domingo, 1 de abril de 2012

O lugar dos pais na aprendizagem da criança

O LUGAR DOS PAIS NA APRENDIZAGEM DA CRIANÇA Hevellyn Ap. das Neves de Amorim e Renata Cristina Nascimento Nogui Resumo A aprendizagem é um processo dinâmico e dependente não só de questões do âmbito escolar, mas fortemente influenciável pela realidade afetiva oferecida pela família à criança. Diante disto, este artigo tem por objetivo descrever o papel dos pais na aprendizagem de menino de 9 anos com dificuldades no desenvolvimento escolar. Este estudo qualitativo foi estruturado a partir da análise de rotina de atendimento psicopedagógico, composto por uma sessão de Anamnese, 5 sessões de diagnóstico e 12 sessões de intervenção. Os resultados apontaram prejuízo no processo de alfabetização do investigado causado por intervenção violenta dos pais, podendo-se concluir que práticas coercitivas parentais têm força suficiente para reprimir o indivíduo diante do aprender, quadro que pode ser revertido por meio de acompanhamento psicopedagógico capaz de resgatar a motivação e a autoestima do educando. Palavras-Chave: Aprendizagem; pais; diagnóstico psicopedagógico; tratamento psicopedagógico Abstract Learning is a dynamical process and it depends not only on school environment matters, but it is also strongly influenced by the affective reality offered from the family to the child. Therefore this article has the aim to describe the parents duties for the learning process of a 9 years old boy with learning disabilities. This qualitative study was structured by analyzing the psycho-pedagogical treatment, comprising an Anamnesis session, 5 diagnosis sessions and 12 intervention sessions. The results had shown that there were losses on alphabetization process caused by violent parental intervention, leading to a conclusion that parental coercive practices are strong enough to repress the individual on learning. This picture can be reverted by psycho-pedagogical attendance which is able to bring back the motivation and self-esteem of the one who is being brought up. Keywords: Learning; parents; psycho-pedagogical diagnosis; psycho-pedagogical treatment. Introdução Segundo Pantoja (2009), é no processo de aprendizagem que o indivíduo passa a apropriar-se do conteúdo da experiência humana, a qual modifica seu comportamento a partir da interação com outros seres em sociedade. A aprendizagem pode ocorrer dentro e fora da escola, gerando tanto aquisição de competências benéficas, quanto hábitos questionáveis, sujeitos a influências internas ou externas, sociais ou individuais. Para Vasconcelos (apud PANTOJA, 2009) conhecer é estabelecer relações, nas quais, quanto mais complexas, melhor o sujeito aprende. Pantoja (2009) cita ainda que, quanto maior a necessidade de aprender, maior serão as relações e a motivação empregadas, ficando, portanto, segundo teorias de Piaget, a afetividade como um dos principais personagens para o aprender. José & Coelho (1999) também destacam o fato de a aprendizagem não ser restrita ao ensino e ao ambiente escolar, mas abranger hábitos, aspectos afetivos e valores culturais internalizados ao longo da vida. Em mão oposta ao desenvolvimento esperado nas questões relacionadas ao aprendizado, os problemas de aprendizagem podem ser entendidos como dificuldades enfrentadas pelas crianças em relação ao desenvolvimento de seus colegas de mesma faixa de idade, sejam elas em fase anterior, no início ou no decorrer do processo de escolarização (MARTIN & MARCHESE apud FONSECA, 1999). Compreendem ainda fenômenos com causas que podem envolver aspectos socioculturais, pedagógicos, cognitivos e psicodinâmicos, sendo que, a partir de resultados obtidos em pesquisa qualitativa, a dinâmica familiar apresenta-se como fonte principal de tais problemas (SALVARI e DIAS, 2006). Para Legrand (1974), embora fatores congênitos e sociais estejam ligados ao aproveitamento escolar, é possível a constatação de indivíduos com inteligência desenvolvida não obterem sucesso nos estudos; em situações como esta, falta de interesse ou atenção, não assimilação de conteúdos e até falta de memória culminam em um desempenho insuficiente em sala de aula, o qual pode ser reflexo de perturbações de ordem afetiva. Para o autor, além da forma como é desempenhado o acolhimento da criança pela escola, “o interesse ou desinteresse que os pais mostram pelo trabalho escolar constituem igualmente uma fonte de valorização afetiva” (p. 20). Salvador (2007), ao apontar que contextos familiares e escolares são fatores essenciais para o