseja bonecas expostas pela mídia, ganha estas e não carrinhos de presente, e quando apresenta um comportamento diferenciado recebe denominações relacionando-a a um menino.
Ao mesmo tempo verificamos que, segundo esse trecho do programa, os brinquedos acompanham as novidades do mundo. Hoje muitas mulheres não querem ser mães e estão fora do ambiente doméstico. Porque não criar bonecas advogadas, médicas, professoras ao invés de garotinhas de plástico com corpos inatingíveis e que servem para levar cachorros passear, ou ficam a beira da piscina que acompanha a boneca? Conclui-se que o modelo de mundo adulto exposto no quadro “Por dentro do assunto” está equivocado.
Porém é esta ideologia que é transmitida, a da mulher submissa e dependente do homem para seu sustento, pois mesmo que a mulher adentre o mercado de trabalho, e torne-se independente, estará impregnado nela, desde criança, a sua submissão em relação ao homem. Submissão e passividade reforçadas pelos meios de comunicação, e por vezes através de vias simples, como a acima descrita.
Ao apresentar este discurso, o programa reforça esta idéia, de que as meninas devem brincar com bonecas e com utensílios domésticos, seguindo o ‘modelo do mundo adulto’ e os meninos brincam com seus bonecos de super heróis, com carros e aviões. Reforça-se então a diferença e a hierarquia de gênero, como aponta Strey , quando argumenta que o poder e o controle social sobre o trabalho são associados à masculinidade. Encaramos enquanto associados ao masculino, as atividades que envolvem o super herói, visto que nos desenhos animados ele desempenha o papel de solucionador de problemas sociais, garantindo o controle do ‘seu’ espaço público, e recolhendo a mulher ao espaço doméstico, das maquinas de costura, batedeiras e panelas. O discurso da apresentadora, portanto, investe na oposição masculino/feminino outras características, como dominante/dominado, acima/abaixo.
Depois da entrada da apresentadora no palco do programa e do quadro “Por dentro do assunto” inicia-se a exibição dos desenhos animados, que também acreditamos demonstrar as relações de gênero, mas que não são alvo desta pesquisa. Após os desenhos, e um intervalo comercial, temos a primeira brincadeira do programa que é no espaço do “Acampamento X”. As brincadeiras diferem a cada dia, sendo que duas equipes estão competindo durante o mês inteiro.
No “Acampamento X” as equipes são mistas, consistindo de meninos e meninas. As equipes são diferenciadas pela cor da camiseta, as meninas usam faixas no cabelo da cor da equipe e os meninos, bonés. As roupas e calçados são idênticos para todos. Nos programas selecionados temos as brincadeiras: Alvoando (descida por um cabo sobre um rio, no rio são colocados alguns círculos, a criança deve acertar a bola que carrega, enquanto desce pendurada pelo cabo, no interior dos círculos), Voleixiga (jogo de vôlei com uma bexiga cheia de água), Arco e flecha (o alvo são vários círculos, um dentro do outro, conforme aumenta a dificuldade, aumenta a pontuação) e Bourd Mountain (descida de uma montanha com uma prancha sobre rodas).
Estas brincadeiras não são coordenadas pela apresentadora Xuxa. O que é exibido são somente os participantes já atuando na brincadeira, portanto é raro observar algum discurso em paralelo com a brincadeira, a não ser incentivos do próprio time. A apresentadora Xuxa faz um comentário depois da brincadeira para encerrar o quadro, mas de outro espaço físico, não o mesmo em que as brincadeiras foram realizadas. A seleção dos participantes e a preparação para a brincadeira não são exibidas.