desenvolvimento global da criança, destaca a importância da relação com os pais como fator socializador e alicerce para a forma da criança lidar com as questões escolares. As práticas educativas parentais podem ser definidas como estratégias dos pais para alcançar objetivos pontuais em relação aos filhos, a fim de suprimir ou incentivar comportamentos específicos, sejam eles adequados ou não (ALVARENGA apud SALVADOR, 2007). Tais estratégias podem ser manifestadas tanto sob a forma de práticas educativas não-coercitivas, as quais são caracterizadas pelo uso de reforçadores positivos para o controle comportamental da criança, ou ainda sob a forma de práticas coercitivas, caracterizadas pelo uso de punições, ameaças e castigos para o controle de comportamento. De acordo com Salvador (2007), “apesar de terem o mesmo objetivo, práticas não-coercitivas e coercitivas são responsáveis por diferentes efeitos no desenvolvimento dos filhos”. Soifer (1992) afirma que “as possibilidades de desenvolvimento físico e psíquico da criança dependem exclusivamente das condições materiais e emocionais que lhe oferecem os seus familiares, em especial, a mãe (p. 150); a criança apresenta necessidade de ajuda externa para realizar ações, dependência esta amenizada com o passar dos anos e com a organização do ego a partir da aprendizagem e assimilação de novas capacidades. Ainda segundo a autora, a família é responsável pelo ensino e aprendizagem na relação com as crianças, sendo a transmissão do ensino pelos pais um ato de regressão parcial destes, a fim de que haja a compreensão por parte de seus filhos. A aquisição da aprendizagem, organização do ego e da personalidade da criança ficam, assim, influenciáveis não só pela sua disposição própria à aprendizagem, como também a modelos e influências recebidos pelos pais durante a infância, seus conhecimentos gerais sobre educação e o contexto social no qual se encontram inseridos. Fonseca (1999) cita a grande contribuição por parte da família no desenvolvimento de problemas de aprendizagem dos filhos que, ao iniciarem a vida escolar, podem apresentar transtornos decorrentes de “conflitos e crises de um sistema familiar ineficiente”. Como agravante ainda, tal desestruturação familiar no processo corre o risco, muitas vezes, de sofrer uma marginalização sócio-educativa por parte da instituição escolar, criando um círculo vicioso e cego que contribui para a manutenção das dificuldades do educando. Para Fernandéz (1990), partido de uma visão psicopedagógica, caso os problemas de aprendizagem fossem vistos como derivados apenas do organismo ou da inteligência, não haveria a necessidade da participação ou da investigação da família durante acompanhamento clínico. “No diagnóstico tradicional, ainda que se incluam os pais, o centro é a criança paciente; ela é chamada na maioria das vezes, e é ela que se estuda. Os pais participam somente como informantes e os irmãos ficam à margem. Com este enquadre, começa-se aceitando e confirmando a suposição de que o problema está somente na criança. (...) O diagnóstico tradicional favorece a localização dos pais em um falso lugar do saber. (...) Nós, tomando como protagonistas a família, pretendemos já desde a convocação, ter uma intervenção operativa em relação à mobilidade desse lugar do saber dos pais” (FERNANDÉZ, p. 30). Ao levar em conta o que foi exposto até aqui, de maneira breve e sem a pretensão de esgotar o assunto, este estudo tem por objetivo descrever a influência dos pais no processo de aprendizagem em menino de 9 anos com dificuldades no desempenho escolar. Método Trata-se de um estudo qualitativo realizado a partir de caso clínico no qual a criança investigada é um menino de 9 anos de idade, estudante da terceira série em escola da rede municipal de ensino no Litoral Paulista, com dificuldades escolares e encaminhado pela própria família para atendimento em clínica psicopedagógica de universidade privada na mesma cidade. Segundo relatos da avó paterna durante realização de Anamnese, Bruno apresentou um desenvolvimento normal e esperado desde o nascimento, não havendo, inclusive, queixas ou indícios de comprometimento de ordem cognitiva. O início de seu processo de alfabetização, por volta dos seis anos de idade, deu-se de maneira convencional e com sinais de bom aproveitamento por parte de Bruno; a dificuldade que originou tal acompanhamento teve início ainda no processo de aquisição da leitura e escrita e foi decorrente de possível trauma causado pela impaciência, pressão psicológica e agressividade física dos pais durante acompanhamento dos estudos em casa, além de violenta crise conjugal que culminou em separação. Como instrumentos de acompanhamento do caso foram utilizados uma primeira entrevista com familiar próximo para o preenchimento de Anamnese e apresentação da queixa; seguiram-se cinco sessões diagnósticas para observação e avaliação do sujeito e mais doze sessões de intervenção psicopedagógica. Seguindo com os procedimentos, a Anamnese foi o primeiro contato realizado com a família, como dito anteriormente, representada pela avó, e sem a presença de Bruno. A partir de então, tiveram início as sessões diagnósticas (SD), em um número total de cinco, nas quais se destacam os seguintes tópicos explorados: desenho de uma figura humana, prova operatória de conservação de massa e associação de palavras e imagens (SD-1); provas operatórias de seriação complexa e conservação de número, coordenação motora, identificação de letras e palavras, desenho de uma família (SD-2); desenho de par educativo, leitura de imagens, ditado e seqüência numérica (SD-3); prova operatória de inclusão de classes, situações-problema, montagem de palavras e jogo da memória com palavras e imagens (SD-4); atividade sensorial (jogo do tato), dominó com imagens e letras iniciais e desenho livre (SD-5). Feito isto, teve início o período de recesso acadêmico, com duração aproximada de dois meses, e consequente pausa nos atendimentos. Passado o período de férias, o acompanhamento, então, teve prosseguimento com o início das sessões de intervenção (SI) com duração aproximada de cinqüenta minutos cada e nas quais foram trabalhados: resumo das férias e atividades de escrita livre (SI-1); leitura de palavras simples e associação as suas respectivas imagens, alfabeto móvel (SI-2); continuação do trabalho com alfabeto móvel e jogo de dominó com palavras e imagens (SI-3); leitura de parágrafo simples (com predomínio das consoantes B e D), leitura de palavras aleatórias e separação de sílabas (SI-4); revisão de exercícios programados para casa, ditado de sílabas e confecção de cartão em homenagem ao “Dias das Mães” (SI-5); revisão das habilidades matemáticas (SI-6); leitura, exercícios simples de adição e desenho projetivo (SI-7); reconhecimento das dezenas, contagem de dez em dez e jogo “Bingo das Palavras” (SI-8); manipulação do material dourado para concretizar conceitos de unidade, dezena e centena, além de jogo para associação de figuras e palavras (SI-9); leitura, ditado e manipulação de material dourado (SI-10); trabalho com operações matemáticas básicas, dominó de palavras e “Jogo da Garrafinha” (associação de palavras) (SI-11); revisão de exercícios para casa, leitura do livro de Ana Maria Bohrer, “O bolo”, finalização dos atendimentos com a criança, devolutiva com a avó (SI-12). Resultados/Discussão No decorrer das sessões diagnósticas foi possível perceber que, embora constatado o fato de Bruno apresentar capacidades de desenvolvimento e aprendizagem dentro da normalidade, suas produções indicavam certa imaturidade para a idade, além de insegurança; nos desenhos predominaram traços primitivos e lentos; a habilidade com operações matemáticas mostrou-se limitada, sendo a maior dificuldade a apresentada na área da leitura e escrita, a mais castigada pelas ações parentais coercitivas apontadas por Alvarenga (apud SALVADOR, 2007) durante o processo de alfabetização. Embora reconhecesse algumas letras isoladas do alfabeto, a criança não conseguia unir sons de consoantes e vogais, formar sílabas simples ou registrá-las de forma escrita. Apesar das grandes dificuldades na fase inicial de atendimento, em todos os momentos Bruno mostrou-se atencioso e disposto a realizar suas atividades, assimilando conceitos e coordenadas de maneira satisfatória quando estimulado de maneira correta. Retomando Soifer (1992) ao dizer que o desenvolvimento da criança depende também das questões emocionais e da ajuda oferecidas por seus pais, Bruno desde o início apresentou-se apreensivo e pouco confortável nos momentos em que foi acompanhado pela mãe às sessões; seu melhor desempenho acontecia sempre quando em presença da avó paterna, talvez o único referencial paciente e disposto a acompanhá-lo verdadeiramente em seu desenvolvimento escolar. As sessões de intervenção decorreram dentro do programado e, apesar de algumas interrupções devido a questões de saúde de Bruno, o aproveitamento foi satisfatório. Durante os atendimentos pôde-se constatar que, assim como o apontado por Legrand (1974), as dificuldades de aprendizagem