Não se apreende, ao assistir um só programa, o fato de que os meninos participam mais das brincadeiras que as meninas neste espaço, que é caracterizado por brincadeiras com características de esportes radicais. Ao analisar os programas, verificamos que na brincadeira Alvoando, dos doze participantes havia apenas uma menina. Na brincadeira Voleixiga observou-se uma aliança entre os meninos, cada time tinha seis participantes (3 meninos e 3 meninas), e quando os garotos estavam com a bexiga d’água na mão geralmente passavam-na para outro menino, excluindo as meninas da brincadeira. As meninas estavam, então, incluídas na brincadeira, porém excluídas dela pelos meninos. Na brincadeira Arco e flecha somente dois participantes de cada equipe brincava. Todos os representantes eram meninos. No Bourd Montain, observamos as mesmas características, três participantes de cada equipe, e somente uma menina em cada.
Como as regras para a participação e seleção dos integrantes de cada brincadeira não são transmitidas no programa, buscamos no site do mesmo estas informações, mas não encontramos. Pensamos na possibilidade de haver regras para a seleção dos membros que competem a cada dia e brincadeira. Desta forma a exclusão seria mais visível, já que partiria da direção do programa em questão. Se esta não participação ocorrer devido às escolhas da equipe, verificar-se-ia uma correlação entre os esportes mais radicais e sua prática feita por meninos, já que como dito anteriormente, os meninos brincam com os aviões e as meninas com bonecas inofensivas.
Pensamos então que, considerando esta segunda hipótese, estaria impregnado nestas crianças a hierarquia exposta acima, de que homens são fortes, corajosos e dominantes, e mulheres não. Como o que existe na brincadeira é uma competição, seleciona-se os membros que melhor representarão a equipe naquele momento. Neste caso então, os meninos, o que vem ao encontro das argumentações de Nolasco , sobre as expectativas de um comportamento ativo (guerreiro) dos meninos, e já das meninas, recato, recolhimento.
As outras brincadeiras ocorrem no palco do programa e ganham o nome de “Game X”. Em dois dos programas selecionados a brincadeira não foi feita, num deles em razão da emissora transmitir um jogo de um campeonato de futebol de areia no mesmo horário e por isso o programa foi encerrado antes do horário normal, e o outro dia houve a exibição de um concurso de cantores mirins no próprio programa.
Nos dois dias a brincadeira foi “Quem não dança, dança” que consiste em dançar de acordo com os passos ditados pelo computador. O cenário em que este quadro ocorre é no próprio palco, porém com características diferentes do início do programa, quando a platéia consistia de meninos e meninas reunidos e vestidos com as próprias roupas. Neste segundo momento, o da ‘competição’, observamos que ao lado direito da tela estão as meninas. A decoração, as roupas, as ‘bandeirinhas’ nas mãos, os bonés, as luzes que são emitidas pela estrutura da arquibancada, todas em cor de rosa. Ao lado esquerdo do vídeo, os meninos, tudo em verde. Percebe-se a cisão da platéia na hora da competição, os gêneros se unem para tentar superar um ao outro. Sabemos que há uma relação popular das cores com os papéis de gênero, na qual caracterizaria os rosas e seus tons derivados por cores mais femininas, já as cores ditas frias (azul e verde, por exemplo) representariam a masculinidade.
Neste espaço verificamos que quatro representantes de cada equipe ficam no palco ao lado da ‘sua’ torcida. Supomos que estes sejam os competidores que representem a platéia do mesmo sexo.
Para iniciar a brincadeira a apresentadora diz “Agora é hora de competição, menino contra menina”, chama os competidores e eles dão início ao jogo. Travando assim o início da batalha, que quando concluída demonstrará qual participante/gênero superou o outro.
A brincadeira tem três etapas. No resultado de cada uma delas é mostrado um placar eletrônico, com o objetivo de somar os pontos ganhos na etapa da brincadeira com os que a equipe já possuía. Para representar as equipes observamos neste placar o desenho de um menino e uma menina, loiros e sorridentes, como um espelho da apresentadora e vestidos como os competidores (verde e rosa). Os números recebem cores, amarelo para os meninos e rosa para as meninas.