apresentadas no caso em questão não eram frutos de comprometimento cognitivo, mas sim de considerável deficiência de ordem afetiva que culminaram em bloqueio no desenvolvimento do paciente. Por meio de um trabalho psicopedagógico amparado no acolhimento, em estímulos e orientações específicas que buscavam resgatar conhecimentos adormecidos e promover a motivação para aprendizagem defendida por Pantoja (2009), Bruno mostrou-se capaz de construir e reconstruir conceitos, além de assimilar e internalizar de maneira satisfatória o que de novo lhe era repassado. As habilidades matemáticas básicas foram fortalecidas, sendo o maior progresso o obtido nas questões de leitura e escrita, tão castigadas no início do processo de alfabetização; a caligrafia apresentou melhora, assim como a capacidade em assimilar fonemas para a formação de palavras e a leitura destas. A cada sessão mostrava-se sensível a melhora nesta habilidade específica, além da satisfação de Bruno em conseguir realizar suas tarefas. O momento da devolutiva com a avó foi marcado pelo contentamento desta diante da evolução de Bruno, o qual, além de começar a ter refletida a melhora em seu contexto escolar, passou a apresentar uma postura mais receptiva diante do conhecimento e a comentar sonhos que incluem formação acadêmica e estruturação de uma família sólida. Embora não seja possível ter certeza sobre acontecimentos futuros, falas como esta, ainda que ingênuas, podem sugerir que o trabalho realizado, embora breve, não foi em vão. Considerações Finais A questão do aprender estende-se muito além dos contextos escolares; a criança inicia seu processo de aprendizagem e descobrimento de mundo muito antes de adentrar os muros da escola, sendo as figuras paternas os responsáveis por sua estruturação e preparo para a inserção em sociedade. Cabe aos pais, portanto, a responsabilidade do acolhimento e do acompanhamento de seus filhos durante sua formação, ficando estes passíveis de desenvolver problemas de aprendizagem caso aqueles não desempenhem de maneira saudável uma relação familiar estruturada na afetividade. Diante de casos de insucesso em tal questão, porém, um trabalho psicopedagógico que leva em consideração não só o indivíduo com dificuldades escolares, mas também sua realidade familiar, baseado na motivação e resgate da autoestima, tem se mostrado eficaz no resgate das habilidades de aprendizagem e desempenho escolar. Bibliografia Referências FERNANDÉZ, A. A inteligência aprisionada. Tradução Iara Rodrigues. 2ª reedição. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990. FONSECA, N. G. A influência da família na aprendizagem da criança. Projeto de Pesquisa. Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica - CEFAC. São Paulo, 1999. JOSÉ, E. da A. & COELHO, M.T. Problemas de aprendizagem. São Paulo: Ática, 1999. LEGRAND, L. Psicologia Aplicada à Educação Intelectual. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1974. PANTOJA, D. O processo de aprendizagem – A construção do conhecimento. In: WAJNSZTEJN, Alessandra B. Caturani & WAJNSZTEJN, Rubens. Dificuldades escolares: um desafio superável. 2² edição. São Paulo: Ártemis Editorial. SALVADOR, A. P. V. Análise da relação entre práticas educativas parentais, envolvimento com tarefas escolares, depressão e desempenho acadêmico de adolescentes. Dissertação de Mestrado. Curitiba, 2007. SALVARI, L.F.C & DIAS, C.M.S.B. OS problemas de aprendizagem e o papel da família: uma análise a partir da clínica. Estudos de Psicologia, 23 (3), (pp. 251-259). SOIFER, R. Psiquiatria Infantil Operativa. Tradução José Cláudio de Almeida Abreu. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992. Publicado em 25/02/2012 13:59:00 Currículo(s) do(s) autor(es) Hevellyn Ap. das Neves de Amorim e Renata Cristina Nascimento Nogui - (clique no nome para enviar um e-mail ao autor) - Hevellyn Amorim: Graduada em Letras (Línguas Portuguesa e Inglesa) pela Universidade Paulista (Santos/SP) e concluinte do curso de Pedagogia na mesma instituição. Especialização em Psicopedagogia Institucional e Clínica pela Universidade Católica de Santos. Atua como Professora e Psicopedagoga Clínica. Renata Nogui: Graduada em Ciência da Computação pela Universidade Santa Cecília (Santos/SP) e concluinte do curso de Pedagogia pela Universidade Paulista (Santos/SP). Especialização em Psicopedagogia Institucional e Clínica pela Universidade católica de Santos. Proprietária de franquia educacional e Psicopedagoga Clínica. renogui@hotmail.com

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