Além desta característica de que a feminilidade seria representada por cores como o rosa para indicar delicadeza, observamos o discurso da apresentadora como uma narrativa do jogo. Ela não atribuía características associando-as com o sexo de cada competidor, mas incentivava aquele que estava perdendo “tem que pisar com força” “os meninos estão marcando mais pontos” “as meninas estão na frente. Vai, vai, vai gente!” “vai, não pára de fazer”. E deixa escapar: “as meninas não deixaram os meninos encostar e nem passar, elas se revelaram e disseram não, não, não, não! Não, não!!!”, demonstrando que as meninas não renunciariam a este espaço ganho, o de vencerem a brincadeira, e ao mesmo tempo conferindo à elas atributos que até o século XX caracterizavam os homens, como o de liderança. Estes atributos passaram a ser discutidos, juntamente com uma série de reivindicações que o movimento feminista realizava, desde pouco antes da virada para o século XX.
Interessante notarmos que Xuxa pouco fala durante as brincadeiras, nada de critérios de seleção ou de ir até a platéia escolher um participante, somente apresentou os competidores e entusiasmou-os para a brincadeira. Porém sua fala não lhe impediu de revelar algumas concepções. Notamos também que o descrito é o que a própria apresentadora reproduz: a imagem da mulher independente e ativa.
Ao falar dos prêmios que a equipe vencedora ganharia, foram aparecendo na tela imagens referentes a eles: uma mochila (de cor verde) um DVD da Xuxa e um tocador portátil de cd (cor de rosa). A divisão das equipes pelo sexo e as cores que a caracterizavam tornou-se mais visível já que todo o cenário estava organizado desta forma.
Perguntamos então se o programa está reproduzindo as idéias que relacionam o ‘cor de rosa’ à delicadeza e à própria feminilidade. Acreditamos que sim. Quantas vezes ouvimos mulheres grávidas falarem que esperam saber o sexo do bebê para assim comprarem suas roupas? Afinal como assevera Kehl , a linguagem precede os indivíduos e investe neles determinadas posições simbólicas,
homem e mulher são os primeiros significantes que nos designam, logo que chegamos ao mundo antes de qualquer possibilidade de escolha ou mesmo de desejo [...] somos ‘homens’ ou ‘mulheres’ porque a cultura assim nos designou e nossos pais assim nos acolheram.
Ao sexo do indivíduo a cultura associa uma série de comportamentos esperados, e é assim que nossos pais nos receberão, com as diferenciações das características de cada gênero, ou seja, roupas azuis e verdes para bebês meninos, e roupas rosas para bebês meninas. Acreditamos também que a cor da vestimenta para os diferentes sexos não seja problema para as mulheres, mas sim para os homens. Qualquer olhada atenta nas ruas nos faz perceber a precariedade de homens vestidos com cores associadas à delicadeza, o próprio rosa, por exemplo.
Quanto às falas das crianças durante a brincadeira verificamos que tanto no “Acampamento X” quanto no “Game X” ele é quase inexistente. Notamos no primeiro espaço citado que o grupo apoiava verbalmente com expressões como “é isso ai” “bom! Muito bom” quando o companheiro de equipe tinha sucesso. Já no segundo espaço o incentivo ao competir vinha da apresentadora, a torcida/platéia também o fazia, porém o telespectador não consegue identificar o que dizem, visto que todos falam ao mesmo tempo.
Como relatamos, o público do programa não tem contato com os critérios de seleção das crianças por jogo, e pouco fala durante a prática das brincadeiras, estes seriam interessantes pontos de análise, já que na prática diária das brincadeiras, as concepções de homem e de mulher e seus papéis na sociedade são demonstradas de forma mais concreta, como constatou Jucélia Santos Bispo Ribeiro , em um estudo desenvolvido numa comunidade praieira da Bahia.
A autora verificou que as brincadeiras desenvolvidas pelas crianças, e a sua forma de agir nestas brincadeiras estavam envolvidas por concepções sociais, sobre o homem e a mulher, aprendidas na família e no meio social em que vivem. Segundo a autora, as crianças reproduzem as informações transmitidas pelos adultos “reelaboram e criam idéias sobre a maneira de ser e agir das pessoas [...], iniciando um ciclo em que surgem as construções sociais mais sofisticadas sobre sexo e gênero, sob formas simbólicas de gestos, modos de andar e falar, brincadeiras de erotização do corpo” . Através das brincadeiras que participam, do modo com que brincam, e como reagem frente às criticas de outra criança durante a brincadeira, meninas e meninos caracterizam-se uns aos outros, elas descreveram os meninos como ousados, malvados, briguentos e eles, descreveram-nas como assanhadas, fogosas ou direitas. Adjetivos capturados pelas brincadeiras, que dão significado à cada criança que brinca.
Outro quadro em que Xuxa interage com crianças é quando ela e mais duas crianças entrevistam um convidado. Em um dos programas selecionados o skatista Bob Burnquist era o convidado e seus entrevistadores mirins eram dois meninos. Já no programa em que o ator Reinaldo Gianechini foi convidado, um menino e uma menina foram seus entrevistadores, juntamente com a apresentadora do programa. Interessante notar que as perguntas do menino direcionadas ao ator iam de encontro com a sua posição de homem, à sua masculinidade construída socialmente, e se ele abriria mão dela em função do seu trabalho: “Você pintaria seu cabelo de loiro se fosse chamado para uma novela?” ou “qual foi o momento da sua vida que foi mais difícil?”. Já a garota questionou enquanto falavam sobre novelas: “E se você tivesse que engordar?”.
Notamos que nestas frases se encontram as próprias preocupações infantis em relação aos seus corpos. Bordo assinala que os corpos também são investidos culturalmente, sendo então um texto da cultura e um outro lugar de controle social.
Segundo Nolasco , o estereótipo de homem se faz “sob sucessivos absolutos: nunca chora; tem que ser o melhor; competir sempre; ser forte; jamais se envolver afetivamente e nunca renunciar”. A dúvida do garoto sobre o ator colorir os cabelos vai de encontro com a renúncia deste último a este estereótipo de homem, já que o ator admite seu envolvimento afetivo com a profissão e que pintaria os cabelos por ela.
Como aponta Kehl , a feminização do homem é sentida por ele como perda. Notamos, através do questionamento do garoto, que seu entendimento de masculinidade vai de encontro com o medo da feminização do ator, por pintar seus cabelos, e que paralelo à sua pergunta encontra-se o desejo de saber qual a concepção de homem do ator. Da mesma forma a pergunta da garota refere-se ao corpo, que também é investido cultural e socialmente. O ‘engordar’ também é uma renúncia para ela, a renúncia do corpo magro exigido nos dias de hoje. Discutimos anteriormente sobre o quanto as cores são investidas de significados, verificando que a feminização é sentida como perda, justificamos o fato de que os homens, em sua grande maioria não se vestem com esta cor, pelo receio da sua feminização.
Portanto os ‘padrões’ de masculinidade e feminilidade observados no programa nos levam de encontro ao estereótipo de homem de Nolasco. No Acampamento X os meninos têm maior participação, pois segundo o autor espera-se ação deles, já das meninas, recato. O homem tem que competir e ser forte. Da mesma forma, as brincadeiras são indicadas pela diferença dos gêneros. Descida por um cabo sobre um rio para os meninos, para as meninas, elogio, pois não deixaram os meninos se igualarem a elas na brincadeira da dança. Verifica-se esta hierarquia de gênero também no quadro “Por dentro do assunto”, ao falar sobre o modelo de mundo adulto, direcionando também às brincadeiras aos meninos, e outras às meninas, ou seja, padronizando-as de acordo com o que a ideologia cultural deseja transmitir dos gêneros, do feminino e do masculino.
IV Considerações finais
Verificamos com esta pesquisa que as concepções de gênero são transmitidas de formas sutis ao público do programa. Por vezes, apreendem idéias que as aproximam de um ideal de gênero, aproximando-as dos meninos, como quando a apresentadora caracterizou as meninas que estavam brincando como guerreiras e ativas, dizendo muitos ‘nãos’ a fim de enfatizar não apenas que elas teriam ganho na brincadeira, mas que não teriam deixado os meninos se igualarem a elas. Outras vezes reforçam as idéias referentes à subordinação à hierarquia de gênero, em que os homens seriam mais capacitados para desenvolverem algumas atividades.
Um dado importante é o modelo de mundo adulto transmitido pelo programa ao falar sobre o brinquedo no quadro “Por dentro do assunto”. Mesmo ele não sendo objeto primeiro de nossa análise, o julgamos importante visto sua relação com o tema abordado. O modelo apresentado refere-se a uma mulher enquanto dona de casa e dependente do marido. Reforçando a idéia de submissão feminina e fazendo com que a criança se prepare para ela, ao enfatizar que brinquedos de menina são os relacionados ao lar. Ao enfatizar que as crianças gostam de imitar os adultos ao brincar, reforça-se também a idéia de que o brinquedo tem apenas esse papel no desenvolvimento da criança.
Verificamos as indicações das brincadeiras de acordo com o gênero. Brincadeiras mais ‘ousadas’ para os meninos, e elogios para as meninas por seu bom desempenho em brincadeiras mais delicadas. Outra característica observada é a reprodução da associação de conteúdos com feminilidade e masculinidade. O cor-de-rosa utilizado para identificar as meninas e o verde para identificar os meninos. Confirmamos assim a influência da mídia no reforço das ideologias vigentes relacionadas ao gênero.
Observamos também a falta de fala e interação das crianças com a apresentadora durante a brincadeira. As crianças estão no programa para desempenhar um papel, o de espectador e para auxiliar na produção do programa, como quando competem. A interação com o público infantil verificada há alguns anos, em que a apresentadora retirava da platéia alguém para brincar e depois lhe cedia espaço para fala e agradecimentos não ocorre mais. A criança neste espaço não tem voz, discurso ou criação alguma. Reproduz o que lhe é pedido, dança de acordo com o computador ou acerta flechas nos alvos indicados.
A precariedade do lúdico também foi verificada, levando-nos a questionar como está e como será o desenvolvimento infantil visto a negação deste recurso ao seu desenvolvimento. Esta foi uma das dificuldades do presente trabalho. Como analisar brincadeiras se elas são quase inexistentes? Ao mesmo tempo, observamos nesta dificuldade uma proposta de trabalho futuro: qual será o desenvolvimento das crianças que se privam ou são privadas do lúdico?
Este trabalho nos fez pensar também na constituição e reprodução dos gêneros, já que desde criança somos investidos de ideologias que impõem a hierarquia de um gênero sobre o outro e ditam a familiarização à esta hierarquia, quando exemplificam o mundo adulto, por exemplo. Uma outra proposta seria estudar o impacto, a aceitação e a ideologia transmitida por desenhos infantis que tem mulheres como super heroínas. Devemos nos perguntar até que ponto este desenho está ajudando a manter a ideologia e hierarquia presente nos gêneros, sendo apenas mais um veículo que visa o acúmulo de capital da empresa televisiva que o transmite. Estas análises também contribuiriam no entendimento da propagação das concepções de gênero, citadas no decorrer deste trabalho.
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Publicado em 11/10/2011 11:23:00
Currículo(s) do(s) autor(es)
Vanessa T. da Soler e Rafael S. de Guimarães - (clique no nome para enviar um e-mail ao autor) - Vanessa Tramontin da Soler: Psicóloga, graduada pela Universidade Estadual do Centro Oeste e Mestranda em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná.
Rafael Siqueira de Guimarães: Professor Adjunto do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual do Centro-Oeste, Campus de Irati. Psicólogo, graduado pela Universidade Estadual Paulista, mestrado em Educação Especial pela Universidade Federal de São Carlos e doutorado em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista. rafaorlando@gmail.com

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